Eloá Narrando
Subi pro meu quarto com o corpo cansado, mas a cabeça a mil.
Peguei minha toalha e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água esquentar bem, como se aquele calor pudesse levar embora pelo menos um pouco da ansiedade que tava me consumindo.
Entrei debaixo da água e fechei os olhos.
A água caindo no meu corpo, escorrendo pelo rosto, por alguns minutos eu tentei esquecer de tudo.
Do presídio, do Ceifador.
Do amanhã.
Mas não dava.
Minha mente não parava.
Respirei fundo várias vezes, tentando me acalmar.
— Vai dar tudo certo. — sussurrei pra mim mesma, mesmo sem acreditar muito nisso.
Demorei no banho mais do que o normal.
Quando saí, me enrolei na toalha e fui pro quarto. Coloquei uma roupa leve, solta, só pra dormir, e me joguei na cama.
Olhei pro teto, aquele Silêncio.
Mas aquele silêncio não me trouxe paz.
Só fazia meus pensamentos ficarem mais altos.
Quando eu tava quase fechando os olhos, ouvi uma batida na porta.
— Eloá?
Era a Amanda.
— Entra. — falei, meio desanimada.
Ela abriu a porta e entrou devagar, com o celular na mão.
— O advogado mandou mensagem pra minha vó.
Senti meu estômago gelar na hora. Sentei na cama, já nervosa.
— O que ele quer agora?
Ela veio até mim e sentou na ponta da cama.
— Ele mandou um áudio.
Respirei fundo.
— Coloca aí.
Ela deu play.
A voz do advogado preencheu o quarto, séria, direta.
— Amanhã eu passo aí às cinco horas da manhã pra buscar a Eloá. Já deixa tudo preparado.
Meu coração já começou a acelerar.
— E presta atenção na roupa. Não é qualquer roupa que entra no presídio, não.
Engoli seco.
— Nada de roupa curta, nada de decote, nada justo demais. Tem que ser roupa simples.
Amanda me olhou de lado, já entendendo tudo.
O áudio continuou:
— Não pode usar brinco, piercing, nada de metal, nada pontiagudo. Vai o mais simples possível pra não ter problema na entrada.
O áudio acabou.
E o silêncio ficou pesado no quarto.
— Caraca. — soltei baixo, passando a mão no rosto.
Amanda respirou fundo.
— Melhor a gente já separar tua roupa agora.
Assenti.
— Bora.
Levantei da cama meio devagar e fui até o guarda-roupa. Comecei a olhar as roupas, mas parecia que nenhuma servia.
— Isso aqui não dá.— falei, puxando uma blusa. — Muito decotada.
— Essa também não — Amanda apontou. — Muito justa.
Bufei.
— Parece até que eu vou entrar num quartel.
Ela deu uma risadinha de leve.
— Pior que é quase isso.
Depois de um tempo, conseguimos separar.
Uma calça legging. E Uma blusa simples, dela mesmo, e da mesma cor da Calça.
Nada chamativo.
Nada que pudesse dar problema.
Coloquei em cima da cadeira, já pronto pra amanhã.
Depois fui tirando tudo que não podia usar.
Brinco, até o piercing da minha orelha, eu tirei. Olhei pra mim mesma e senti um aperto no peito.
Isso tudo só deixava mais real.
— Tá pronta. — falei, mais pra mim mesma do que pra ela.
Amanda levantou.
— Vai dar tudo certo.
Olhei pra ela, meio sem acreditar.
— Tomara.
Ela veio até mim e me deu um abraço rápido.
— Boa noite, Eloá.
— Boa noite.
Ela saiu do quarto, fechando a porta devagar.
E eu fiquei ali, Sozinha.
Olhei pra roupa separada.
Depois pra cama.
Me deitei, puxando o lençol até o queixo.
Fechei os olhos. Mas dormir?
Nada, Meu corpo tava cansado. Pesado.
Mas minha mente não desligava.
Eu virava de um lado pro outro. Suspirava.
Tentava relaxar, Nada adiantava. O medo tava ali.
Preso no meu peito.
O máximo que eu consegui foi cochilar. Aqueles cochilos leves, que qualquer barulho acorda.
E no fundo eu sei. Quando o despertador tocasse. Não tinha mais volta.
Acordei antes mesmo do despertador tocar.
Quando olhei no celular, ainda eram 4:15 da manhã.
Meu corpo tava pesado, como se eu nem tivesse dormido direito, e na real, nem dormi mesmo. Só dei uns cochilos picados.
Respirei fundo e levantei.
— Hoje. — murmurei pra mim mesma.
Fui direto pro banheiro, ainda meio grogue. Lavei o rosto com água fria pra tentar espantar o sono e o nervosismo que já tava vindo junto.
Fiquei alguns segundos olhando meu reflexo no espelho.
Eu tava com cara de cansada.
Mas não tinha escolha.
Entrei no banho logo depois. A água caiu morna, e eu deixei escorrer pelo corpo, tentando acalmar aquela sensação r**m no peito.
Molhei o cabelo todo, sem pressa.
Sabia que ia passar o dia inteiro fora, então precisava deixar ele do jeito certo.
Quando saí, me enrolei na toalha e fui pro quarto.
Sentei na beira da cama com o pente na mão e comecei a arrumar o cabelo.
Passei creme com calma, mecha por mecha.
Caprichando mesmo.
— Tem que ficar baixo, definido. — falei baixinho, concentrada.
Fui ajeitando com cuidado, espalhando bem o creme, modelando cada parte.
Demorou, mas no final ficou do jeito que eu queria.
Solto. Arrumado.
Sem volume demais.
Respirei fundo e levantei.
Fui me vestir.
Coloquei a roupa que eu e a Amanda tínhamos separado na noite anterior. Tudo simples, sem chamar atenção.
Passei desodorante.
Peguei um perfume, mas só dei um toque leve.
— Nada forte. — lembrei do que o advogado falou.
Depois passei creme nos braços, deixando a pele hidratada.
Peguei um casaco e vesti por cima, mesmo sem estar frio.
Era mais pra me sentir protegida.
Calcei um chinelo limpo, que eu já tinha separado. Olhei mais uma vez no espelho.
Simples, discreta.
Do jeito que tinha que ser.
Respirei fundo.
— Vamos lá, Eloá. Você consegue.
Desci as escadas devagar.
A casa ainda tava em silêncio, mas a dona Lindalva já tava acordada.
Assim que me viu, abriu um sorriso pequeno.
— Já tá pronta, minha filha?
Assenti.
— Tô…
Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
Ela veio até mim com uma sacola na mão.
— Toma, isso aqui é pra levar pra ele.
Peguei a sacola e olhei dentro.
Tinha produtos de higiene.
Toalha limpa, dobradinha, com um cheirinho bom. E algumas cuecas novas.
— Eu comprei pra ele — ela disse.
Meu coração apertou de leve.
Assenti.
— Tá bom.
A gente pegou também as duas sacolas grandes que estavam em cima da mesa.
As comidas que a gente preparou ontem a noite.
Aquilo tudo parecia pesado.
Não só pelo peso de verdade. Mas pelo significado.
Pouco tempo depois, o carro chegou. O advogado não demorou.
Desceu rápido, sério como sempre.
— Bom dia.
— Bom dia. — respondi, meio sem graça.
A dona Lindalva me ajudou a levar tudo até o carro.
Colocamos as sacolas no porta-malas com cuidado.
Quando tava tudo pronto, eu me virei pra entrar.
Mas antes, ela me segurou pelo braço.
Me puxou pra um abraço.
Um abraço apertado.
Acolhedor.
Fechei os olhos por um segundo.
— Vai dar tudo certo — ela disse baixinho no meu ouvido.
Engoli seco.
— Amém.
Ela se afastou um pouco, segurando meu rosto com carinho.
— E diz a ele.
Fez uma pausa.
— Que a vovó mandou um beijo, e um abraço bem forte.
Senti meus olhos arderem.
— E fala que logo, logo ele vai tá de volta.
Assenti com a cabeça, sem confiar na minha voz.
— Tá bom.
Ela passou a mão no meu cabelo, ajeitando uma mecha.
— Vai com Deus, minha filha.
Respirei fundo.
— Amém.
Abri a porta do carro e entrei.
O advogado já tava no volante.
Assim que fechei a porta, senti meu coração acelerar.
Olhei pela janela.
A dona Lindalva ainda tava ali, parada, me olhando. Levantei a mão de leve. Ela fez o mesmo.
O carro começou a andar.
E enquanto a casa ficava pra trás, eu senti.
Dessa vez é real.