Capítulo 3

4529 Words
Gabriela Vasconcellos Quando eu era mais jovem, na verdade, quando eu tinha 18 anos, comecei a namorar um cara legal, extremamente bonito e disputado pelas meninas, chamado Diego Bittencourt. O começo do nosso namoro foi um pouco conturbado, pois Diego era um cara que amava farra e eu sempre preferi momentos a dois, não que eu não gostasse de sair, mas às vezes parecia que Diego preferia está nas baladas e bares da vida, do que aproveitando seu tempo comigo. Eu gostava dele, na verdade eu o amava, por isso sempre fui relevando tudo. Dois anos se passaram e eu vi Diego começar a trocar as “saideiras” por momentos particulares comigo, foi nosso melhor momento juntos. Aos 21 anos, ele me pediu em casamento e a gente estava completamente feliz, até que eu tive que terminar tudo com ele e ir embora com meus pais para a Europa. Antes que me perguntem, a resposta é não. Eu não fui obrigada pela meus pais a ir para a Europa com eles. E não, esse não foi o motivo pelo qual eu terminei tudo com Diego. A verdade é que o pai dele me fez terminar, ele disse que o filho era um irresponsável e que não conseguiria manter uma família com ninguém. Disse ainda que se eu queria uma família, Diego jamais seria uma opção viável e que ele não era homem o suficiente para conseguir fazer tudo isso. Mas é obvio que eu não o escutei, eu queria aquilo, queria estar com ele, eu o amava e estava feliz com o que ele estava me dando, aquilo tudo era suficiente para nós. Mas não para o senhor Ricardo! Quando ele notou que eu não iria recuar, ele me disse para largar o Diego, que ele andava me traindo com outras mulheres e que ainda usava seu nome para dar desculpas das escapadas a noite. E foi bem aí que tudo desmoronou, porque de fato Diego estava estranho, m*l passava uma noite comigo e sempre com a desculpa de estar fazendo algum trabalho para seu pai. Eu fiquei sem chão! Israel, um cara da minha faculdade, começou a perceber que eu andava estranha e triste, que meu relacionamento já não era mais o mesmo, então começou a se aproximar de mim e me fez enxergar que havia vida além do Diego, que havia oportunidades, escolhas, que tinham pessoas que me desejavam e me queriam feliz. Então uma noite, quando Diego não compareceu ao nosso compromisso no cinema, eu acabei esbarrando com Israel, ele foi assistir ao filme comigo e... Eu acabei me entregando ao momento. Senti que de fato havia vida além de Diego, que tinha gente querendo ficar comigo, só comigo, sem desculpas ou traição. No dia seguinte eu acabei com Diego, não da melhor forma ou da mais certa, mas não podia encará-lo, não conseguiria olhar em seus olhos e dizer tudo o que precisava falar. Acabei soando como seu pai, falando tudo o que o senhor Ricardo me disse, eu soube no momento que enviei que aquilo o machucaria, mas já era muito tarde para voltar atrás. Meses depois eu fui pra Europa com meus pais, havia me formado e lá eu já teria um emprego garantido. Fiz minha carreira por lá, acabei conhecendo Gustavo poucos meses após me mudar. Nossa relação começou cerca de um ano após nos conhecermos e não foi algo intenso como era com Diego, sempre foi mais calmo, tranquilo, sem turbulência alguma. Três anos depois acabamos nos casando e tudo vem sendo bem... qual palavra poderia descrever nossa relação atualmente? Rotineiro? Cotidiano? Monótono? Parado? Eu ainda gosto dele, mas não há mais o desejo de antigamente, há desejo, mas é bem mais por costume do que por vontade. Nós voltamos ao Brasil a dois meses, e a umas semanas atrás Gustavo me disse que arrumou emprego em uma ótima agência de marketing, quando meu marido disse o nome dessa agência no qual iria trabalhar eu gelei por um momento, mas essa sensação logo deu lugar a uma de medo quando ele falou que teria um almoço em breve com o dono do lugar e com o gerente de marketing. Pesquisei sobre a R. B. Marketing e vi que Diego ainda trabalhava para o pai, e o pior, que era ele o gerente de marketing que estaria no almoço. Então sim, eu confesso que não me atrasei para o almoço por acaso, eu queria muito não ter ido, não ter visto Diego, mas eu não consegui inventar uma boa desculpa para não ir. Vê-lo depois de tanto tempo sem contato algum, mexeu comigo, e muito. Ele parecia mais maduro, mais sério, responsável. No dia seguinte eu fui até seu apartamento, consegui seu endereço com uma amiga que já havia ido lá, mas o que eu vi foi o velho Diego de sempre, não sei se me decepcionei por isso, ou pelo fato de não poder ter conversado tudo o que eu queria com ele. No dia seguinte, fui a um restaurante com meu marido chamado Trattoria Fasano, ouvimos falar muito bem deste lugar, a comida era maravilhosa e a carta de vinhos também. O ambiente era muito bonito, a noite estava perfeita, até o fato de que quando fomos embora eu vi Diego saindo do mesmo lugar acompanhado de uma mulher. O clima entre eles parecia leve e eles se beijaram na porta do restaurante, eu conhecia Diego bem o suficiente para saber que ele adorava pegar mulheres, mas que jamais levaria uma para jantar em um lugar como esse e a beijaria na saída se fosse apenas uma ficada qualquer. Mas ela não era a mulher de hoje cedo, será que ele tá enganando-a como fez comigo? - Vem amor, entra – fui tirada de meus pensamentos por Gustavo que já havia aberto a porta do carro para mim. - Desculpa – falei tirando os olhos da cena que observava e entrando no carro. Parte do caminho até nossa casa foi quase que em silêncio total, Gustavo tentava quebrá-lo, mas tudo que obtinha de mim eram sons nasais ou monossilábicos. Mas o fato é que eu não conseguia parar de pensar em Diego e naquela mulher. Aquele beijo, a cena de mais cedo, estava tudo muito fresco em minha cabeça e eu tentava processar cada parte disso. - Não gostou do restaurante? – perguntou ao notar minha total falta de comunicação. - Gostei, é um lugar maravilhoso – respondi. - Então o que foi? – fez outra pergunta. - Cansaço. – menti – Eu só estou cansada, o dia foi puxado e eu não vejo a hora de dormir. - Estamos já chegando em casa – falou com um sorriso no rosto me olhando ao parar em um sinal. Eu apenas me forcei a sorrir e em seguida voltei ao meu mundo paralelo, deixando Gustavo alheio ao que se passava em minha cabeça. Ao chegar em casa, fui direto para o banheiro, tomei um banho e fui me deitar, sem nem conseguir falar algo com meu marido. O domingo chegou e com ele, um dia leve planejado por Gustavo, pois segundo ele, queria que eu relaxasse, já que ontem eu estava cansada. Ele me levou ao Espaço Ouvillas – Parque Villa-Lobos, fizemos um piquenique e confesso que o dia foi muito bom, leve, descontraído. Notei que sentia falta disso. No final da tarde, recebi uma ligação do senhor Bittencourt, ele estava me convidando para ser a coordenadora de marketing digital/mídias sociais da R. B. Marketing, me pedindo ainda para dar apoio a Diego nesse novo negócio com a Funerária Sesmaria, pois era um contrato bom demais para ser estragado pelo seu filho mimado (palavras dele). Eu relutei em aceitar, mas ele sabia como não receber uma negativa. Na segunda-feira pela tarde, teria uma reunião para falar e mostrar tudo que já se havia sido pensado e feito no negócio da funerária. Passei a manhã toda lendo o contrato que havia sido fechado. Pela tarde, cheguei 15 minutos adiantada para a reunião, fiquei na sala de reuniões esperando as pessoas chegarem, estaria ali apenas para observar e me inteirar de tudo o que já havia sido feito. Aos poucos todos foram chegando, Gustavo sentou-se ao meu lado e o senhor Bittencourt se sentou na ponta da mesa, mas Diego não apareceu, já estava 23 minutos atrasado. Talvez ele tenha ficado sabendo que eu estaria aqui e não quis aparecer. - Vamos esperar mais cinco minutos e se ele não aparecer, acho que já poderemos começar – Gustavo falou e obteve a concordância das pessoas que ali estavam. A expressão do senhor Bittencourt não continha um pingo de surpresa com o atraso do filho. Os cinco minutos se passaram e nada dele aparecer, então começamos a reunião. Não teve nada de muito interessante, nada havia avançado muito, basicamente eram esboços de ideias do que viria a ser. O senhor Bittencourt não parecia muito satisfeito com isso. - Já fechamos esse contrato a quatro dias e isso é tudo que vocês conseguiram? – perguntou indignado com o que via. O fato é que o dono dessa funerária era um grande amigo dele e ele havia investido muito dinheiro na expansão dela pelo Brasil, ele precisava de resultados e sua feição demonstrava isso muito bem. - Desculpa o atraso! – a voz de Diego me fez olhá-lo de imediato, ele me viu por lá e pareceu espantado, como que não soubesse que eu estaria ali – A gente tinha que acabar umas coisas e perdemos a hora – falou entrando com uma mulher e era a mesma da noite de sábado, a que ele beijou na saída do restaurante. - Já estamos mais que acostumados com a sua irresponsabilidade e falta de pontualidade – seu pai falou, mas ele pareceu ignorar o que o pai falava. - Aqui – ouvi a mulher falar para botarem o pen drive para apresentação, ela me olhou ao notar que eu a encarava, soltou um sorriso sem graça. Diego começou a apresentação do que já tinha. - Então, eu e Júlia pensamos muito sobre o que poderíamos fazer... – “eu e Júlia”? desde quando ele começou a dar crédito a outra pessoa por algo que ele estava envolvido em fazer? – Sabemos que a morte é algo triste, doloroso, que machuca, tem o poder de devastar uma pessoa. Então tudo que precisamos fazer é transformar esse momento de dor e tristeza, em que tudo é preto, em algo colorido, leve, que passe paz, mas não uma alegria. – a mulher distribuía uma pasta com algumas coisas feitas por eles para todos – Então por que não apostar em um slogan que possa marcar as pessoas por trazer uma leveza? – disse passando o slide e mostrando o slogan que havia pensado – “Funerária Sesmaria, a paz e o descanso que seus familiares merecem”. – confesso que ficou leve e caberia muito bem nas necessidades que a agência havia pedido – Além disso, algumas ideias de como podemos explorar esse slogan nas propagandas podem ser vistas nessas pastas, ainda falta o aprofundamento com o pessoal do digital, mas as ideias são essas. Creio que em uma semana já teremos tudo pronto. Olhei para a cara do senhor Bittencourt, que agora sim estava surpreso e deixou a falta de fé em seu filho transparecer não apenas em seu rosto, mas também em sua fala. - E você fez tudo isso quando? – ele perguntou – Porque tudo o que recebi hoje foram esboço de ideias, mas nada concreto. – falou folheando a pasta – Mas isso aqui está muito bom. - Tive essa ideia ontem, quando pensei no que Júlia falou. – ele a olhou e ela o olhou ainda mais surpresa – Liguei para ela e marquei uma reunião para colocar tudo no papel. – seu pai olhou para a mulher. - E você é nova aqui? Nunca lhe vi na agência – falou sério. - Sim, sou a nova estagiária com tempo limitado aqui – seu tom leve me fez sentir inveja dela. - Então toda a ideia disso aqui foi sua, não? – perguntou tentando diminuir Diego. - Na verdade não. Tudo foi o senhor Diego. – tentou soar formal, mas estava com ele em um domingo, trabalhando, tá bom! – Ele se baseou no fato de que eu amo dançar e conseguiu mudar toda a ideia que já tinha. E o resultado foi esse. Eu apenas o auxiliei no que ele precisava. - Hm. Ficou muito bom. Se continuar assim quem sabe o estágio por tempo limitado vire algo fixo – senhor Bittencourt pareceu gostar dela, ela apenas assentiu. Depois finalizamos a reunião e o senhor Bittencourt pediu para que eu, Gustavo e Diego ficássemos por lá. Quando Júlia ia saindo, Diego a segurou pelo braço. - O assunto tem a ver com o trabalho atual? – Diego perguntou frio. - Tem sim – seu pai respondeu. - Ótimo, então Júlia vai ficar, ela vai ser meu braço direito aqui, eu tenho umas coisas para fazer. – disse se voltando para a moça – Presta atenção em tudo e depois você me passa – disse piscando o olho para ela. - Mas o assunto é para ser tratado contigo e não com sua secretária – senhor Bittencourt falou. - Primeiro que ela não é minha secretária, segundo que o senhor pode tratar de qualquer assunto profissional com ela que ela me passará tudo certinho. – disse encarando o pai – Não é o senhor que me manda ser responsável? Então, tenho trabalho para fazer agora. Se virou e saiu, depois disso, o senhor Bittencourt falou que eu seria a nova coordenadora de marketing digital/mídias sociais da R. B. Marketing, e que trabalharia diretamente com Diego nesse projeto da agência funerária, pois queria tudo perfeito. Júlia prestava atenção em tudo o que era falado, anotava os detalhes e não o interrompeu em um só momento. Quando acabou, eu fui com ela até a sala de Diego, ela foi o caminho inteiro em silêncio e eu a observava. Ela era uma mulher muito bonita e pela sua forma de falar e expressar, parecia ser bem inteligente. Seus olhos eram tão sedutores, que até eu acabei me perdendo neles, notei que Gustavo e o senhor Bittencourt também, seus olhos esbanjavam sedução com um toque de meiguice, seu sorriso dava um reforço nisso, era bem bonito. Tá explicado o porquê de Diego ter beijado ela na saída de um restaurante e de ter dividido os créditos de seu trabalho com ela. Ele deve ter sido seduzido por ela. A observei caminhando e batendo na porta da sala de Diego, que estava entreaberta, ele a viu e mandou entrar, ela a abriu e me mandou entrar e assim eu fiz, ela entrou em seguida. - O que tanto meu pai queria falar nessa “reuniãozinha” particular? – perguntou Diego sem parar de trabalhar em seu computador. - Que eu vou trabalhar diretamente com você nesse contrato com a funerária – me adiantei a Júlia, que apenas me olhou. - Só isso? – perguntou encarando Júlia. - Basicamente sim. O resto foi falando sobre como vai se dar isso, mas a senhora Vasconcellos pode te explicar melhor. – ela falou o olhando – Eu vou deixar vocês conversarem, tenho algumas coisas para fazer – disse apontando para fora da sala. - Depois vou precisar de você aqui – ele falou. - É só me chamar – foi sua resposta. Eu só observava tudo, olhava cada detalhe da interação deles. Ela saiu e eu encarei Diego. - Então essa é a sua nova namorada? – não esperei uma resposta – Bem diferente da mulher de sábado de manhã. - Virou fiscal das mulheres que eu fico, Gabriela? – me encarou. - Só fazendo uma pergunta com uma observação. – falei séria – Deve ser sério com essa aí. – apontei para fora da sala – Você até a levou para jantar e depois se beijaram no estacionamento. - Minha vida pessoal deixou de ser da sua conta a um bom tempo. Se você veio até aqui para falar da minha vida pessoal, vou pedir para você se retirar, mas se você veio aqui para falar de trabalho, é bom começar a falar logo, assim terminamos mais rápido – disse voltando a mexer no computador. Repassei tudo o que o senhor Bittencourt falou com a gente, depois expliquei algumas coisas de como eu gostava de trabalhar e ele pareceu prestar atenção em tudo. Quando terminei, saí e o vi chamando Júlia para sua sala novamente e assim que ela entrou, o vi sorrir. Odiei isso. Fui até a sala de Gustavo, entrei e o beijei. - O que foi isso? – ele perguntou quando desgrudei nossos lábios. - Um beijo. – sorri – Primeiro dia em meu trabalho novo, trabalhando junto do meu marido e tendo tudo para dar certo. Eu estou feliz. - Que bom! – ele disse me abraçando – Porque eu amei ver você entrando desse jeito na minha sala e me beijando, foi bem sexy – falou sorrindo e logo em seguida me beijou novamente. Fiquei na sala de Gustavo por mais algum tempo, conversamos sobre nossas primeiras impressões da agência, depois sobre esse contrato e sobre a apresentação que Diego fez. - Eu achei que o Diego Bittencourt foi muito bem em sua apresentação. Ele basicamente entregou todo o projeto pronto hoje. – falava me olhando – A relação dele com o pai não é muito boa por quê? – perguntou curioso e eu dei de ombros – Achei ele um bom profissional, mas se o pai fala que ele não é, vou ficar de olho. - Pois é, é bom ficar de olho mesmo – respondi. - E o lance que vocês tiveram? – finalmente deixou a curiosidade sobre o assunto sair. - A gente era criança demais. Nunca daria certo – falei. - Mas agora ele me parece estar mais responsável, é um cara boa pinta... – não o deixei terminar. - E eu estou casada, com um homem maravilhoso, lindo, inteligente. Não estou entendendo isso agora. - É, tem razão – disse balançando a cabeça. - Bom, eu já vou. Vou deixar você trabalhar e começar a fazer o meu trabalho também – falei me levantando e indo beijá-lo novamente. - Bom trabalho meu amor – Gustavo falou e eu saí. Fui até minha sala, me sentei e comecei a trabalhar. As horas se passaram rápido demais, quando dei por mim, Gustavo estava batendo na porta da minha sala. - Já terminou? – perguntou entrando na sala. - Oi? Na verdade, eu nem vi a hora passar, deixa eu só finalizar isso aqui que já estou pronta para gente ir – respondi terminando de digitar algumas coisas. - Tudo bem, mas vai rápido que eu estou morrendo de fome – falou se sentando na cadeira. - Vamos para algum restaurante ou pedir algo em casa? – perguntei. - Restaurante? – ele respondeu com outra pergunta. - Pedir? – perguntei quase que pedindo para ser assim. - Tudo bem, a gente pede algo – respondeu. Mas minha finalização de coisas demorou mais do que eu esperava, Gustavo já estava impaciente. - Ai Gabi, já está super tarde e eu estou mesmo com muita fome. Vamos logo, vai! – ele dizia impaciente – Agora vamos ter que ir para um restaurante – concordei com ele. Tentei ser mais rápida ainda e assim que eu terminei, fomos em direção ao elevador, não estávamos conversando muito, tínhamos um ar cansado e sério. Não havia mais quase ninguém no andar, o relógio marcava oito e vinte. No caminho até o elevador, olhei para o lado, vi Diego parado ao lado da mesa de Júlia, conversado com ela, o ar deles era leve, descontraído. Ele sorriu e ela o acompanhou, depois vi o rosto da mulher corar e o de Diego ficar com aspecto sedutor. Ela balançou a cabeça negativamente, depois se levantou, pegou suas coisas e eles caminharam até onde eu estava com Gustavo. - Boa noite! – Diego falou sorrindo. - Boa noite – Júlia falou mais contida. - Boa noite. – Gustavo e eu respondemos quase que na mesma hora. O elevador abriu e entramos, eu e Gustavo não conversávamos nada, bem diferente do que estava acontecendo entre Diego e Júlia. - Tá, mas você ao menos já ouviu falar em Oswaldo Montenegro, certo? – perguntou descontraído e Júlia balançou a cabeça negativamente – Meu Deus! Mas de Harry Styles ou MC Anjim, você com certeza já ouviu falar? - Olha, eu amo músicas com batida, amo tá dançando. Essas músicas paradonas não me atraem – Júlia respondeu. - Você precisa ouvir Oswaldo Montenegro. E não tô falando dos outros, mas ele sim! – eu lembrava muito bem que a paixão da avó de Diego por Oswaldo Montenegro havia passado para o neto, que apesar de amar funk, hip hop, rap, música sertaneja e tudo que envolvesse balada, dança e s**o, ele se tornou muito fã desse cantor. - Prometo tentar escutar – Júlia o respondeu. - Você não vai escutar, não é? – ele disse olhando sua cara e ela riu – Vou colocar para você ouvir enquanto a gente janta, assim não tem como você fugir. - Não! Você disse que seria algo descontraído, não algo para dar sono – ela falou e ele sorriu. - E vocês? Estão indo para casa ou restaurante? – perguntou Diego parecendo finalmente notar nossa presença no elevador. - Casa – me adiantei a Gustavo. - A gente tá indo para um restaurante excelente e a comida é uma delícia. – Diego falou e olhou para Júlia – Júlia foi lá comigo sábado e gostou do ambiente e da comida – disse com um sorriso no rosto. - Verdade, lá é tudo maravilhoso – ela disse sorrindo. - A noite de sábado não terminou muito boa, então vou compensar um final de jantar r**m com outro que vai ter um ótimo final – piscou os olhos para ela. Como assim “A noite de sábado não terminou muito boa”? Eles se beijaram no estacionamento e o clima entre eles parecia bom... Será que ela não quis ir até o apartamento dele, mas hoje ela iria? - Eu só tô aceitando pela carona que vou ganhar até em casa depois. – Júlia disse gesticulando com as mãos, então ele que ia para a casa dela? – Espero que não vire um hábito ter que ficar até essa hora aqui. - Pelo menos hoje você avisou a sua avó – Diego falou. - Pois é! – foi a resposta dela. Nesse momento o elevador abriu, eles saíram antes de nós, Diego parou e esperou a gente sair. - Vocês podiam vir com a gente. Ia ser legal e eu poderia me desculpar por não ter ficado no pós-reunião de mais cedo – Diego falou nos olhando. - O que você acha, amor? – Gustavo me perguntou me olhando. - Por mim tudo bem – respondi, mas no fundo queria dizer que não estava nem um pouco a fim de ir. - Onde fica? – Gustavo perguntou. - No Trattoria Fasano... – Gustavo o interrompeu. - Vocês estavam por lá no sábado? – perguntou surpreso. - Estávamos, por quê? – Diego retrucou sua pergunta. - Nós também! – me olhou sorrindo – Que coincidência, como não nos vimos por lá? - Ficamos na mesa ao ar livre, é mais reservado e tranquilo lá – Diego respondeu e eu podia jurar que meu rosto demonstrou o quanto não gostei de ouvir isso. - Já sabemos o caminho até lá. Vamos? – falei começando a andar, Gustavo falou algo que não ouvi e me seguiu. Em seguida fomos até o carro e dirigimos até o restaurante, tentei não demonstrar o quanto estava chateada por estar indo. Não queria que Gustavo pensasse nem por um segundo que minha estranheza na volta para casa naquele sábado se deu por ter visto Diego com Júlia se beijando naquele lugar. Quando chegamos, fomos até a mesa ao ar livre, “mais reservada e tranquila” que Diego ficou com Júlia no sábado à noite. Nos sentamos, eu ao lado de Júlia e de frente para Gustavo, que estava ao de Diego. Diego pediu o mesmo da outra noite para ele e para Júlia, ela sorriu. Gustavo acabou pedindo o mesmo que Diego escolheu para Julia, tanto para ele, quanto para mim. Ouvi eles conversando, Júlia era extremamente simpática e bonita, se enturmou rapidinho com Gustavo. A conversa entre os três fluía, enquanto eu fiquei apenas calada a maior parte do tempo. A comida chegou e começamos a comer, eles ainda insistiam em conversar. Quando terminamos, Diego pediu outra garrafa de vinho, já havíamos tomado uma, eu olhei para Gustavo, mas ele pareceu não se importar. - Espera! – Diego disse mexendo no celular, em seguida, pegou seu AirPods e se inclinou um pouco sobre a mesa, colocando um deles no ouvido de Júlia, enquanto a olhava nos olhos – Pronto, agora você vai saber o quanto que Oswaldo Montenegro é bom. Tá pronta? - Tô sim. Manda a ver! – ela falou sarcástica e o vi dando play em uma música. Ela prestava atenção ao que escutava. Eu e Gustavo a olhávamos. Em uma parte da música, seus olhos se encheram de lágrimas, que ela tentou a todo custo segurar e não permitir que caíssem, mas foi em vão, uma delas escorreu por seu rosto, mas ela rapidamente o enxugou. Quando a música terminou, ela tirou o fone do ouvido e o entregou para Diego. - E aí? O que achou? – ele perguntou curioso. - Muito linda essa música – foi tudo que falou, sua voz estava meio embargada, ele segurou em sua mão. - Ela é. – falou olhando para a moça. Eu e Gustavo ficamos alheio a isto. Eu sempre soube que Diego amava Oswaldo Montenegro, mas durante o tempo em que estávamos juntos, eu nunca parei para ouvir suas músicas. Eu era fã de músicas internacionais, por mais que ele tenha tentado, eu nunca parei para escutar e quando ele colocava no carro ou em outro lugar, eu sempre pedia para ele tirar. Nunca fiz o que Júlia fez, e o sorriso de satisfação no rosto de Diego me fez enxergar que eu deveria ter feito isso. - Acho que já tenho que ir – Júlia falou, ela estava visivelmente abalada depois de ouvir a música. - Claro. Vamos. Deixa só eu pagar isso aqui – falou chamando o garçom. - Deixa eu pagar... – Gustavo começou a falar, mas Diego não o deixou terminar. - Hoje é por minha conta – disse pagando tudo com seu cartão. Depois nos encaminhamos até o estacionamento, eu lembrei do beijo que eu vi, mas rapidamente parei de pensar nisso, quando Diego e Júlia deram “tchau” ao mesmo tempo e sorriram da cena. Observei eles indo embora, enquanto eu caminhava calada com Gustavo até o nosso carro.
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