Era bom...

1082 Words
O aviso de Muralha foi simples, escreveu em um papel o que ela deveria fazer. “Cozinhar e não sair do quarto durante a noite”, a promessa de que não a obrigaria a se deitar com ele já acalmava o coração da mulher. Tinha nojo de tudo o que Muralha representava. Quando correu para o andar superior da casa, sou uma tentativa quase infantil de se esconder, mas pouco tempo depois a porta que deveria ser a sua proteção também cedeu, ela teria aberto se tivesse tempo, os anos de violência e abusos tinha ensinado que colaborar é sempre melhor, não teve tempo e quando viu os olhos vermelhos de Muralha teve certeza de que seria o seu fim. Olhou os músculos do homem que agora era seu marido, o tamanho, ele não precisaria de muito para quebrar cada osso do corpo de Lara e foi isso que a fez implorar como uma criança por perdão. - Por favor, por favor... desculpa. Não olhou para o marido, o achava feio, grande demais, estranho, tinha medo de tudo nele, odiava a Tríade e cada uma daquelas pessoas, incluindo o homem que havia se tornado seu marido. Ficou abraçada a cabeça como fazia todas as vezes que o marido a agredia, Muralha sentiu o medo da mulher, abaixou diante dela, mas como ela não o olhou, saiu tão de repente quanto entrou. O medo... a única coisa capaz de tocar o que havia restado do coração de Muralha. Ver Lara encolhida daquela forma o fez pensar em Paula e nas filhas, nunca conheceu a voz de Bárbara, a filha mais nova morreu com apenas alguns meses de vida, Heloísa, ou lolo como costumava chamar a filha, foi violentada e espancada, Paula igualmente assassinada sem tempo para nada. Ainda se culpava por não ter sido capaz de amar, Paula era uma companheira, alguém que ficou ao seu lado apesar dos defeitos, mas não a amava, ainda assim, ela morreu por ele, pelas escolhas dele. Como Helen dizia: “Você não é uma pessoa ruϊm, só é teimoso demais e faz escolhas péssimαs.” Ele quis abraçar a mulher pela primeira vez, jamais a machucaria, se abaixou diante do corpo encolhido de Lara, chegou a tocar alguns fios do cabelo desgrenhado da mulher que agora era sua esposa, mas não foi encarado, sabia quem era, a sua aparência, foi exatamente por isso que quando se apaixonou, não se aproximou da mulher que o atraia. Para ele Ayla era linda como uma manhã de verão, não era uma beleza padrão, dessas que vemos em televisão e revistas, a israelense tinha uma áurea bonita, era extremamente feminina e Muralha desconfiava que por baixo de toda aquela roupa e panos, havia uma mulher extremamente sensuαl. Nisso ele estava certo, mas só uma pessoa teve a chance de conhecer esse lado da israelense. E por coincidência, brincadeiras do destino, ou qualquer outra coisa, Ayla era a esposa de Marco, o homem que ocupava os sonhos de Lara. Nenhum dos dois imaginava, mas formavam um casal em que ambos amargavam uma paixão não correspondida. Com o tempo, algumas coisas foram se tornando menos intensas, para Muralha eram comuns, para Lara especiais. Como quando ele a defendeu de Ricardo, não foi a primeira vez, desde que se casaram muitas vezes ele tomou a frente para cuidar dela, mas com Ricardo foi diferente. Ela pretendia ir a casa de Sara, por mais louco e irônico que poderia parecer precisava de ajuda, Ivan havia parado de falar com ela, não tinha permissão para sair do condomínio e ali, a única pessoa que conhecia Muralha era Sara. Algumas mulheres costumavam dizer que foi uma troca de casal, que Sara saia com Muralha, enquanto o marido se escondia dos chifres na cama de Lara, nenhuma daquelas suposições era verdade, nem ela jamais esteve com o chefe e muito menos Sara com o soldado. Não chegou à casa da mulher, Ricardo estava ali justamente para impedir que algo assim acontecesse, Ivan queria a família de volta a qualquer custo, mesmo que precisasse ser injusto e egoísta como disse quando decidiu que Muralha se casaria com Lara. Sara não sabia daquela decisão e quando soube não gostou, achava que Muralha apesar da postura rígida era frágil e que Lara era uma aproveitadora. Tiraria tudo dele e por fim, acabaria fazendo com que o homem que já não era bem-visto pelos demais soldados acabasse virando piada. Lara foi segurada pelo braço. - Onde pensa que vai? Amantes tem perímetro limitado. Não vai incomodar a família do chefe, pelo menos não se quiser ficar viva. - Preciso falar com ela, me solta! Ricardo não soltou e quando ela perdeu a paciência e cuspiu no rosto do soldado, levou um soco que a fez cair. Muralha não viu. Estava na parte alta do condomínio, além de Sara havia outra pessoa que não tinha nenhum preconceito contra ele, Dragon... Um mexicano casado com a filha do conselheiro, a família vivia em uma área afastada dos demais, mas Dragón sempre foi amistoso, estavam juntos limpando a área da cachoeira, durante as chuvas várias pedras enormes rolavam, além de muita areia, isso deixava o lugar perigoso e raso. A força de Muralha era especialmente bem-vinda. - Podia parar de fingir esse silêncio, como pretende escrever dentro d’agua? Muralha sinalizou algo para o Mexicano, as duas mãos se moveram ao mesmo tempo como se segurasse uma vara de pescar imaginária, girou no ar e o segundo movimento foi um tchau. - Quê? Pescar e dizer adeus. O homem deu risada, e o riso mostrava a voz forte que Muralha possuía por trás daquele silêncio. - Gosta dela? Da sua mulher? Ele negou com a cabeça e deu de ombros. - Devia falar sobre isso com o chefe, talvez ele te deixe voltar para a Tríade, partir. Pode se separar de Lara fora daqui e ajudá-la a construir um futuro. Muralha coçou a barba e fez que sim com a cabeça parecendo pensativo, quando desceu estava disposto a ter aquela conversa com a mulher, se ela quisesse ir embora, ele estava disposto a tentar, não a encontrou em casa e isso fez seu peito doer, o coração acelerar. Não soube dizer o porquê, mas gostava de chegar em casa e encontrar Lara esperando por ele, ela se deitava na beirada da cama, de costas para a porta, mas assim que ele se deitava, ela se aproximava e colava o corpo no dele. Era bom...
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