A noite havia sido passada em claro, o ômega sequer conseguindo fechar os olhos após ter sido informado de que seria dado de presente a um militar de alta patente. Quando enfim criados apareceram para limpá-lo e vesti-lo como se fosse uma boneca, tiveram de esconder uma camada de olheiras. Queria rastejar de volta para sua cama, mesmo que não conseguisse pregar os olhos, queria o conforto e familiaridade que meses dormindo nos mesmos lençóis lhe traziam.
Passou um longo tempo esperando até que o criado veio lhe chamar, mas sequer olhou para o homem ao qual pertenceria. Não faria diferença, Reverie aprendera desde muito cedo que as aparências eram a última coisa que deveria importar. Ódio e crueldade podiam ser facilmente escondidos sobre uma máscara enfeitada, e a beleza pouco fazia além de enganar pessoas. Era algo tão volúvel e instável, que o ômega se perguntava por que tal conceito existia. O rei, por exemplo, não seguia o padrão esperado, mesmo que ninguém jamais ousasse dizer isso, mas sua confiança e gentileza faziam-no belo, e Reverie pensou que poderia se apaixonar por ele.
Isso foi no começo, na primeira vez que o vira. Fora tratado com algo que se assemelhava a respeito, como se o outro o visse como uma pessoa, e não apenas sua classe. Mas então passara os próximos quatro meses sendo ignorado, era cuidado, claro, mas m*l o vira de relance depois disso. Era algo que não esperava. Pensava que fazia parte do harém real, isso fora deixado implícito, mas agora era passado para outrem.
O silêncio da parte do general o surpreendeu, assim como saber que ele era um maldito general. Sua reação à presença de outro lúpus fora totalmente biológica e fora de seu controle, seus ferormônios agindo como faziam ao encontrar um parceiro que julgavam adequado. Ele se impediu de encolher-se ao sentir o impacto da sensação esmagadora ao entrar na sala, do tapa em sua face ao descobrir que fora dado a um lúpus.
Alfas comuns já eram difíceis de lidar, mas estes eram ainda piores. Costumavam ser violentos, descontrolados, todos os daquele gênero pelos quais passara pela mão sempre menosprezavam os demais, perfeitos demais para qualquer um, todos haviam o usado como um brinquedo que não podia ser quebrado. E os deuses sabiam o quanto já havia se reconstruído, apenas para que aqueles homens continuassem tomando tudo de si. Estava cansado, então deixaria para trás o sentimento de esperança após os meses sendo bem tratado no castelo por enquanto, para que pudesse sobreviver.
m*l ouviu a conversa até que seu novo dono o chamou, ao que respondeu levantando-se e se curvando antes de se afastar do rei, fazendo o mesmo mais uma vez em sincronia com o general antes de ambos saírem do cômodo. Eles haviam dito que seu nome era Ezarah Notier, algo que ficou grato por saber, já que ele sequer lhe olhou até chegarem ao quarto que seria sua cela naquela noite.
“Fique por aqui.”, o outro disse, não se dando ao trabalho de entrar no quarto, apenas o empurrando para dentro, antes de completar. “Não se preocupe, logo estarei de volta.”
A porta foi fechada em sua cara e Reverie estava pronto para se sentar e chorar, mas se conteve, respirando fundo. Havia uma jarra de água sobre um aparador, mas não sabia se podia beber, contentou-se em sentar no tapete redondo e macio no meio do imenso recinto, que era dividido em três partes, sem ousar tocar em qualquer coisa.
O rei havia lhe encomendado um filho. Seus dedos se fecharam com força e sua expressão se tornou retorcida, mas se obrigou a respirar fundo e contar até dez. Não podia deixar-se ser pego pelo desespero. Era um ômega, sua função na sociedade se resumia a dar filhos, era natural que quisessem isso de si em algum momento. Tivera até sorte, fora poupado de engravidar na adolescência, algo extremamente comum, antes de seu corpo estar de todo pronto.
O quarto estava agradável, a lareira não era necessária, mas as paredes cheias de tapetes deixavam o ambiente quente, longe da brisa gelada que passeava do lado de fora agora que o sol terminara de se pôr. Reverie sentiu a maciez do tapete contra sua bochecha antes de perceber que havia deitado, esperando, como sempre fazia, dormir e acordar em um mundo melhor.