Ceifador Narrando
Fala meus cria, Meu nome de batismo é Robson Monteiro.
Tenho 30 anos.
Mas quase ninguém me chama assim.
Aqui no Morro do Dendê, meu nome é outro. Ceifador.
Sou chefe do morro e sirvo ao CV, Comando Vermelho. Aqui dentro todo mundo sabe quem manda, quem resolve e quem também manda pra debaixo da terra quando precisa.
Eu sou moreno, tenho 1,86 de altura, corpo fechado de tanto treino e de tanta porrada que a vida já me deu. Olhos castanhos, cabelo preto e cacheado, sempre baixo porque não tenho paciência pra ficar arrumando.
Minha cara já diz muita coisa.
Dizem que meu olhar mete medo. Talvez porque eu já vi coisa demais pra um homem só.
Sou órfão de pai e mãe.
Tudo que me restou nessa vida foi minha vó, Dona Lindalva, e minha irmã Amanda.
Minha vó é a única pessoa nesse mundo que ainda consegue falar comigo sem medo. A única que tem moral pra olhar na minha cara e dizer quando eu tô errado.
E eu escuto.
Porque se não fosse aquela mulher, eu já tinha virado estatística faz tempo.
Minha irmã tem 20 anos.
Quando nossa mãe morreu, ela tinha só nove.
Eu lembro daquele dia como se tivesse sido ontem.
E tem uma coisa que eu nunca escondi de ninguém.
Eu nunca perdoei minha mãe.
Nem depois que morreu, Nem no enterro dela eu fui.
E não me arrependo nem um pouco disso.
Porque, pra mim, ela morreu muito antes de levar o último tiro.
Minha mãe não passava de uma x9.
Uma filha da püta que resolveu brincar com fogo.
Ela era dessas patricinhas que acham que a vida é novela. Foi expulsa de casa pela família porque resolveu se envolver com bandido.
Que no caso era meu pai.
Meu velho era cria do crime. Homem respeitado dentro da facção. Mas tinha um defeito grande demais.
Ele amava aquela mulher. Amava de um jeito cego.
E ela traiu ele.
Entregou meu pai pros amantes dela da polícia. Ficava de caso com tira e passava informação.
Quando meu pai descobriu, já era.
Eu lembro dele mandando eu e Amanda pra casa da minha vó.
O olhar dele tava diferente naquele dia, pesado, frio.
— Cuida da tua irmã — ele falou pra mim.
Eu tinha dezenove anos.
Não perguntei nada. Não precisava.
Algumas horas depois veio a notícia.
Meu pai matou minha mãe dentro da nossa casa.
Mas a história não acabou ali.
O velho amava aquela mulher mais do que odiava.
Não durou muito.
Pouco tempo depois ele se matou.
E ali, naquele momento, minha vida mudou.
Eu tinha dezenove anos quando assumi essa pörra toda. O morro precisava de alguém.
E eu sempre estive aqui.
Foi naquele dia que Robson morreu. E nasceu o Ceifador.
Ceifador de vidas, de almas.
De sonhos, de inocência.
Porque aqui é assim.
Ou tu vira pedra, ou vira pó.
Eu taco o föda-se pra quase tudo nessa vida.
Não tenho medo de ninguém.
Nem de polícia.
Nem de inimigo.
Nem da morte.
Se vier, vem.
Mas enquanto eu tiver respirando, ninguém pisa na minha quebrada.
Aqui eu protejo morador.
Quem vive na paz, trabalha, cria filho, comigo tá tranquilo.
Agora o morador que tentar me tirar de comédia.
Eu mando pra terra de pé junto sem nem pensar duas vezes.
Aqui respeito é regra.
E quem esquece disso aprende rápido.
Mesmo sendo o chefe, tem uma pessoa que manda em mim.
Minha vó.
— Robson, tu tá exagerando — ela fala às vezes.
E eu fico quieto.
Porque com ela é diferente.
Amanda também é tudo pra mim.
Ela faz curso de enfermagem.
Tá correndo atrás da vida dela, estudando, tentando ser alguém fora dessa mërda toda que é o crime.
E eu deixo.
Na real, eu incentivo, Pago faculdade. Pago material.
Pago tudo.
Ela e minha vó têm vida boa.
Casa arrumada, Mesa cheia.
Nada falta.
Porque se eu tô nessa vida, pelo menos é pra garantir que elas nunca passem necessidade.
Mas tem uma coisa que eu não aceito.
Que me façam de otärio.
Aí o bicho pega.
Uma vez Amanda apareceu aqui com um playboyzinho cheirador de pó.
Filhinho de papai, Nariz branco.
Achando que tava abafando dentro da favela.
Na mesma hora eu mandei ele vazar.
— Some da minha frente antes que eu te apague.
O moleque saiu quase se cagandö.
Depois eu acertei as contas com Amanda.
Dei uma surra de cinto nela.
— Pra tu aprender a não trazer lixo pra dentro da minha quebrada.
Ela chorou.
Ficou dias sem falar comigo.
Mas nunca mais trouxe ninguém. Aprendeu.
Tem também uma parada aí…
Um rolo, nada sério. Pelo menos pra mim.
O nome dela é Iara.
Uma p*****a gostosa pra Carälho. Corpo que parece pecado.
Mas não passa disso.
A gente se encontra, trepa.
E cada um segue sua vida.
Sem romance, Sem promessa.
Sem cobrança.
Eu dou uma ajuda pra ela se manter.
Ela tem um moleque pequeno.
E, pra falar a verdade, eu até curto o pirralho.
O moleque é esperto.
Uma vez ela inventou moda.
Mandou o garoto me chamar de pai.
— Vai lá falar com teu pai.
O moleque veio todo inocente.
— Pai…
Na hora eu cortei.
— Para com essa pörra.
Olhei pra Iara.
— Não inventa história pro moleque.
Depois abaixei e falei pro garoto.
— Escuta aqui, campeão, eu não sou nada teu não.
Pai o Carälho, pai é quem cria.
Quem fica, quem assume.
E eu não nasci pra isso.
Eu nasci pra outra coisa, eu nasci pra comandar.
Pra sobreviver.
Pra fazer o que precisa ser feito. Porque aqui no Dendê.
Quem vacila, eu cobro, e cobro com a vida.
Ser chefe do morro não é só mandar. É cobrar também.
Porque aqui tudo gira em volta de dinheiro e respeito. Se eu deixo passar uma dívida, amanhã tem dez malandro achando que pode fazer o mesmo.
E comigo não funciona assim.
Teve um caso esses dias que ainda tava entalado na minha cabeça.
Um morador antigo daqui do Dendê. Cara trabalhador, pedreiro. Sempre viveu na dele, nunca arrumou confusão com ninguém.
O problema foi quando a vida resolveu cobrar caro demais.
A mulher dele ficou doente.
Doente de verdade.
Hospital, exame, remédio caro, aquela pörra que vai sugando tudo que a pessoa tem.
O cara veio até mim um dia.
— Chefe, tô numa situação braba.
Eu já sabia qual era o papo.
— Fala.
Ele coçou a cabeça, nervoso.
— Preciso de uma ajuda, minha mulher tá fazendo tratamento, e o dinheiro não tá dando.
Eu pensei por uns segundos.
Eu não sou banco, mas também não sou bicho.
— Quanto tu precisa?
Aí começou.
Primeiro foi dez mil.
Depois mais cinco.
Depois ele pegou mais pra completar salário, pagar remédio, pagar exame, quando fui ver o cara também já tinha comprado uma casa minha parcelada, Como vários moradores tem.
A dívida foi crescendo.
Crescendo, Crescendo.
Quando fui fechar as contas.
Já tava batendo mais de noventa mil reais.
Eu já tava cobrando ele direto.
— E aí, parceiro, quando tu vai começar a pagar essa pörra?
Ele sempre vinha com história.
— Só mais um tempo, chefe.
— Tô tentando ajeitar, as coisas.
Até que um dia veio a notícia.
O cara morreu num acidente.
Moto contra caminhão.
Acabou ali.
Quando fiquei sabendo, fiquei olhando pro nada por uns segundos.
Noventa mil. Não é troco de bala. Olhei pro Fred, meu braço direito.
— Eu não vou perder essa grana.
Fred já entendeu na hora.
— Quer que eu vá lá?
— Vai. Cobra a viúva.
Ele só assentiu.
Fred é desses caras que não faz pergunta, Resolve.
Dois dias depois ele voltou.
Entrou na sala com aquela cara de quem já vinha com novidade.
— E aí? — perguntei.
Ele deu um meio sorriso.
— Chefe, a coroa veio com uma proposta.
Acendi um cigarro.
— Manda.
Fred apoiou a mão na mesa.
— Ela disse que não tem dinheiro, mas tem uma filha.
Eu levantei a sobrancelha.
— Filha?
— Novinha, trabalhadora.
Ele fez uma pausa antes de completar.
— E virgem.
Eu soltei uma risada na mesma hora.
— Tá de sacänagem.
Fred balançou a cabeça devagar.
— Não tô não. Foi ela que falou.
Eu fiquei alguns segundos rindo sozinho, balançando a cabeça.
Olha o nível do desespero das pessoas.
— E qual é a proposta dessa coroa?
Fred respondeu direto.
— Entregar a garota, no valor da dívida.
O silêncio caiu por um instante.
— Por noventa mil.
Eu encarei ele.
— A dívida inteira?
— Aham.
Fred só confirmou com a cabeça.
Fiquei pensando por alguns segundos.
Depois dei outra tragada no cigarro.
— Eu vou pegar.
Fred sorriu de lado.
Já sabia que a resposta ia ser essa. Mas levantei o dedo antes.
— Só que tem regra.
Ele ficou atento.
— Tu vai lá, tomar a casa também.
Fred arregalou um pouco os olhos.
— A casa?
— A casa.
Apaguei o cigarro no cinzeiro.
— E deixa bem claro uma coisa.
Ele se inclinou um pouco pra frente.
— Qual?
Olhei direto pra ele.
— Essa mina agora vai fazer o que eu mandar.
Fred assentiu.
Mas eu completei a voz ficando mais fria.
— E avisa também que se essa tia resolver dar uma de engraçada.
Me levantei devagar da cadeira.
— O bagulho vai ficar sério pro lado dela.
No Dendê é assim, dívida se paga. De um jeito, ou de outro.