21 - Fred

1358 Words
Fred Narrando Fiquei sabendo que a mina foi visitar o Ceifador. Na moral? Carälho, tiro meu chapéu. De verdade mesmo. Porque não é qualquer uma que entra naquele inferno lá não. Ainda mais do jeito que ela tá, jogada nessa parada sem nem ter culpa de nada. Mas também, escolha ela não teve. Só que mesmo assim, né. Ela podia ter dado show. Podia ter chorado, gritado, se jogado no chão, pedido arrego. Mas não. Segurou o rojão. Foi quieta. Na dela. E isso aí, já diz muito. Fiquei pensativo com isso um tempo. Mas logo voltei pro que interessa. Trabalho. Porque tem uma parada pendente. E eu não gosto de deixar nada em aberto. A ordem do Ceifador foi clara. Sete dias. Praquela família sair da casa. E já tinha passado. E até agora? Nada. Nem sinal de mudança. Nem tentativa. Então já era. Hora de ir lá resolver essa treta do meu jeito. Chamei três vapor. — Vitinho, cola aqui. Ele apareceu na hora. — Fala, Fred. — Vai descer comigo. Ele já entendeu na hora. Chamamos mais dois pra fortalecer. Tudo armado, tudo pronto. Descemos pro endereço. O clima já foi ficando pesado conforme a gente chegava. Porque todo mundo sabe. Quando eu tô descendo, não é passeio. Parei na frente da casa. Olhei rápido ao redor. Tudo aparentemente normal. Mas eu já tava ligado. Desci da moto sem pressa. Fui até o portão. E já cheguei dando uma porrada forte. PÁ! — Abre essa pörra. Ouvi barulho lá dentro. Gente se mexendo. Uma voz gritou: — Quem é? — Abre esse Carälho, agora. — respondi na hora. Sem paciência. Um moleque veio abrir. Só abriu uma fresta. Nem deu tempo de pensar. Empurrei o portão com força e entrei de uma vez. — Sai da frente, pörra! Vitinho e os outros já entraram atrás de mim. Tudo na postura, Fuzil na mão. Pronto pra qualquer coisa. Olhei pra eles e já mandei o recado: — Qualquer graça, senta o dedo. Os caras assentiram na hora. Porque aqui não tem brincadeira. — Tenho carta branca do chefe pra resolver essa parada — falei alto, já deixando claro. Não demorou muito e a coroa apareceu. Cara amassada de sono. Cabelo bagunçado. Ainda tentando entender o que tava acontecendo. — O que tá acontecendo aqui? Olhei pra ela com calma. — Tá acontecendo, que tu tá querendo me tirar pra comédia. Ela franziu a testa. — Como assim? Dei um passo pra frente. — Eu mandei desocupar a casa. Apontei ao redor. — E pelo que eu tô vendo, não desocupou nada. Ela cruzou os braços, cheia de atitude. — Eu não vou sair daqui. Já senti o sangue ferver. — Ah não? Ela levantou o queixo. — Já mandei a minha filha como pagamento. Soltei uma risada. Mas não foi de humor não. Foi de deboche mesmo. — Aquela garota é filha do velho. Falei encarando ela. — E outra coisa. Dei mais um passo. — Independente se tu me desse teus filhos tudo pra eu comer o cü deles, agora. Ela arregalou os olhos, chocada. Mas eu continuei. — Mesmo assim tu ia ter que sair. Silêncio. Pesado. — Ordem é ordem. Ela tentou argumentar. — O Ceifador tá preso! Esse negócio é com ele. Balancei a cabeça, já sem paciência. — Ele tá preso. Aproximei mais. — Mas eu não tô. E o B.O quem resolve sou eu. Ela ficou quieta. Mas dava pra ver que não queria aceitar. — Então faz o seguinte — falei firme. — Arruma tuas coisas e desocupa a casa ainda hoje. Apontei pra porta. — Se eu voltar aqui e isso ainda tiver assim. Parei por um segundo, encarando fundo. — Tu vai sair de qualquer jeito. O silêncio tomou conta do lugar. — E vai ser com uma mão na frente e outra atrás. Virei as costas na hora. Nem esperei resposta. Já tinha falado tudo que precisava. Saí andando. Os moleques vieram atrás. Mas antes de sair, ouvi ela gritando. — Essa casa é minha! — Eu não tenho pra onde ir! Continuei andando. Sem olhar pra trás, Sem parar. Porque na moral? Essa parte. Já não me interessa. Passei o dia inteiro na boca. Sem descanso. Desde cedo já tinha B.O pra resolver. Carga chegando, divisão de parada, nëgo querendo dar uma de malandro, outro pedindo arrego, aquela rotina que nunca muda. Fiquei de um lado pro outro, resolvendo tudo. — Confere isso aí direito. — Não quero erro nessa contabilidade. — E tu, fica esperto nessa rua ali que tá muito quieta. Tudo na pressão. Porque agora quem tá na frente sou eu. E qualquer vacilo respinga direto no meu nome. E no do Ceifador também. Então não dá pra brincar. O dia foi passando nessa correria. Sol quente na cabeça, rádio apitando, gente me chamando toda hora. Mas eu gosto disso. É onde eu sei me virar. É onde eu mando. Já tava quase anoitecendo quando um dos vapores colou em mim. — Fred! Olhei pra ele. — Fala. Ele chegou mais perto, meio ofegante. — A mulher lá, a madrasta da garota. Já saquei na hora. — O que tem? — Desocupou a casa. Fiquei olhando ele. — Desocupou mesmo? Ele assentiu. — Sim. Já meteu o pé. Cruzei os braços. — E foi pra onde? — Alugou uma das casas do Bigode. Assenti devagar. — Hum. Pelo menos não foi burra de bater de frente até o final. — Demorou, mas fez o certo — falei. O moleque concordou com a cabeça e saiu. Continuei ali mais um tempo, finalizando umas paradas. Só saí quando já tava tudo sob controle. Fim de plantão. Subi na moto e fui lá conferir pessoalmente. Porque eu não confio só em palavra não. Cheguei na casa, Parei na frente. Desci. Portão aberto, entrei. Silêncio. Olhei ao redor, tudo vazio. Sem móvel, Sem ninguém. Só o eco do lugar. — Agora sim. — murmurei. Passei a mão no queixo. Missão cumprida. Agora é só esperar a ordem do Ceifador. Ver o que ele ia querer fazer com essa casa. Saí da casa, subi na moto e comecei a voltar. O céu já tava escuro, o morro com aquele movimento de sempre. Luz acesa aqui, som alto ali, gente na rua. Vida normal. Tava subindo a rua quando vi uma mão acenando. Já saquei de longe quem era. Iara. Revirei os olhos, mas parei a moto. Ela veio na direção rapidinho, toda cheia de atitude. — Fred! — Fala. Ela já chegou perguntando, sem nem dar tempo de respirar: — É verdade que a Eloá foi visitar o Ceifador? Balancei a cabeça de leve. — O morro todo já tá sabendo. Ela cruzou os braços. — Então é verdade? Olhei pra ela, sem muita paciência. — Foi. Ela arregalou um pouco os olhos. — Sério mesmo? Suspirei. — E isso não é da tua conta. Ela fez uma cara feia. — Nossa, precisa ser grosso? Dei um sorrisinho de canto. — Preciso. Ela ficou me encarando, meio irritada. Mas eu já tava sem saco pra aquilo. Na moral. A Iara é dessas que se acha demais. Se acha a última bolacha do pacote. Mas na minha visão? — É uma comédia. Falei baixo, mais pra mim mesmo. — O quê? — ela perguntou. Balancei a cabeça. — Nada não. Mas na minha mente já tava claro. Iara é aquele tipo de lanchinho da madrugada, que tu come quando bate a larica. Mais se acha prato principal. Só que não é, nunca foi. E nem vai ser. Não quando tem uma Eloá na jogada. Porque na moral. Se o Ceifador tiver que escolher, Só se ele tiver maluco. Muito maluco. Pra preferir uma igual a Iara, Do que aquela menina. Olhei pra ela mais uma vez. — Já falei o que tinha que falar. Dei partida na moto. — Fica na tua. E saí. Deixando ela ali, plantada no meio da rua. Porque eu tenho coisa mais importante pra me preocupar. E no final das contas.O jogo já começou a mudar. E tem gente que nem percebeu ainda.
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