Eloá Narrando
Hoje eu acordei diferente.
Mais triste que nos outros dias.
Fiquei uns minutos olhando pro teto do quarto, tentando entender por que aquele aperto no peito tava maior hoje.
Até que lembrei, Hoje é meu aniversário. Dezoito anos.
Respirei fundo e virei pro lado na cama. Quando eu era pequena, meu pai sempre falava desse dia.
Falava com um sorriso tão bonito que até hoje eu consigo lembrar.
— No dia que tu fizer dezoito anos, minha filha. — ele disse, encostado na mesa da cozinha.
Eu tava sentada na cadeira balançando as pernas, prestando atenção em cada palavra.
— Tu vai ser uma mulher, maior de idade.
Ele sempre falou isso com orgulho.
— Independente.
Depois ele apontou pra mim brincando.
— E a gente vai viajar pra comemorar essa nova fase da tua vida.
Fechei os olhos. Por um instante foi como se eu estivesse lá de novo.
A cozinha simples da nossa casa. A luz do sol entrando pela janela.
Meu pai sentado na mesa comigo, Só nós dois, Conversando. Rindo.
Sentindo que o mundo era um lugar seguro.
Uma lágrima escapou pelo canto do meu olho.
Eu senti ela escorrer devagar até a lateral do rosto.
Mas antes que caísse no travesseiro, eu levantei a mão e enxuguei rápido.
— Para, Eloá. — murmurei pra mim mesma.
Não adianta ficar chorando.
Ele não vai voltar.
Respirei fundo e me levantei da cama. O chão frio fez eu arrepiar um pouco.
Fui direto pro banheiro.
Liguei a torneira e joguei água no rosto várias vezes.
A água gelada ajudou a acordar de verdade.
Depois escovei os dentes olhando meu reflexo no espelho.
Dezoito anos.
Maior de idade.
Mas minha vida tava longe de ser como eu imaginei quando era criança.
Terminei de me arrumar, prendi o cabelo num coque simples e voltei pro quarto.
Abri o guarda-roupa e peguei uma roupa confortável.
Um short leve e uma blusa soltinha. Aqui na casa do Ceifador não é ruïm.
Pelo menos por enquanto.
Estamos só eu, a Amanda e a dona Lindalva.
E eu preciso admitir, as duas têm cuidado de mim como se eu fosse da família.
Como se eu fosse neta da dona Lindalva também.
Ela sempre pergunta se eu já comi. Se dormi bem.
Se tô precisando de alguma coisa.
E Amanda é uma companhia boa. Ela me faz rir.
Me chama pra piscina.
Me distrai, e isso tem ajudado muito.
Porque na maior parte do tempo eu fico aqui dentro.
Eu não saio. Prefiro evitar qualquer problema.
Então acabo ajudando dentro da casa, arrumo algumas coisas. Lavo louça.
Dou uma força na cozinha.
Essas coisas simples.
Às vezes, quando o dia tá muito quente, eu e Amanda vamos pra piscina.
A água fria ajuda a esquecer um pouco os problemas.
A gente fica conversando besteira, rindo, tentando agir como duas garotas normais.
E quando chega o dia de limpar o quintal, eu também ajudo a dona Lindalva.
Ela vive dizendo que eu não preciso fazer nada.
— Deixa isso pra gente, menina.
Mas eu não consigo ficar parada. Então pego a vassoura, ajudo a recolher folhas, molho as plantas.
Isso me faz sentir um pouco útil.
E até agora, graças a Deus, ninguém mexeu comigo.
Os homens do Ceifador quase não aparecem. Quando aparecem, passam direto.
Não falam comigo.
Nem me olham direito.
E sinceramente?
Eu prefiro assim.
Quanto menos atenção eu chamar aqui dentro, melhor.
Também não tive nenhuma notícia da Filipa, nem dela.
Nem dos filhos dela. E pra falar a verdade.
Eu nem sei se quero ter.
Encostei na janela do quarto e olhei lá pra fora. O morro lá embaixo tava cheio de vida.
Gente andando.
Música tocando em algum lugar.
Respirei fundo.
— Tomara que essa paz dure. — sussurrei.
Porque depois de tudo que aconteceu. A única coisa que eu quero agora.
É um pouco de tranquilidade.
Assim que eu desci as escadas, o cheiro de café já tava espalhado pela casa inteira. A cozinha sempre ficava cheia daquele cheiro bom de comida caseira que a dona Lindalva fazia.
Mas quando eu entrei, eu parei na porta.
No meio da mesa tinha um bolo, desses bonitos de padaria, com cobertura de chantilly bem branquinho, com flores rosas. Em cima tava escrito com glacê rosa: Parabéns Eloá.
Por alguns segundos eu só fiquei olhando, sem acreditar.
A mesa também tava toda arrumada, com café, pão, queijo, suco, parecia até uma festa.
Antes que eu conseguisse falar qualquer coisa, ouvi passos atrás de mim.
Quando virei o rosto, Amanda e dona Lindalva estavam paradas na porta da cozinha sorrindo.
E começaram a cantar.
— Parabéns pra você… nessa data querida…
Minha garganta apertou na hora. Elas vinham caminhando devagar enquanto cantavam, batendo palmas e sorrindo pra mim.
Eu levei a mão na boca, completamente emocionada.
— Gente. — falei baixinho.
Quando terminaram de cantar, Amanda veio primeiro e me abraçou.
— Feliz aniversário, Chatonilda.
Eu abracei ela de volta, sentindo os olhos encherem de lágrima.
— Eu nem acredito que vocês lembraram.
Ela riu.
— Claro que lembramos.
Balancei a cabeça.
— Eu só falei uma vez.
Amanda deu de ombros.
— Eu tenho memória boa.
Dona Lindalva chegou mais perto e segurou minhas mãos com carinho.
— Hoje é teu dia, minha filha.
O jeito que ela falou aquilo fez meu peito esquentar. Como se, por um momento, eu realmente tivesse uma avó ali comigo.
Ela sorriu.
— Pra comemorar teu aniversário, tu pode pedir o que quiser.
Eu balancei a cabeça rápido.
— Não precisa de nada não, dona Lindalva, isso aqui já é mais do que suficiente.
Amanda revirou os olhos.
— Para de ser chata, Eloá.
Ela encostou no balcão da cozinha e cruzou os braços.
— Tá passando um filme muito bom no cinema. Com aquele ator que tu falou que gosta.
Meus olhos brilharam na hora.
— Sério?
Ela assentiu.
Olhei pra dona Lindalva meio sem jeito.
— Então, a gente podia ir no cinema, se puder, claro.
Dona Lindalva deu uma risadinha.
— Claro que pode.
Ela bateu palminha uma vez.
— A gente vai depois do almoço.
O resto da manhã passou leve. Tomamos café, conversamos, rimos um pouco.
E na hora do almoço o cheiro que veio da cozinha quase me fez babar. Lasanha à bolonhesa. Um dos meus pratos favoritos.
Quando eu vi a travessa cheia na mesa, arregalei os olhos.
— Dona Lindalva, não acredito que a senhora fez isso.
Ela piscou.
— Aniversário merece comida boa.
A gente almoçou juntas.
A lasanha tava perfeita.
Massa macia, molho bem temperado, queijo derretendo.
Eu comi até repeti.
Depois subi pro quarto pra me arrumar.
Como quase todas as roupas que eu uso aqui eram emprestadas da Amanda, ela mesma me ajudou a escolher.
— Essa aqui fica boa em você.
Ela me entregou uma blusa e um short jeans.
— Tá linda.
Quando terminamos de nos arrumar, pegamos nossas coisas e saímos.
Fomos direto pro shopping.
É estranho sair desse jeito depois de tudo que tinha acontecido na minha vida.
Parecia um pedacinho de normalidade.
Primeira parada: cinema.
Dona Lindalva foi comprar os ingressos enquanto eu e Amanda ficamos olhando os cartazes dos filmes.
Quando ela voltou, tava carregando um monte de coisa.
— Pipoca, refrigerante e chocolate.
Eu ri.
— Assim a gente não vai nem conseguir assistir o filme.
Entramos na sala e sentamos nas cadeiras. O filme realmente era muito bom.
Engraçado, emocionante, eu até esqueci do mundo por duas horas.
Quando saímos da sala, dona Lindalva esticou os braços.
— Agora vamos fazer um lanchinho.
Fomos pra praça de alimentação.
Comemos hambúrguer, batata frita e tomamos mais refrigerante.
Eu tava me sentindo tão leve que parecia que tinha voltado a ser só uma garota, aproveitando o aniversário.
Depois que terminamos de comer, Amanda segurou meu braço.
— Vem comigo.
— Pra onde?
— Surpresa.
Ela me puxou até uma loja de roupa.
Dona Lindalva veio logo atrás rindo. A gente começou a olhar várias peças.
Blusas, Calças. Vestidos.
Eu ficava dizendo que não precisava, mas dona Lindalva insistia.
— Escolhe alguma coisa, menina.
Depois de muito olhar, escolhi uma calça jeans e uma blusa simples, mas bonita.
Também passamos em outra loja e compramos calcinhas e alguns produtos pro cabelo.
Quando saímos do shopping já tava de noite.
Voltamos pro morro.
Quando entrei de novo na casa, senti um cansaço bom no corpo.
Subi pro quarto, sentei na cama e sorri sozinha.
Depois de tudo.
Eu finalmente tive um aniversário feliz.