19 - Eloá

1257 Words
Eloá Narrando O caminho até o presídio foi em silêncio na maior parte do tempo. Eu tava com as mãos geladas, segurando o tecido do casaco, olhando pela janela enquanto a cidade ainda acordava. O céu tava meio claro, meio escuro, aquele horário estranho que parece que o dia ainda tá decidindo se começa ou não. O advogado quebrou o silêncio depois de um tempo. — É a sua primeira vez, né? Assenti. — É… Ele respirou fundo, como se já soubesse que eu tava nervosa. — Então presta atenção no que eu vou te explicar agora, porque vai te ajudar lá dentro. Virei o rosto pra ele, tentando focar. — Quando a gente chegar, você vai entrar na fila das visitantes. Normalmente já tem bastante gente, então tenta manter a calma. Engoli seco. — Tá… — Você vai passar por algumas etapas — ele continuou. — Primeiro, identificação. Eles vão conferir seu documento, ver se seu nome tá liberado pra visita. Assenti devagar. — Depois vem a revista. Meu coração deu um pulo. — Revista? Ele olhou rápido pra mim. — Sim. Fica tranquila, é procedimento padrão. Eles precisam garantir que ninguém tá entrando com nada proibido. Respirei fundo. — Tá bom. — Suas sacolas também vão ser verificadas. Tudo que você tá levando vai passar por inspeção. Olhei pra trás, imaginando as sacolas no porta-malas. — E depois? — Depois que passar por tudo isso, você entra na área de visita e aguarda chamarem o Ceifador. Fiquei em silêncio. Tentando guardar tudo. Tentando não entrar em pânico. — Eu vou estar por perto — ele completou. — Sei o horário que termina a visita. Te encontro no mesmo lugar. Assenti. — Obrigada. Pouco tempo depois, o carro começou a diminuir a velocidade. Quando eu olhei pela janela… Meu coração gelou de vez. O presídio, Grande.Cinza. Frio. Cheio de grades, muros altos e gente armada. Respirei fundo, tentando me controlar. — Chegamos — ele disse. O carro parou. Minhas mãos começaram a suar. Ele desceu primeiro, foi até o porta-malas e tirou as sacolas. Eu saí logo depois, com o coração na boca. E então eu vi, a fila. Enorme. Cheia de mulheres. De todas as idades. Algumas com crianças, outras sozinhas, todas carregando sacolas parecidas com as minhas. Apertei o casaco contra o corpo. — Vem — o advogado disse, me guiando. Fui atrás dele, meio travada. Ele me levou até o final da fila e colocou as sacolas no chão. Pegou meu RG e conferiu de novo. — Tá tudo certo. Me entregou. — Qualquer coisa, mantém a calma. Segue o que eles mandarem. Assenti, nervosa. — Tá… Ele deu um leve aceno. — Boa sorte. — Obrigada. Ele se afastou, e eu fiquei ali. Sozinha, na fila. O tempo parecia não passar. O sol já tava mais alto, e o calor começava a incomodar. As mulheres conversavam entre si, algumas riam, outras estavam sérias, concentradas. Eu fiquei quieta, Observando. Segurando minhas sacolas. Depois de um tempo, a fila começou a andar, devagar. Bem devagar. Até que chegou minha vez de entrar no primeiro portão. Um agente pediu meu documento. — RG. Entreguei com a mão levemente trêmula. Ele conferiu, olhou pra mim, depois pra lista. — Primeira vez? Assenti. — Sim. Ele marcou alguma coisa e devolveu. — Entra ali. Passei por um portão de grade que fez um barulho alto quando fechou atrás de mim. Meu coração disparou. Segui o fluxo. Fui levada pra uma área onde outras mulheres aguardavam. Ali começou a revista das sacolas. Coloquei tudo na mesa. Uma agente abriu cada vasilha, Mexeu. Olhou. Conferiu o pão, o queijo, o presunto, o suco. Tudo. Sem exceção. Eu só observava, quieta. Depois disso, veio a parte que eu mais temia. A revista pessoal, Uma agente me chamou. — Vem. Fui até ela, nervosa. — Levanta os braços. Levantei. Ela passou as mãos pelo meu corpo, verificando tudo. Depois pediu pra eu girar. Obedeci. Meu coração batia forte. Mas eu só queria que aquilo acabasse logo. Mandou tirar a roupa, e me agachar em cima de um espelho, fiz isso me sentindo humilhada. Mandou tossir, eu fiz. Quando terminou, ela fez um sinal com a cabeça. — Pode ir. Respirei aliviada. Me vesti. Peguei minhas coisas de volta. E segui. Passei por mais um portão. Mais uma grade. Mais um barulho alto. Até que finalmente cheguei na área de espera da visita. Parei ali, Segurando as sacolas. Respirando fundo. Tentando me preparar. Porque agora, Faltava pouco. Muito pouco. Pra eu ficar frente a frente com ele. Quando chamaram o nome dele, meu coração simplesmente disparou. Eu nem percebi o momento exato em que ele apareceu. Só senti. Aquela presença. Pesada, Forte. Quando levantei o olhar, ele tava vindo na minha direção. O mesmo. O mesmo homem daquela noite. O mesmo olhar frio que me fez tremer por dentro. Meu corpo travou por um segundo. Porque a lembrança veio na hora. Como um soco. Aquela madrugada, O jeito que tudo aconteceu. O jeito que ele me olhou. E agora, ele tava ali de novo. Só que mais perto. Mais real, Mais assustador. Ele parou na minha frente. E ficou me encarando. Sem falar nada, Sem desviar. O olhar dele passou por mim inteira, da cabeça aos pés. Devagar. Como se estivesse me analisando. Me avaliando. Senti minha respiração falhar por um segundo. Mas me obriguei a ficar firme. Mesmo tremendo por dentro. — Vamos sentar — ele disse, com a voz baixa e firme. Assenti, sem discutir. A gente foi até uma mesa de cimento, Simples. Fria. Com dois banquinhos. Um de frente pro outro. Sentei de um lado, Ele do outro. Coloquei as sacolas em cima da mesa, tentando ocupar minhas mãos, tentando esconder o nervosismo. Respirei fundo. — Sua avó mandou pra você. — falei, tentando manter a voz firme. Ele continuava me encarando. Sem piscar direito. Aquilo me deixava ainda mais nervosa. — E nessa sacola tem as coisas que você vai precisar. Apontei de leve. Ele deu um sorriso de lado. Aquele sorriso. Que não tinha nada de leve, nada de gentil. Era um sorriso, perigoso. E continuava me olhando. Como se estivesse esperando alguma coisa. Engoli seco. E comecei a mexer nas sacolas. — Eu, trouxe comida também. Minha voz saiu um pouco mais baixa dessa vez. Comecei a tirar as vasilhas de dentro da sacola, uma por uma. Minhas mãos estavam levemente trêmulas. Tentei disfarçar. Coloquei a primeira vasilha, depois as outras. Tudo organizado em cima da mesa. Mas eu sentia. O olhar dele em mim o tempo todo, Pesado. Fixo. Como se estivesse me pressionando. Meu coração batia rápido. Mais rápido do que quando eu tava na fila. Mais rápido do que quando entrei. — Eu, fiz a sobremesa — falei, quase sem olhar pra ele. Peguei a vasilha do pavê e coloquei na mesa também. — A dona Lindalva e Amanda, fizeram as outras coisas. Silêncio. Um silêncio que me deixava desconfortável, levantei o olhar devagar. E ele ainda tava me encarando, Sem desviar. Sem dizer nada. Aquilo começou a me dar mais nervoso ainda. Passei a mão de leve na roupa, tentando me acalmar. — Tá tudo aí. — falei. Mas minha voz já não saía tão firme. Eu tô nervosa. Muito nervosa. Mais do que imaginei que ficaria. Na frente dele, eu percebi. Que nada daquilo era só uma visita. Era muito mais. E o jeito que ele me olhava, Só deixava isso ainda mais claro. Ele quer muito mais que isso.
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