Capítulo 5

892 Words
​O que foi mesmo que a Ashley me pediu antes de se afastar? Ah, sim: "não ofenda ninguém". Devo me sentir vitoriosa por ter seguido o conselho, afinal, até agora não insultei, certo? Quem eu quero enganar? Acabei de dizer, na cara de um homem influente, que o seu mais novo patrimônio é um desastre completo. ​Se ele me perguntar como entrei aqui, direi que vim sozinha. Farei isso apenas para não associar meu nome ao da minha amiga; direi que me infiltrei como uma intrusa, penso, enquanto tento dissipar o choque que, imagino, deve estar escancarado em meu rosto. O sorriso educado que eu usava como escudo dissolve-se, revelando uma curiosidade genuína que tento — e falho miseravelmente — em esconder. ​Tudo bem, Scarlett. Você não ofendeu ninguém, apenas deu um diagnóstico técnico. Agora, um elogio para salvar a noite. ​— É um prazer conhecê-lo, Sr. Keen. Devo dizer que o senhor é... surpreendentemente jovem para alguém que comanda um império. — A frase sai mais rápida do que o esperado. Posso quase ouvir o meu QI de 148 pontos despencando em direção ao chão. ​Dante solta uma risada curta, um som grave que parece vibrar diretamente sob a minha pele. Ele não desvia o olhar. — Agradeço a sinceridade, senhorita. Por instinto, fecho a mão, mas só então percebo que ainda seguro a dele. O contato elétrico faz meu coração falhar uma batida. Puxo-a rápido demais, sentindo o sangue subir pelo pescoço. ​— Scarlett Wilson... — ele testa meu nome, saboreando as sílabas como se estivesse avaliando uma peça rara. — Confesso que não me lembro de ter ouvido falar da senhorita nos círculos sociais. ​Isso foi uma forma polida de dizer que sou uma intrusa? ​— Não frequento a alta sociedade, Sr. Keen. Então, com toda certeza, você nunca ouviu falar de mim. — A franqueza sai afiada demais. Controle-se, Scarlett. — Quer dizer... meu tempo é escasso entre a faculdade e o trabalho. Não tenho o dom da ubiquidade para estar em todos os eventos da elite. ​— E o que consome tanto o seu tempo? — Ele se aproxima um passo. A distância entre nós diminui, e sinto o perfume amadeirado dele sobrepor o cheiro do champanhe. ​— Design de Interiores. — Respondo. Não há como esconder o brilho nos meus olhos ao falar da minha paixão, mesmo sabendo que não é a profissão que atrai convites para festas de gala. ​Dante me observa com um brilho novo no olhar, algo mais intenso que a curiosidade. — Então, isso explica seus olhos tão críticos. Você não está apenas aqui; você está dissecando cada detalhe da minha sala de estar. — Ele abre um sorriso de lado, perigoso e magnético. — Já está atuando, ou apenas julgando o meu gosto para o design? ​— É um paradoxo, eu diria. Difícil conseguir experiência sem oportunidade, e difícil conseguir oportunidade sem experiência. — Bebo o resto do champanhe, tentando ganhar coragem. — Desculpe, tenho o hábito de ser brutalmente honesta. Imagino que a última coisa que queira na véspera de Ano Novo seja uma desconhecida apontando os erros da sua decoração. ​Dante inclina a cabeça, abaixando o tom de voz até virar um sussurro compartilhado apenas entre nós. — Pelo contrário. Nas últimas horas, tudo o que eu desejei foi alguém que não estivesse aqui apenas para sorrir e concordar comigo. Minha equipe jurou que este dourado era a última tendência. Sinto que fui levado pela ingenuidade. ​— No quesito opulência, eles acertaram. Mas sufocaram a alma do lugar. Este hotel tem uma vista para o mar que é um crime esconder atrás de tanto metal pesado. — Fecho os olhos, visualizando. — Se o design estivesse nas minhas mãos, eu usaria azul-céu, porcelana, e deixaria o dourado apenas como uma sombra sutil. Eu trocaria esses lustres por algo que lembrasse a transparência do ar... algo que trouxesse o mar para dentro. ​Ele não tira os olhos do meu rosto. A intensidade do seu olhar é quase tátil. — Parece fascinante. — Ele murmura. — Será que alguém mais notou esse erro, ou você é a única com a coragem de me dizer a verdade? ​— As pessoas aqui estão ocupadas demais desfilando grifes, Dante. — O nome escapa sem que eu perceba. Ele percebe, e o sorriso em seus lábios se aprofunda. — No fim das contas, a decoração não é o que atrai a atenção delas aqui. Sorte a sua. ​— Mas e se alguém tivesse notado? — Ele insiste, dando um passo ainda mais próximo. O ar ao nosso redor parece ter ficado mais denso. ​— Se alguém notasse, eu diria que é para atrair fortuna e sorte no amor. Até os bilionários precisam de um pouco de fé, não é? ​Dante trava o maxilar, um brilho desafiador surgindo em seu olhar. — Posso te fazer uma pergunta, Scarlett? E desta vez, quero a sua versão mais honesta possível. ​— Sou incapaz de responder de outra forma. — Desafio. ​— Por que esse seu preconceito tão defensivo com pessoas ricas? Ou será que o seu problema não é com o dinheiro, mas com o que ele te faz sentir quando está perto de mim? ​
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