06 - Ceifador

1310 Words
Ceifador Narrando Eu não devia ter dormido nem duas horas. Meu corpo ainda tava pesado quando o primeiro estrondo rasgou o silêncio da madrugada. Meus olhos abriram na hora. Nem precisei pensar muito pra saber o que era. Logo depois veio o segundo. E o terceiro. Os foguetes cortando o céu do morro. O barulho dos rojões estourando alto, um atrás do outro, anunciando pra comunidade inteira o que tava acontecendo. Invasão. — Pörra. Sentei na cama num pulo. O rádio que tava na cômoda começou a chiar na mesma hora. — Chefe! Chefe! Os cü azul tão subindo. Peguei o rádio com uma mão enquanto levantava. — Por onde? A voz do vapor saiu apressada do outro lado. — Pela rua três! Tem caveirão vindo. Outro estalo de rojão ecoou lá fora. Isso era sinal pros olheiros espalhados pelo morro inteiro. A mensagem tava clara: Polícia subindo pesado. Eu já tava andando pelo quarto enquanto respondia. — Segura a boca da rua. Não deixa esses filho da püta entrar fácil. Joguei o rádio na cama por um segundo e comecei a me vestir correndo. Primeiro o colete. Pesado. Frio contra o peito. Depois puxei uma jaqueta escura por cima pra disfarçar o volume. Abri o armário e puxei meu fuzil. Passei a mão pelo metal como quem cumprimenta um velho parceiro de guerra. Com reverência. Engatilhei. Depois enfiei a pistola na cintura. Peguei mais dois carregadores e joguei no bolso da jaqueta. O rádio voltou a chiar. — Chefe! Helicóptero no céu. Eu rosnei baixo. — Eu já tô descendo. Abri a porta do quarto e saí pro corredor. A casa tava acordando. Os b***s já estavam armados lá embaixo. Desci a escada rápido. — Bora, pörra! — falei. — Os cü azul tão subindo. Um deles abriu o portão. Assim que pisei na rua, o caos já tava rolando. Rajadas de tiro ecoavam de vários lados do morro. O som pesado dos fuzis cortando o ar. Lá embaixo dava pra ver o clarão do caveirão subindo a rua principal, abrindo caminho na marra. E lá no alto. O helicóptero girava no céu, o holofote varrendo os becos. — Chefe! — um dos moleques gritou correndo na minha direção. — Eles tão vindo com tropa pesada. Eu levantei o fuzil e falei no rádio: — Todo mundo na posição! Não deixa esses filho da püta avançar, hein. Outra explosão ecoou no morro. O caveirão disparando. Os tiros começaram a comer mais forte. Um dos nossos abriu fogo do alto de uma laje. — Toma, seus arrombado. A rajada desceu cantando. Eu avancei pro meio da rua, me encostando atrás de um muro quebrado. Levantei o fuzil. Mirei. A primeira rajada saiu seca. Vi dois policiais se jogarem atrás de um carro virado. — Avança pela viela. — gritei no rádio. — Fecha eles pelo lado. Os moleques do morro começaram a se espalhar. Correndo entre os becos. Subindo escada. Pulando muro. A troca de tiros ficou insana. O helicóptero começou a disparar de cima. As balas rasgando telhado, parede, tudo. Um dos nossos caiu mais à frente. O corpo tombou duro no chão. Sangue espalhando pelo asfalto. Eu nem parei. Guerra é guerra. Levantei de novo e disparei outra rajada. Um policial que tava avançando pela escada levou o impacto no pescoço e caiu pra trás. — Segura essa pörra. — eu rosnei. O caveirão continuava subindo devagar, cuspindo tiro. Os moleques respondiam de todos os lados. Parecia que o morro inteiro tava explodindo. Granada estourando. Vidro quebrando. Gente gritando. — Chefe! Eles tão entrando pela rua de baixo. Peguei o rádio de novo. — Então fecha lá! Não deixa subir. Mais tiros. Mais gritos. Mais sangue. Um dos policiais tentou avançar correndo. Eu mirei. Respirei. E puxei o gatilho. A rajada acertou em cheio. O cara caiu rolando na escada. Meu coração batia rápido, mas minha cabeça tava fria. Calculando tudo. Posição. Movimento. Saída. A guerra tava só começando. E eu sabia que a madrugada ainda ia engolir muita gente. Porque quando os cü azul resolvem subir o morro. Eles vêm com tudo. Mas aqui no Dendê também tem regra. Quem entra atirando. Tem que estar pronto pra sair sangrando. A troca de tiros já tava comendo solta fazia um tempo. O morro inteiro parecia um campo de guerra. Fuzil cantando de um lado. Explosão do outro. Gente correndo pelos becos. Rádio chiando sem parar. Mas o que tava füdendo tudo mesmo era o helicóptero. Aquela pörra começou a voar baixo demais. O barulho da hélice rasgava o ar por cima das casas, levantando poeira, telha, papel, tudo voando. De repente veio a rajada. Balas descendo do céu como chuva. — Abaixaaaa! Os moleques se jogaram no chão, atrás de muro, carro velho, qualquer coisa. Mas não deu pra todo mundo. Vi dois dos meus caindo na hora. Um deles ainda tentou se levantar, mas já era. O sangue espalhou pelo beco. Eu apertei os dentes. — Filho da püta. O helicóptero virou de novo sobre o morro. Mais uma rajada. Mais gente correndo. Mais gente gritando. Aquilo tava virando um m******e. Fred apareceu correndo do meu lado, ofegante. — Chefe! Se essa pörra continuar assim, vai limpar o morro. Eu olhei pro céu. A aeronave tava passando de novo, mais baixa ainda. Arrogante. Achando que dominava tudo. — Então vamos derrubar essa mërda. Fred me olhou rápido. — Sério? Eu já tava levantando o fuzil. — Sério pra Carälho. Nos dois se posicionamos atrás de uma parede quebrada. Quando o helicóptero fez a curva de novo, passando devagar sobre as casas, eu levantei o fuzil. — Agora! Nós dois abrimos fogo. As rajadas subiram rasgando o ar. O helicóptero tentou subir. Mas Fred acertou primeiro. Eu vi o impacto. Depois meti mais bala. A aeronave começou a perder estabilidade. — Acertou! — Fred gritou. O helicóptero balançou no ar, fazendo um barulho estranho. Tentou ganhar altura. Não conseguiu. De repente veio a queda. O impacto lá no final do morro fez um estrondo absurdo. Chama subiu no céu. Por um segundo os tiros até diminuíram. Mas foi só um segundo. Porque quando olhei ao redor, Meu estômago gelou. Tinha bota pra todo lado. Polícia descendo pelas escadas. Entrando pelos becos. Subindo pelas vielas. De todos os lados. — Que mërda é essa. Eu girei olhando em volta. — Carälho. Aquilo não era invasão comum. Era cerco. — Chefe! — alguém gritou no rádio. — Eles tão entrando por todos os acessos. Meu sangue ferveu na hora. — Não é possível. Eu cuspi no chão, irritado. — Alguém me entregou. Só pode ser. Isso não funcionava assim. Nunca. — Essa pörra não funciona assim não, Carälho. Mais tiros ecoaram. Mas quando percebi. Eu tava ficando sozinho. Os moleques tinham recuado. Alguns tinham caído. Outros tinham se espalhado. Eu dei mais alguns tiros tentando abrir caminho. Mas foi rápido demais. Quando virei a esquina. Eles já estavam lá. Três policiais. Fuzil apontado direto pra mim. — Perdeu! — um deles gritou. — Larga a arma. Eu ainda levantei o fuzil. — Vai se füder. Disparei. Um deles se jogou pro lado. Os outros dois avançaram. — LARGA! Um chute violento acertou meu joelho. Outro bateu nas minhas costas. Eu caí no chão com o impacto. Antes que eu conseguisse levantar, já tinha bota em cima de mim. Um pisou no meu braço. Outro esmagou minhas costas contra o asfalto. — Filho da püta — um deles rosnou. Um soco bateu na minha costela. Depois outro chute. Eu cuspi sangue no chão. — Tá preso, desgraçado! Senti minhas mãos sendo puxadas pra trás. O clique frio da algema fechando no meu pulso. Minha cabeça girava. Mas mesmo assim eu ri. Baixo, Rouco. Porque uma coisa é verdade. Eles tinham me derrubado. Mas não foi fácil. Eu caí, mais caí atirando.
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