Capítulo 4: Reverie

2520 Words
    Seus olhos estavam fechados antes mesmo do general sair pela porta, então quando ele voltou, não parecia ter passado mais que dois ou três minutos, e o sono ainda estava grudando suas pálpebras. Dormiu o sono dos anjos no quarto, acordando apenas quando o outro lhe chamou para ir até a cama, estando com sono demais para ter a educação de negar, concordando e aceitando o braço alheio para lhe apoiar. Ah, aquilo era ridículo. Estar na cama de um alfa, com o cheiro dele por toda parte, enrolado em um ninho de cobertas macias e um colchão como aquele era sua ideia particular de paraíso.     Foi acordado pelo barulho, a escuridão era total, mas sendo quem era, seus olhos eram quase tão bons quanto os de um alfa. Viu que ele caminhava silenciosamente pelo quarto, sem perceber que seu conviva estava acordado, trocando o uniforme militar e se encaminhando para um divã não muito longe da cama, onde deitou e logo adormeceu. Reverie estava agitado e com medo de voltar a dormir agora que não estava sozinho, mas o sono o venceu e levou de volta para o mundo dos sonhos.     Quando acordou na manhã seguinte, tinha a sensação que a noite passara em um estalar de dedos, ainda estava no meio da cama macia, e alguém ajudava o loiro a se vestir, dessa vez sem o uniforme, com roupas comuns da corte, mas que eram de uma riqueza denunciava sua importância. Permaneceu um instante em silêncio, observando as duas figuras se movimentarem. O general era jovem e belo, mas preferia ter sido dado a alguém mais velho, que tivesse músculos flácidos que não machucavam tanto quando decidia lhe bater. A estrutura dele era de alguém forte, que conseguiria fazer grandes estragos.     Respirou fundo, tirando as mechas de cabelo que caíam sobre seus olhos, preferia eles curtos, mas havia sido mandado deixá-lo longo para agradar ao rei, imaginou se teria permissão para cortá-los, e de que forma seu senhor agora preferia sua aparência.     “Bom dia. O café da manhã já foi servido.” Ezarah atrapalhou sua linha de raciocínio ao falar, indicando uma belíssima mesa que havia sido posta sob uma janela, com todo tipo de comida atrativa. “Estaremos saindo em breve.” Na pausa que o general deu, enquanto o criado começava a abotoar o pesado casaco, Reverie perguntou-se se lhe deixariam levar coisas.     De fato, foi direto para a mesa, estivera tão emocionalmente exausto no dia anterior que tudo o que pudera fazer foi dormir, sequer havia jantado, o que tonava difícil comer com a educação que lhes era esperada. A comida toda estava uma delícia, estava enfim se sentindo satisfeito e grato por ter podido comer o que desejava, mas sua suspeita não havia ido embora, residindo muito mais fundo dentro de si. Lembrando do que lhe fora dito sobre buscar suas coisas, poderia aproveitar aquela oportunidade para dar adeus àqueles do harém que haviam lhe ajudado.     Limpou os lábios devagar, podia até tentar esquecer a presença do general, mas não conseguia de fato, estando sempre ciente de onde ele estava e o que fazia. Deixava-lhe tenso, claro, mas sabia que se acostumaria depois de algum tempo de convivência. Acostumar-se-ia, sim. Levantou-se devagar, evitando qualquer ruído, mas mesmo assim sentiu o olhar alheio pesar sobre si, ainda que não estivesse o olhando diretamente.     Ao que parecia, o general havia terminado de ser vestido, e agora escrevia sob a luz do sol. Estava de costas viradas para si, o que lhe era um alívio, sentado no divã no qual Reverie sabia que ele havia passado a noite, talvez pudesse começar a conversa por aí. Não se sentia à vontade no quarto, por isso ficou em pé, de prontidão, como estava acostumado, uma estátua parada ao lado da mesa, sem coragem de vencer o espaço que separava os dois.     “O senhor dormiu bem esta noite?” O ômega tentou, buscando sondar o estado de espírito do outro, já que sua vida passaria a depender dele.     Para sua surpresa, ele se virou para si, os olhos, dourados como o da família real, encarando-o diretamente. Reverie sentiu-se paralisado perante aquele olhar, demorando um instante para lembrar que não deveria encará-lo também, abaixando a cabeça.     “Profundamente bem.” Ezarah respondeu, voltando os olhos para os papéis que segurava, compenetrado, deixando o ômega sem saber como interpretar aquilo. “E você?”     “Profundamente bem.” Mais uma vez o general ergueu o rosto, as sobrancelhas arqueadas.     “Há algo que você precise, Reverie?”     A voz gelada do outro homem fez com que começasse a dar um passo para trás, parando no meio do movimento ao perceber que era observado, a ponta de seus dedos tocando a superfície da mesa atrás de si, buscando apoio ali.     “Sim, eu preciso buscar minhas coisas.”     “Os criados já empacotaram tudo.”     “Eu... Deixei algumas coisas para trás.”     No silêncio que se seguiu, Reverie temeu ter de partir sem de fato se despedir das poucas amizades que havia feito, às quais havia se permitido tolamente, ao pensar que, como concubino real, passaria o resto vida dentro dos muros do palácio. Seu nervosismo aumentou quando o silêncio continuou se arrastar, não conseguia ver um motivo para não poder voltar ao seu antigo quarto uma última vez, a menos que aquele alfa fosse especialmente rígido.     “Não precisa ficar me olhando com essa cara, pode ir sim, mas faça o favor para nós dois de não tentar fugir, certo?” Ezarah disse, carrancudo, sem parecer de fato muito feliz em deixar o outro sair.     “Sim, senhor, muito obrigado.” O ômega agradeceu, curvando-se para sair, grato pela oportunidade, mas foi interrompido por um pigarreio, parando antes de dar alguns passos. “Senhor?”     “Toque o sino em cima da mesa.”     Com passos rápidos, Reverie obedeceu, um criado aparecendo à porta alguns instantes depois, o mesmo beta que havia vestido o general e que supunha ser o valete deste.     “Oliver, acompanhe Reverie até o Jardim do rei.”     Assim, os dois saíram, deixando o alfa sozinho em seus aposentos. O moreno suspirou quando os criados fecharam a porta atrás de si, sentia-se seguro nos corredores do palácio, mesmo que não acreditasse que houvesse um lugar seguro para um ômega, criados se postavam em duplas ao lado de todas as portas dos quartos que estivessem ocupados, ajoelhados, à espera de qualquer ordem, assim como havia guardas rigorosamente posicionados.     O mundo nunca havia sido um lugar gentil para ômegas, mas havia piorado nas últimas décadas, com a crescente diminuição de seu número. Passaram a ser artigos de luxo, altamente cobiçados, sendo comum serem dados a um alfa assim que nascessem, permanecendo com a família apenas até o primeiro cio, não importando se isso acontecesse aos treze anos ou aos vinte. Dentro do palácio, entretanto, o rei possuía uma coleção apenas para si, e eles eram mantidos no Jardim.     O beta se manteve atrás de si, como a etiqueta exigia, Reverie desejava correr, mas manteve um ritmo adequado, contando os passos até chegar no lugar.     O Jardim era uma construção separada, altamente guardada, com soldados em cercando-o. Os criados betas, especialmente treinados, eram os únicos além do rei que entravam e saíam do lugar, enquanto Reverie era o primeiro ômega em anos passar por aquelas portas mais de uma vez. Apesar da liberdade tolhida, era doloroso deixar um lugar no qual estivera seguro por tanto tempo. O monarca cuidava muito bem de todos seus amantes, e como nunca se interessara por sua mais nova aquisição lúpus, o ômega fora mantido confortável, longe das intrigas da corte. Agora entendia o porquê.     Antes de virarem a última curva, Oliver parou, segurando-o pelo braço. Reverie imediatamente olhou ao redor, escandalizado, mas para sua sorte aquele era um dos pontos onde não estavam à vista de nenhum empregado.     “Não suje o nome do general tentando se matar ou escalar as paredes.”     Seu queixo caiu com o tom de voz do beta que antes lhe parecera tão manso e quieto. Ao percebeu que não receberia resposta, o valete soltou-o, passando a mão pelos cabelos bem arrumados, os lábios repuxados.     “O que eu estou dizendo é que você pode viver bem com os Notier.” As palavras do outro agora eram mais calmas, mas fizeram um alarme soar em sua cabeça. Não era incomum o que ele dizia, quando passavam de uma mão para a outra, não era raro que ômegas tentassem escapar, seja por rotas de fuga ou pela morte, mas aquela era a segunda vez em tão pouco tempo que ouvia aquele aviso, tornando-o suspeito.     Reverie concordou com a cabeça, o beta não pareceu de todo convencido, mas o soltou, e em alguns segundos, estavam de frente à porta dourada do Jardim. Os guardas reconheceram-no, enquanto Oliver não fez menção de entrar, sem receber qualquer olhar, posicionou-se junto à uma parede, aguardando.     O Jardim era uma grande construção em forma de ferradura. No lado direito, ficavam os quartos dos ômegas, por graduação, o menos importante na ponta, continuando subindo até que o aposento do meio e maior de todos ficasse para o favorito. Do outro lado, encontravam-se os lugares de socialização, como refeitório, banhos, salas de jogos. No meio, um jardim com bancos e árvores, com uma fonte dourada em seu centro, onde um jovem nu segurava um vaso do qual água escorria incessante.     Naturalmente, seu quarto era o primeiro, Reverie entrou nele em um rompante, pronto para se jogar na cama, mas estacou na porta. O cômodo estava vazio, nem mesmo sua cama fora mantida, seu cheiro tirado de cada canto. Os criados do palácio mereciam louvores por sua agilidade e eficiência, não sobrara nada seu. Devagar, sentou-se na soleira da porta, o vazio em seu peito se espalhando.     Perdido como estava, só notou o cheiro conhecido quando sentiu braços envolvendo seu corpo por trás em um abraço gentil. Era Julian, o favorito do rei e de Reverie.     “Sabe, eu tinha certeza de que você viria se despedir.” O outro ômega sussurrou, sentado atrás de si, apertando-o contra seu peito. “Parece que seu general não é tão m*l assim.”     Reverie permaneceu em silêncio, a dor era demais para que conseguisse falar, então os dois permaneceram sentados na entrada, abraçados.     “Nós nunca contamos para os presentes que eles são presentes.” Julian continuou. “Eles ficam aqui por um tempo e são felizes, contar que eles irão embora acabaria com isso.” O tom de sua voz era de desculpas.     “Não é justo.”     “Você foi feliz aqui.”     “Vocês mentiram para mim, vocês...” Reverie não conseguiu continuar, o choro que estava contendo desde o dia anterior irrompendo enfim, fora de seu controle. Tentou se soltar dos braços daquele que julgava ser seu melhor amigo, mas não tinha forças, desistindo e escondendo o rosto nas mãos.     Julian segurou seus ombros, virando-o de frente para si. O concubino continuava tão belo quando sempre, seus raros cabelos ruivos caíam por seus ombros, e os olhos azuis, ainda mais preciosos no reino, pareciam saídos de uma pintura, pequenos e delicados, mas com os segredos do mundo escondidos nele.     “Eu pensei que estivesse seguro aqui. Para sempre.” Disse em desespero, terminando de se virar de frente ao outro e pousando o rosto no ombro alheio. O ruivo o acolheu, passando a mão por seus cabelos, em um carinho que aumentou o choro.     Vários minutos se passaram antes que as lágrimas do ômega começassem a rarear, Julian não o apressou, mas afastou-o alguns centímetros quando o choro alheio arrefeceu. Além da aparência exótica, o concubino ainda tinha um suave cheiro que o tornava irresistível, não era surpresa que recebesse visitas do rei quase toda noite. Reverie respirou fundo, o perfume conhecido ajudando a acalmá-lo.     “Me escuta agora.” O ruivo falou, segurando o rosto do outro entre suas mãos, olhos nos olhos. “Você sempre se comportou muito bem, continue desse jeito, é perigoso demais ser rebelde. Obedeça ao alfa, mas não se esqueça de que você também pode comandá-lo, desde que seja sutil o suficiente.” Reverie concordou com a cabeça, as lágrimas voltando a cair. “Se for difícil demais, tome isso.” Julian pescou algo de um dos bolsos da roupa, abrindo a mão enluvada para relevar uma bolinha, do tamanho de uma uva, n***a. “Tome antes de dormir. Você vai adormecer e não acordar, é uma morte sem dor, tranquila.”     Estava de queixo caído, mas aceitou a pílula, o olhar do outro fazendo com que a escondesse de novo rapidamente.     “Como?” Foi a única coisa que perguntou.     “Nós do harém temos nossos segredos, passamos de um para o outro.”     “Eu não era parte...”     “Não, você era um presente, há coisas que aqueles que vão para fora desses muros não podem saber, precisamos nos proteger, por favor, entenda. Quando as coisas ficam ruins demais, alguns tomam suas vidas de volta para si, e essa é a única forma.”     Estava prestes a dizer que o rei não era o tipo de alfa que levava seus amantes ao suicídio, mas lembrou-se que nunca estivera sozinho com ele antes e calou-se, mais uma vez assentindo.     “Obrigado.”     “Já levaram tudo seu, então não vão te revistar, pode ficar tranquilo. Mas nunca, nunca tome acordado.”     Por quê?”     “Não é uma boa morte. Não funciona do mesmo jeito, não sabemos por que.” O concubino meneou com a cabeça, fechando os olhos por alguns segundos, perdidos em pensamentos que o moreno não conseguia sondar.     Julian empurrou a ambos mais para frente, fechando as portas ainda sem se levantar. Tirou suas luvas branquíssimas, ele estava sempre vestido de branco dos pés à cabeça, o que lhe dava um ar diáfano. Aproximou seu rosto do outro até que suas testas estivessem coladas, as lágrimas haviam voltado a rolar, mas nenhum deles se preocupou com isso quando os lábios se uniram.     Não havia mais ar em seus pulmões ou pensamentos em sua mente, sonhara com o amante preferido do rei desde o primeiro dia no harém, e este havia lhe acolhido, mas nunca imaginara que pudesse de fato beijá-lo fora de seus sonhos, tampouco que este fosse quem tomasse a iniciativa. O soberano mataria os dois se descobrisse aquilo, então sua admiração pelo outro aumentou ainda mais com aquela coragem.     Foi um beijo casto, Julian não foi mais longe do que isso e Reverie não ousaria pedir por mais. Quando se afastaram, o ruivo enfim se levantou, espanando as roupas, um sorriso triste em seus lábios.     “Eu queria te dar isso também, sinto muito por não corresponder seus sentimentos.” Com aquelas palavras, Reverie pensou que poderia tomar a pílula ali mesmo e aceitar qualquer morte que tivesse. Esticou seus dedos até ele, que se afastou e abriu de novo as portas, dizendo sem olhar para trás. “Vá agora, não há mais nada para você aqui. Boa sorte. Adeus.”    
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD