07 - Eloá

1267 Words
Eloá Narrando Eu não sei que horas eram exatamente quando acordei. Só sei que o silêncio da madrugada foi rasgado por um estrondo tão alto que meu corpo inteiro pulou na cama. Demorei um segundo pra entender. Mas o segundo estrondo veio logo depois. E então os foguetes começaram. Um atrás do outro. Cortando o céu da madrugada com aquele assobio que todo morador de morro conhece bem demais. Meu coração disparou. — Não. Sentei na cama rápido, sentindo o peito apertar. — Não, não, não… Mais rojões estouraram lá fora. Eu já sabia o que aquilo significava, Invasão. Aquele tipo de fogos não era festa. Não era comemoração. Era aviso. Aviso de que a polícia, ou algum inimigo estava subindo o morro. Ou pior. Que o morro tava sendo invadido. Minha respiração começou a ficar curta. — Meu Deus. Passei a mão no rosto tentando acordar de verdade. Mas os barulhos só aumentavam. De repente vieram os primeiros tiros. Secos, Pesados. Ecoando entre as casas. Eu fechei os olhos com força. — Começou. Morar em morro é viver assim. Sempre esperando o próximo tiroteio. A próxima invasão. A próxima guerra. Eu levantei da cama devagar, minhas pernas tremendo. A luz do quarto ainda estava acesa, porque eu não tive coragem de apagar quando me deitei. Fui até a janela. Mas não tive coragem de abrir. Fiquei só olhando a parede.vEscutando. O barulho dos tiros parecia vir de todos os lados. Rajadas longas de fuzil. Explosões. Gente gritando lá fora. E então veio um som que fez meu estômago gelar. Helicóptero. O barulho da hélice começou distante. Mas foi ficando cada vez mais alto. Mais próximo, Mais pesado. Eu conheço aquele som também. — Helicóptero. Murmurei. Quando eles entram com helicóptero, a coisa fica muito pior. As rajadas começaram logo depois. Eu levei as mãos à boca, apavorada. — Meu Deus. As balas atravessavam o ar como se o céu estivesse rasgando. E eu só conseguia pensar em uma coisa. Uma bala perdida. Porque quando começa tiroteio assim, ninguém tá seguro. Nem quem não tem nada a ver com aquilo. Nem quem só quer viver a própria vida. Nem quem só quer estudar, trabalhar e seguir em frente. Eu encostei na parede, abraçando meu próprio corpo. — Eu odeio isso. Minha voz saiu fraca. Crescer em morro é aprender cedo demais que a paz é temporária. Que a qualquer momento pode virar guerra. E quando vira, é um inferno. Tiro vindo de todos os lados. Criança chorando. Mãe desesperada tentando proteger filho. Gente se escondendo no chão da casa. Rezar vira a única coisa que resta. Eu fechei os olhos, lembrando de tantas vezes que isso já aconteceu. Quando eu era criança. Quando eu tava indo pra escola. Quando eu tava voltando do mercado. Sempre a mesma coisa, não tem hora marcada, em segundos tudo por virar do avesso. Sempre o mesmo medo. E agora eu tô aqui, na casa de um traficante. No topo do morro. Enquanto uma guerra acontecia lá fora. Os tiros continuavam. Mais fortes. Mais próximos. — Será que vão invadir a casa? Eu murmurei sozinha. Meu coração batia tão rápido que parecia que ia sair pela boca. Se a polícia entrar aqui. Se tiver confronto na porta. Eu nem quero imaginar. Porque em guerra assim ninguém pergunta quem você é. Quem você conhece. Quem você ama, Só atiram. E pronto. Eu deslizei devagar pela parede até sentar no chão. Minhas mãos tremiam. — Eu só queria seguir minha vida, viver o luto em paz. Minha voz saiu embargada. Mais tiros ecoaram. O helicóptero ainda voava sobre o morro. E eu só conseguia pensar em outra coisa que sempre acontece nessas guerras. Quando um lado perde, Outro entra. E quando facção rival invade. O inferno pode ser ainda pior. Eu abracei minhas pernas, tentando controlar o choro. — Por favor… acaba logo… Porque viver em morro é assim. Você nunca sabe se aquela madrugada vai terminar em silêncio. Ou em tragédia. Depois de um tempo que eu já nem conseguia medir, o medo tomou conta do meu corpo de um jeito tão forte que eu simplesmente parei de me mexer. Voltei pra cama devagar, e me deitei. E fiquei ali. Imóvel. Sem coragem nem de respirar direito. Cada tiro que ecoava lá fora parecia atravessar as paredes da casa e bater direto no meu peito. Eu olhava pro teto, os olhos arregalados, enquanto o barulho da guerra continuava. Rajadas de fuzil. Explosões. O helicóptero passando tão baixo que parecia que ia pousar no telhado. Meu coração batia tão forte que chegava a doer. — Meu Deus. Sussurrei, com a voz tremendo. — Faz isso parar. Mas não parava Parecia interminável. Era tiro de um lado. Resposta do outro. Depois explosão. Depois mais tiros. A madrugada virou um pesadelo, e eu aqui, sozinha em um quarto que nem é meu, na casa de um homem que eu mäl conheço. Eu só conseguia pensar que uma bala perdida podia atravessar a parede a qualquer momento. Ou que alguém podia arrombar aquela porta. Então eu fiz a única coisa que meu corpo permitiu. Fiquei quieta, deitada. Sem me mexer, Sem falar. Sem chorar, Só esperando. Esperando aquilo acabar. O tempo passou devagar demais. Minutos que pareciam horas. Até que, pouco a pouco, os barulhos começaram a diminuir. Primeiro os tiros ficaram mais espaçados. Depois as explosões pararam. O helicóptero se afastou. E a troca de tiros virou apenas disparos isolados aqui e ali. Meu coração ainda batia acelerado, mas eu percebi que o silêncio estava voltando. Devagar, Cauteloso. Como se até o morro estivesse com medo de respirar. Então, finalmente. Tudo ficou quieto. Um silêncio estranho.Pesado. Só dava pra ouvir algumas motos passando ao longe. E vozes distantes. Gritos espalhados pela comunidade. Mas o tiroteio tinha acabado. Eu respirei fundo pela primeira vez em muito tempo. Meu corpo ainda tremia. — Acabou. Murmurei baixinho. Passei a mão no rosto, tentando me acalmar. Foi quando… TOC. TOC. TOC. Eu me assustei tanto que quase caí da cama. Meu coração disparou de novo. Olhei pra porta. Alguém estava batendo. Fiquei alguns segundos parada, sem saber o que fazer. — Eloá! — uma voz masculina chamou do outro lado. Eu reconheci. Era o mesmo homem que tinha me trazido pra essa casa. Respirei fundo e levantei da cama. Minhas pernas ainda estavam fracas. Caminhei até a porta devagar. Minha mão hesitou antes de girar a maçaneta. Mas eu abri. Ele estava parado no corredor. O rosto sério, Os olhos pesados. — O que aconteceu? — perguntei quase num sussurro. Ele me olhou por um segundo antes de responder. — Ceifador caiu. Meu coração parou por um instante. — Caiu? Ele assentiu com a cabeça. — A polícia levou ele. Eu não soube o que dizer. Nem sabia exatamente o que sentir. O homem continuou falando, direto, sem emoção nenhuma na voz. — Tu vai ficar pianinha aqui. Engoli seco. — Como assim? Ele cruzou os braços. — Sem sair. Sem fazer mërda. Depois completou: — Até segunda ordem. Eu senti um frio correr pela minha espinha. — E… e o que vai acontecer agora? Ele deu de ombros. — Isso não é problema teu. O silêncio caiu entre nós. Ele deu um passo pra trás. — Fica no quarto. Depois virou no corredor e foi embora, deixando só o barulho dos passos dele se afastando. Eu fechei a porta devagar. Encostei nela. Meu coração ainda batia acelerado. — Ceifador foi preso. Sussurrei. E pela primeira vez desde que entrei nessa casa, Eu percebi que tudo podia ficar ainda pior.
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