05 - Ceifador

1372 Words
Ceifador Narrando Eu já tinha deixado a ordem bem clara desde o começo. Sem bagunça. Sem choradeira depois. Sem polícia batendo na pörra da minha porta. A dívida era noventa mil, e alguém ia pagar essa conta. O velho morreu, beleza, acontece. Aqui no morro a morte chega quando quer, ninguém controla isso. Mas dívida não morre junto com ninguém. Dívida fica. E alguém sempre paga. Quando a mulher veio com aquele papo torto de entregar a filha como pagamento, eu fiquei alguns segundos encarando o Fred. Achei até que ele tava de sacänagem comigo. Mas não. Ele tava falando sério. A mulher tinha falado aquilo mesmo. Eu fiquei batendo o dedo na mesa, pensando rápido. Noventa mil não é troco. Não dá pra simplesmente deixar passar, porque amanhã aparece mais cinco devendo e achando que o chefe aqui virou instituição de caridade. Mas também não sou burro. Eu deixei tudo alinhado antes. — Escuta aqui, Fred.— falei, olhando firme pra ele. — Eu vou aceitar a garota malcriada. Ele já abriu um meio sorriso, como se soubesse que a resposta ia ser essa. Mas eu continuei: — Só que eu não quero nenhum tipo de B.O. tá ligado? — Pode deixar, chefe. — Nada de polícia, nada de nëgo chorando depois dizendo que se arrependeu, nada de familiar vindo aqui fazer escândalo. Fred balançou a cabeça. — Já deixei tudo bem claro lá. Então pronto. Negócio fechado. Ou pelo menos eu achei que tava. Porque mäl passaram dois dias e já chegou história. Um dos vapores me passou o rádio. Eu escutei. — Fala logo, pörra. — Chefe, o teu pagamento. — O que tem ela? — Tentou meter o pé. Eu soltei um suspiro pesado e passei a mão no rosto. Ah, mano, já vi que isso vai dar B.O. É sempre assim. A pessoa entra no jogo achando que depois vai conseguir dar uma de esperta. Não comigo. Nunca comigo. Eu levantei da cadeira. E mandei trazer ela pra mim. Fiquei na varanda do quarto esperando, a luz apagada. Eu vi o exato momento em que chegaram. — Trouxeram ela? — Tá aqui embaixo. Então eu fui. Desci a escada devagar, já preparando a cabeça pra resolver aquilo rápido. A primeira coisa que eu queria ver era simples. Se aquela garota valia noventa mil. Quando cheguei no meio da escada e bati o olho nela. Eu até parei um segundo. — Püta que pariu. A garota é gostosinha mesmo. Morena. Cabelão escuro caindo pelas costas. Magrinha, mas com o corpo certinho. Rosto bonito. Ela tava segurando uma mochila contra o peito, como se aquilo fosse proteger ela de alguma coisa. Os olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Parecia um bicho acuado. Mas tinha outra coisa ali também, Coragem Ou teimosia. Quando cheguei no último degrau, fiz um sinal com a mão pros moleques saírem. — Já é, chefe. A porta fechou. Ficou só eu e ela. Eu dei alguns passos na direção dela e falei tranquilo: — Então minha nova aquisição queria meter o pé. Ela respondeu na lata. — Eu não sou objeto pra ser adquirida por ninguém. Na hora eu ri. Olha a situação da garota. Dentro da minha casa, no meu morro, querendo crescer. Passei a mão pelo queixo, analisando ela de cima a baixo. — Olha só, Respondona. Cheguei mais perto. — Tu vai subir agora pro quarto e vai ficar bem pianinha até eu resolver o que faço com tu, garota. Ela abriu a boca como se fosse retrucar. Mas eu já levantei o dedo. — E não tenta bancar a esperta pro meu lado. Meu tom ficou mais frio. — Não vem pagar de malandrona. Inclinei um pouco a cabeça e completei: — Porque se eu quiser, eu te mando pra Turquia e faço a grana que tua mãe deve num estalar de dedos. Na hora eu vi o medo bater. Ela começou a tremer. Pronto, Recado dado. Eu não tenho tempo nem paciência pra drama. Minha vida já é cheia de problema. Facção rival enchendo o saco, polícia querendo subir o morro, carga chegando, dinheiro rodando, morador pedindo ajuda. Eu não vou aceitar que uma garota apareça aqui querendo transformar minha vida num inferno. Porque a verdade é simples. Eu não pedi ela aqui. Ela foi passada como pagamento. Só isso. Então dei o último comando: — Sobe a escada. Primeira porta à direita. Ela ficou me olhando por um segundo. Depois virou e foi. Sem discutir. Sem falar nada. Quando ouvi a porta do quarto fechar lá em cima, fiquei parado na sala alguns segundos, pensando. A real? A garota vale os noventa mil fácil. Mas isso não muda a regra. Ela vai ficar na dela, Sem escândalo. Sem gracinha. Sem tentar crescer pra cima de mim. Porque aqui no Dendê tem uma coisa que todo mundo aprende cedo. Quem complica minha vida. Eu resolvo do meu jeito. E quase nunca é um jeito bonito. Depois que a garota subiu a escada, eu fiquei alguns segundos parado na sala olhando pro nada. A casa tinha voltado ao silêncio de sempre. Mas minha cabeça não. — E aí, chefe? — Fred perguntou, aparecendo de volta. Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar. — Essa mina vai dar trabalho. Ele deu uma risadinha curta. — A madrasta dela falou que ela era boazinha. Olhei pra ele de lado. — Falou, foi? Fred deu de ombros. — Disse que a menina era quieta, trabalhadora, dessas que não arruma confusão. Eu balancei a cabeça devagar. — Deve ter sido o desespero falando. Porque quando a água bate na bünda, irmão, o povo promete qualquer coisa. Vende até a própria sombra se precisar. Fred cruzou os braços. — Tu acha que ela vai tentar fugir de novo? Eu pensei um segundo. — Não sei. Depois completei: — Mas se tentar, ela vai aprender rápido que aqui não é lugar de gracinha. Ele assentiu. A conversa morreu ali. Eu olhei pros moleques que ainda estavam espalhados pela sala. — Já deu por hoje. Pode todo mundo meter o pé. Os caras começaram a sair. Só ficaram os b***s, os seguranças que fazem minha guarda. Esses não saem nunca. Ficam rodando a casa o tempo todo. Segurança nunca é demais quando tu é o cara que manda no morro. Eu fui até a varanda. O ar da noite tava mais fresco ali fora. A vista do morro sempre me ajudava a pensar. Tirei um beck do bolso, acendi e puxei devagar. A fumaça entrou queimando na garganta. Soltei devagar, olhando as luzes da comunidade lá embaixo. Minha cabeça tava cheia. — Pörra. Eu murmurei sozinho. Ultimamente parecia que eu só tava me metendo em mais mërda. Facção rival se mexendo. Polícia ameaçando toda hora. Carga chegando atrasada. E agora… Uma garota problemática dentro da minha casa. Eu dei outra tragada longa. — Só o que me faltava. Fiquei ali alguns minutos, em silêncio, deixando a fumaça acalmar a cabeça. Mas o cansaço começou a bater forte. Três dias sem dormir direito. Os moleques já tinham passado a visão mais cedo. — Chefe, vai ter operação. Quando os caras falam isso, já sabe. A polícia vem com tudo. Helicóptero. Blindado. Tropa subindo. E quando isso acontece, ninguém dorme. Todo mundo fica ligado. Arma na mão, Olho aberto. Qualquer vacilo pode virar caixão. Eu joguei o resto do beck no chão da varanda e pisei em cima. — p***a de operação. Murmurei irritado. — Só serve pra füder com nós. Virei e entrei na casa. Subi a escada devagar. O corredor estava silencioso. Passei pela porta do quarto onde a garota estava, mas nem parei. Não tava com cabeça pra lidar com aquilo agora. Fui direto pro meu quarto. Entrei. Tranquei a porta. Joguei a camiseta no chão e me joguei na cama sem nem pensar duas vezes. O colchão parecia uma nuvem depois de três dias rodando o morro sem parar. Meu corpo inteiro pesava. A última coisa que passou pela minha cabeça antes de apagar foi simples. Amanhã ia ser outro dia cheio de problema. E eu preciso de pelo menos algumas horas de sono antes que o inferno comece de novo. Depois disso… Apaguei.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD