Um Lugar Seguro

1007 Words
O carro passou pelos portões altos e, quando parou diante da mansão, Beatriz sentiu o coração acelerar. Era tudo grande demais, silencioso demais… diferente de tudo que ela já tinha vivido. Assim que desceram, uma mulher se aproximou com um sorriso acolhedor: — Boa tarde, senhor Bruno. — Boa tarde, Alice — respondeu ele, com naturalidade. Em seguida, virou-se para Beatriz. — Alice, essa é minha esposa. Beatriz piscou, ainda se acostumando com aquela palavra. — Prazer, senhora — disse Alice, gentil. — Sou a cozinheira da casa. — Prazer… — Beatriz respondeu, um pouco tímida. Bruno continuou: — Essas são a Amanda e a Maria. Elas cuidam da limpeza da mansão. — Boa tarde, meninas — disse Beatriz, educada. — Boa tarde, senhora — responderam juntas, com respeito. Alice perguntou: — A senhora deseja algo especial para o almoço ou jantar? Posso preparar algo agora, se quiser. Beatriz olhou para Bruno, buscando apoio. Ele retribuiu o olhar, tranquilo, dando espaço para que ela decidisse. — Pode preparar um frango com batata e um arrozinho pro almoço — disse ela, por fim. — E pra janta, uma carne assada — completou Bruno. — Perfeito — respondeu Alice. — Já vou providenciar. Beatriz subiu as escadas com as malas, acompanhada por Bruno. Olhava tudo com atenção, quase em silêncio. — Nossa, Bruno… essa mansão é enorme — disse ela, impressionada. — Faz muito tempo que eu não vinha pra cá — respondeu ele. — Sempre preferi a outra casa. Era mais simples… mais minha cara. Ela sorriu. — Você fez certo. Nem tudo é sobre dinheiro, né? Ele concordou com a cabeça. — Então… — ele disse, um pouco sem jeito — você fica na suíte principal. Eu fico no quarto ao lado. Ela parou no meio do corredor e o encarou. — Bruno, nada disso. — É sério, Bia. Quero que você fique confortável. Esse é o seu espaço. — A suíte principal é sua — respondeu ela, firme. — Sempre foi. Eu fico no quarto ao lado. Ele tentou argumentar, mas ela sorriu, daquele jeito doce e decidido que desmontava qualquer resistência. — Já sei — disse ele, rendendo-se. — Tudo bem. Entraram no quarto e Bruno começou a ajudar a guardar as coisas dela no armário, dobrando roupas com cuidado, sem pressa. — E a outra casa? — ela perguntou. — O que você vai fazer com as suas coisas de lá? — Depois eu vou buscar tudo — respondeu ele. — Vou colocar a casa pra alugar. Bairro bom não pode ficar com casa vazia. Ela assentiu, observando cada gesto dele. Não havia pressa, cobrança, nem controle. Só cuidado. E ali, no meio daquela mansão enorme, Beatriz percebeu algo simples e poderoso: pela primeira vez, ela não estava em um lugar luxuoso — ela estava em um lugar seguro. O cheiro do almoço se espalhava pela mansão de forma suave e acolhedora. Beatriz desceu as escadas devagar, ainda observando tudo com atenção, como se estivesse entrando em um lugar que não sabia se realmente lhe pertencia. Bruno já estava na sala de jantar, encostado na cadeira, conversando baixo com Alice. — O almoço está quase pronto — disse a cozinheira ao vê-la. — Frango assado com batatas douradas e arroz soltinho, como a senhora pediu. Beatriz assentiu, um pouco sem graça. — Obrigada, Alice. — Fique à vontade, senhora — respondeu a mulher com um sorriso sincero, antes de se afastar. Beatriz sentou-se à mesa, as mãos pousadas no colo. Bruno percebeu o jeito tenso dela, o corpo ainda em alerta, como se estivesse esperando alguma ordem. — Você está bem? — perguntou ele, com voz calma. — Tô… — ela respondeu, mas não parecia convencida nem por si mesma. Alice voltou trazendo os pratos. Colocou primeiro o de Beatriz à sua frente: um pedaço generoso de frango, batatas bem douradas e arroz soltinho, cheiroso. Beatriz olhou para o prato e sentiu um nó na garganta. — Se não quiser tudo, não tem problema — disse Bruno, rápido, percebendo o silêncio dela. — Come o quanto quiser. Ou não come. Você decide. Ela levantou os olhos devagar. — Você não vai… falar nada? — Falar o quê? — Sobre quantidade… sobre engordar… — a voz saiu baixa, quase envergonhada. Bruno respirou fundo, o olhar sério, mas doce. — Bia, você pode comer. Pode repetir. Pode parar no meio. Pode comer só o arroz, só a batata, tudo… ou nada. Seu corpo não é um problema. Nunca foi. Ela engoliu em seco. Pegou o garfo com cuidado, como se estivesse fazendo algo proibido. Cortou um pedaço pequeno de frango, levou à boca… e fechou os olhos no primeiro instante. — Tá bom… — murmurou. — Tá muito bom. Bruno sorriu, mas não comentou. Apenas começou a comer também, no mesmo ritmo que ela, sem pressa, sem observação. Depois de alguns minutos, Beatriz respirou fundo. — Faz meses que eu não como assim… sem medo. — Isso acabou — ele respondeu. — Aqui você não precisa ter medo de nada. Ela comeu mais um pouco. Depois mais. Não com pressa, não com culpa. Apenas com fome. Em determinado momento, parou, pousou o garfo e disse: — Eu já tô satisfeita. — Tudo bem — respondeu Bruno, naturalmente. — Quer sobremesa depois? Ela arregalou os olhos, surpresa. — Sobremesa? — Se quiser. Se não quiser, também tá tudo bem. Beatriz riu baixinho, quase incrédula. — Você é estranho. — Estranho por respeitar você? — Estranho por ser… normal — ela respondeu, com um sorriso triste. Bruno não riu dessa vez. Apenas olhou para ela com cuidado. — O normal nunca foi te machucar, Bia. Só te fizeram acreditar nisso. Ela sentiu os olhos arderem, mas conteve as lágrimas. Pela primeira vez em muito tempo, terminou uma refeição sem se sentir culpada, observada ou errada. E naquele almoço simples — frango, batata e arroz — Beatriz começou a entender que liberdade, às vezes, começa exatamente assim: com um prato servido sem controle e um silêncio cheio de respeito.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD