02 - Eloá

1916 Words
Eloá Narrando Me chamo Eloá de Farias. Tenho dezessete anos. Sou morena, tenho olhos castanhos e cabelos castanhos que quase sempre ficam presos num coque bagunçado. Sou magra, tenho 1,55 de altura, e dizem que pareço mais nova do que realmente sou. Mas dentro da minha cabeça existe um sonho enorme. Independente da minha idade e aparência. Eu quero ser médica obstetra. Desde pequena, esse sempre foi o meu sonho. Não é algo que surgiu do nada. Não é um capricho passageiro. É algo que mora dentro de mim há anos. Talvez porque minha mãe morreu no parto. Eu nunca a conheci. Nunca ouvi a voz dela, nunca senti um abraço, nunca tive uma lembrança sequer. Tudo o que sei é o que as pessoas contam: que ela era boa, que era doce, e que morreu no dia em que eu nasci. Por muito tempo, eu odiei a palavra parto. Parecia injusto demais que algo que deveria trazer vida tivesse tirado a dela. Mas, conforme fui crescendo, comecei a pensar diferente. Comecei a me perguntar quantas mães poderiam ser salvas se tivessem o atendimento certo, o médico certo, na hora certa. Foi aí que meu sonho nasceu. Eu quero estar naquela sala quando uma mãe estiver lutando para viver. Quero saber o que fazer. Quero impedir que outra criança cresça sem mãe como eu cresci. Eu quero salvar vidas. Por isso eu estudo. Estudo muito. Tenho uma caixa escondida no meu quarto cheia de arquivos, apostilas e recortes sobre medicina. Coisas que encontro na internet, textos sobre gravidez, parto, complicações, procedimentos médicos. Às vezes são termos difíceis que eu mäl entendo ainda, mas mesmo assim eu guardo. Leio tudo, Pesquiso. Anoto. Aprendo o que posso. Meu pai sempre dizia que eu era teimosa quando colocava algo na cabeça. — Essa menina ainda vai longe — ele falava, sorrindo. Eu guardava aquelas palavras como um tesouro. Hoje eu estou no terceiro ano do ensino médio. Cada prova parece uma montanha, cada matéria exige mais de mim do que eu acho que consigo dar, mas eu continuo. Porque no fim do ano tem o ENEM. E eu sonho com esse momento. O dia em que eu vou sentar naquela cadeira, receber a prova e saber que tudo o que eu fiz até agora me trouxe até ali. Quem sabe eu consiga uma boa pontuação. Quem sabe eu consiga uma vaga em uma faculdade de medicina. Quem sabe, daqui alguns anos, eu esteja vestindo um jaleco branco, entrando numa maternidade e ouvindo o primeiro choro de um bebê que acabou de nascer. E, naquele momento, uma mãe também estará viva para abraçar seu filho. Esse sempre foi o meu sonho. Ser médica, Salvar mães. Dar às crianças algo que eu nunca tive. Colo e amor de mãe. Mais essa noite, eu não consegui estudar e nem dormir. Nem por um segundo. Fiquei deitada olhando para o teto rachado do meu quarto enquanto o relógio parecia arrastar os ponteiros só para me torturar mais um pouco. Cada barulho da casa me fazia prender a respiração. Cada rangido da madeira me lembrava que, em poucas horas, minha vida deixaria de ser minha. Filipa tinha me vendido. Aquilo martelava na minha cabeça como um prego sendo cravado. — Vendida, trocada, tanto faz. Não era ameaça. Não era castigo. Era um acordo. Um pagamento. Quando o ponteiro marcou quatro da manhã, eu já não aguentava mais ficar ali esperando o dia nascer como um animal indo para o abate. Eu levantei, devagar. Cada movimento calculado para não fazer barulho. Peguei a mochila velha que eu usava na escola e joguei duas mudas de roupa dentro. Não era muito, mas era o que dava para carregar sem levantar suspeita. Peguei também duas calcinhas da gaveta e enfiei no fundo da bolsa. Minhas mãos tremiam tanto que eu precisei respirar fundo várias vezes. Troquei de roupa ali mesmo, no escuro. Coloquei um moletom velho, enfiei o capuz na cabeça e calcei meu chinelo. Nada de mala cheia demais. Nada que denunciasse fuga. Só uma garota saindo cedo. Foi o que eu tentei convencer a mim mesma. Abri a porta do quarto bem devagar. A casa estava silenciosa. Pesada. O tipo de silêncio que faz até o coração parecer barulhento demais. Caminhei na ponta dos pés pelo corredor. Quando passei pela sala, o ronco de Filipa vinha alto do quarto dela. Um som profundo, relaxado, como se ela não fosse a mesma mulher que tinha destruído minha vida horas antes. — Dormi como um anjo, né? — pensei, com um gosto amargo na boca. — Bruxa desgraçada. Segurei a mochila contra o peito e abri a porta. O ar frio da madrugada bateu no meu rosto. Eu estava fora. Por um segundo, senti algo que não sentia há muito tempo. Esperança. Desci a viela rápido, sem olhar para trás. As luzes amarelas dos postes piscavam aqui e ali. Alguns cachorros reviravam lixo nas esquinas. Eu só precisava sair do morro. Só isso. Mas quando cheguei perto da barricada, ouvi o som que fez meu estômago despencar. Um assobio. — Ei! Parei na mesma hora. Devagar, virei a cabeça. Um dos homens estava encostado no tambor de metal que servia de posto improvisado. Fuzil pendurado no peito, olhar atento. — Onde tu pensa que vai? Meu coração começou a bater tão forte que parecia querer fugir primeiro que eu. Engoli seco. — Eu… eu vou trabalhar. Ele franziu a testa e se aproximou. — Trabalhar? Antes que eu pudesse reagir, ele puxou o capuz da minha cabeça. Meu cabelo caiu sobre os ombros e meu rosto ficou completamente exposto à luz fraca do poste. Os olhos dele estreitaram. — Trabalhar onde? Eu senti a garganta secar. — No asfalto. — gaguejei. — Arrumei um trampo. Tenho que tá lá antes das sete. Ele me encarou por alguns segundos. Então começou a rir. Não era uma risada divertida. Era debochada. — Tu pensa que vai pra onde, garota? — ele disse, balançando a cabeça. — Tá achando que tá onde? Ele deu um passo mais perto. — Tu tá no Dendê, fia. Meu estômago se contraiu. — Aqui ninguém mente pra mentiroso não. Antes que eu pudesse reagir, ele puxou minha mochila. — Ei! — tentei segurar. Tarde demais. Ele abriu o zíper e revirou o conteúdo. As roupas. As calcinhas. Ele levantou os olhos devagar e me encarou. — Então é fuga mesmo. Meu coração estava disparado. — Eu só… eu só quero ir embora. Ele fechou a mochila e jogou de volta contra o meu peito. — Volta pra casa. Balancei a cabeça imediatamente. — Não. A expressão dele mudou. — O quê? — Eu não vou voltar. Minha voz saiu tremida, mas saiu. — Você não manda em mim. Eu não tô fazendo nada errado. Sair do morro não é crime. Ele soltou um riso curto. — Não é crime? Ele coçou a barba rala, me observando como se eu fosse uma criança que não entende as regras do jogo. — Tu não pode sair do morro sem ordem do Ceifador. Meu sangue ferveu. — O Ceifador não manda em mim. O homem ficou em silêncio por um segundo. Depois inclinou a cabeça. — Ah, não manda? Ele puxou o rádio preso no colete. — Bora ver. Meu estômago despencou. Ele apertou o botão. — Chefe na escuta. Um chiado tomou conta do ar. E então uma voz grave, pesada, atravessou o rádio como um trovão. — Manda a boa. O homem olhou para mim enquanto falava. — A garota que o senhor mandou ficar de olho tá aqui na contenção querendo fugir. Silêncio. O tipo de silêncio que faz o tempo parar. Eu não sabia se tinham passado segundos, ou uma eternidade. Meu coração martelava no peito. Então o rádio chiou de novo. E a voz voltou. Fria. Direta. Sem hesitação. — Arrasta ela pra cá agora. O homem agarrou meu braço com tanta força que eu senti os dedos dele cravarem na minha pele. — Anda. Eu me debati na mesma hora. — Me solta! Comecei a gritar com tudo que tinha na garganta. — Socorro! Alguém me ajuda, Socorro. Ele tentou me puxar, mas eu me joguei para trás, tentando escapar. Minha garganta ardia enquanto eu gritava, o desespero rasgando meu peito. Era como se cada palavra fosse a última coisa que eu podia fazer por mim mesma. — Cala a boca! — ele rosnou. Eu não calei. Tentei morder a mão dele, virei o rosto e avancei com os dentes. Ele puxou o braço rápido e, no mesmo instante, senti o tapa pesado acertar o lado da minha cabeça. Tudo rodou por um segundo. — Fica quieta, garota! Mas eu não parei. Chutei a perna dele, xinguei, me torci inteira tentando escapar. Ele continuou me arrastando pela ladeira como se eu não pesasse nada. — Socorro! — gritei de novo, a voz já falhando. — Por favor. As casas estavam ali, Portas fechadas. Janelas escuras. Eu olhava desesperada para cada uma delas esperando qualquer sinal, uma luz acendendo, alguém abrindo a porta, uma voz perguntando o que estava acontecendo. Nada. Nem uma fresta. Nem um barulho, ninguém teve coragem. O silêncio das pessoas foi pior do que a força daquele homem me arrastando. Chegamos mais ou menos na metade da ladeira e ele parou de repente. Estava respirando pesado. Cansado. A mão dele ainda presa no meu braço. Foi aí que eu vi minha chance. Puxei meu braço com toda força que tinha, de uma vez só, e consegui me soltar. Saí correndo. Desci a ladeira quase voando, o coração disparado, o ar rasgando meus pulmões. Eu ia conseguir. Eu ia sair dali. Meu pé prendeu em alguma pedra solta e eu tropecei. Caí com tudo no chão. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. Antes que eu conseguisse levantar, uma mão forte me puxou pelo braço. Outro homem, Outro vapor. Ele me ergueu com brutalidade e apertou meu braço com força suficiente para me fazer gemer de dor. — Fica quietinha. Ele aproximou o rosto do meu, os olhos duros. — E vai bem pianinha, entendeu? Tentei puxar meu braço. Inútil. Ele apertou ainda mais. — Se não tu vai chegar no chefe toda roxa. Minhas pernas tremiam. Meu peito subia e descia rápido demais. Eu queria continuar gritando. Queria continuar lutando. Mas naquele momento eu entendi uma coisa. Ninguém ia me ajudar. Ninguém tem coragem de desafiar o Ceifador. Então eu parei de gritar. Mas não parei de tentar me soltar. Durante todo o caminho eu puxava o braço, tentava girar o corpo, tentava escapar de qualquer jeito. Era inútil. Eles eram mais fortes. Chegamos lá em cima. Na casa do Ceifador. Eu já tinha passado por aquela área antes, mas nunca tinha chegado tão perto. A casa ficava na parte mais alta do morro, onde dava para ver tudo lá de cima. O coração batia tão forte que eu sentia nos ouvidos. Eu nunca vi esse homem. Não faço ideia de como ele é. Só sei o nome. Ceifador. E agora estavam me levando direto até ele. O homem abriu o portão e me empurraram para dentro. Minhas pernas pareciam gelatina, um deles sorriu e disse: — O Chefe vai adorar o novo brinquedinho dele. — Novinha, tá cheirando a leite ainda. — O outro falou sorrindo. O medo, correu pelo meu sangue. Mas sei uma coisa. Agora ele é meu dono. E minha vida, simplesmente acabou.
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