22 - Eloá

1301 Words
Eloá Narrando Eu confesso, eu fiquei morrendo de medo dele. Desde o primeiro segundo. A voz dele é rouca, pesada, daquelas que parece que entra na sua cabeça e fica ecoando. A presença então? Nem se fala. Forte, dominante. E aquele olhar frio. Meu Deus… É o tipo de pessoa que eu sempre evitei na vida, Sempre. Mesmo morando minha vida inteira no Dendê, eu nunca fui de me misturar. Nunca subi lá pra parte de cima do morro. Nunca fui em baile, em pagode, em nada disso. Sempre fui mais na minha. Quieta. Preferindo a paz do meu quarto, meus livros, meus artigos. Era ali que eu me sentia segura. Então estar ali. Sentada de frente pro Ceifador, no pátio de um presídio. Foi simplesmente a coisa mais aleatória da minha vida. Surreal. Se alguém me contasse isso antes, eu ia rir. Porque, não fazia parte de nenhum dos meus planos. Nunca, eu tinha sonhos. Vários. Planos também. Mas nenhum deles envolvia isso, nenhum deles envolvia ele. Quando a gente falou da Filipa, eu não senti raiva, eu senti ódio. Mas não era qualquer ódio não. Era pesado. Daqueles que queima por dentro, que sobe pelo peito e trava a garganta. E eu falei. Falei tudo que tava entalado. Sem pensar muito. Só saiu. E quando ele respondeu. Quando ele disse que eu sou dele. Meu coração simplesmente disparou. Parecia que tava batendo dentro da minha cabeça. Meu corpo gelou na hora. — Meu Deus. — murmurei baixinho, sem nem perceber. O medo foi tanto, que meus joelhos batiam um no outro. Eu tava tremendo. Tremendo de verdade. Nunca senti aquilo, nunca. Eu só pensava uma coisa: Eu queria sumir dali. Queria desaparecer. Mas eu fiquei. Porque eu não tinha escolha. Ele ainda mandou uns recados. Pro Fred, e pra vó dele. Eu prestei atenção em tudo. Decorei cada palavra. Porque eu sei que não posso errar. Não com ele. O tempo passou rápido e devagar ao mesmo tempo. Estranho. Quando anunciaram o horário de saída. Eu senti um alívio tão grande que parecia que eu ia chorar. Mas eu me segurei, não demonstrei. De jeito nenhum. Só juntei as coisas, respirei fundo e falei: — Tchau. Ele respondeu, simples. Sem emoção, Mas respondeu. Eu me levantei, e comecei a andar. Sem olhar pra trás. Nem tive coragem. Mas mesmo assim… Eu senti. Senti os olhos dele grudados em mim. Como se ele ainda estivesse me observando. Aquilo me deu um arrepio. Mas continuei andando. Seguindo o fluxo das outras mulheres. A gente foi sendo direcionada por um agente até a saída do pátio. — Vamos andando, sem parar! — ele falou. Segui, em silêncio. Ainda meio em choque. A primeira etapa foi passar por um corredor longo, Cheio de grades. Uma atrás da outra. Cada portão que abria fazia um barulho alto de ferro. E depois fechava atrás da gente. Aquilo ia me dando uma sensação estranha. Como se eu estivesse presa também. Mesmo sabendo que não. Quando chegamos na área de revista de saída, mandaram a gente formar fila de novo. — Documentos na mão! Eu já tava com o meu RG apertado entre os dedos, como se aquilo fosse minha garantia de que eu ia sair dali. Segurei firme, com medo até de deixar cair. Fiquei esperando minha vez, o coração ainda acelerado, a cabeça cheia. Uma agente chamou: — Próxima! Dei um passo à frente e entrei numa salinha. Ela me olhou de cima a baixo, com aquele olhar sério, sem expressão. — Levanta os braços. Levantei na hora. Ela fez a revista padrão, passando as mãos pelo meu corpo, conferindo tudo com cuidado. — Vira. Virei, obedecendo. — Abaixa um pouco a roupa. Fiz o que ela mandou. Meu rosto queimou de vergonha na hora. Eu só queria que aquilo acabasse logo. — Pode se vestir. Me arrumei rápido, ajeitando a roupa do jeito que dava. Saí da sala respirando fundo, tentando me recompor. Depois disso, seguimos pra outra checagem. Uma mesa onde conferiam os nomes. Entreguei meu documento. — Nome? — Eloá. A mulher olhou pro RG, depois pra lista, conferindo com calma. Parecia que demorava mais do que realmente era. Até que ela assentiu. — Pode seguir. Respirei aliviada, pegando meu documento de volta. Passei por mais um portão. Depois outro. Cada grade abrindo e fechando atrás de mim com aquele barulho alto que ainda ecoava na minha cabeça. Até que finalmente cheguei na parte externa. Ali já dava pra ver a luz do dia de outro jeito. O ar parecia mais leve. Mais limpo. Mesmo sendo o mesmo lugar. Procurei com os olhos, meio perdida ainda. E vi o advogado, encostado perto do carro. Assim que ele me viu, se ajeitou e veio na minha direção. — Deu tudo certo? Assenti na hora. — Deu sim. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Vamos? Balancei a cabeça que sim. Entrei no carro, e assim que a porta fechou. Eu senti. O peso daquele lugar ficando pra trás. Mas não completamente. Porque no fundo. Eu sabia. Aquilo ali. Era só o começo, do que foi aquela promessa dele. A volta foi estranha. Eu fiquei o caminho inteiro em silêncio, olhando pela janela do carro, vendo tudo passar meio borrado. As ruas, os carros, as pessoas, parecia que eu tava ali, mas ao mesmo tempo não tava. Minha cabeça não parava. Era tudo muito recente. A voz dele. O jeito que ele me olhava. O que ele disse. Respirei fundo e virei o rosto, tentando focar em qualquer outra coisa. O advogado até puxou assunto no começo: — Foi tranquila a visita? Assenti de leve. — Foi sim. Mas minha voz saiu distante. Ele percebeu e não insistiu. E eu agradeci por isso. Porque eu realmente não tinha cabeça pra conversar. Quando o carro começou a subir o morro, meu coração apertou de um jeito diferente. Era como se eu tivesse voltando pra um lugar conhecido, mas não do mesmo jeito. Nada tava igual dentro de mim. Assim que o carro parou na frente de casa, eu desci. — Obrigada. — falei pro advogado. — Qualquer coisa, é só me chamar. Assenti e entrei. Mäl passei da porta e já vi dona Lindalva vindo na minha direção, apressada, com o olhar cheio de preocupação. — Eloá! Minha filha, como foi? Você tá bem? Ela segurou meu rosto com as duas mãos, me olhando de perto. Assenti na hora. — Tô bem, Dona Lindalva. Ela respirou aliviada, mas logo puxou uma cadeira. — Senta aqui e me conta tudo. Amanda também apareceu, curiosa, já se jogando perto da gente. Sentei devagar, ainda meio cansada. — Eu entreguei tudo certinho, a comida, as coisas. Elas ficaram me olhando, esperando mais. — Ele mandou um recado pro Fred. — O que ele disse? — dona Lindalva perguntou na hora. Respirei fundo, lembrando direitinho. — Ele falou pra resolver a situação da casa, disse que se não respeitar o prazo e era pra tomar providência. Ela assentiu, séria. — Certo, mais alguma coisa? — Mandou um recado pra senhora também. Ela ficou ainda mais atenta. — Mandou um beijo, e que é pra senhora ficar tranquila. Que logo ele vai voltar. Os olhos dela encheram de água na hora, mas ela sorriu. — Meu neto. Fiquei quieta. — Pode deixar que eu passo tudo direitinho pro Fred — ela disse firme. Assenti, mas parei por ali. Não falei mais nada. Não falei das partes que foram só comigo. Não falei do jeito que ele me olhou. Nem do que ele disse. Aquilo, eu nem saberia explicar. Nem tenho jeito pra falar uma coisa dessas. Fiquei em silêncio, mexendo nas mãos. E elas entenderam. Ou pelo menos respeitaram. Porque não perguntaram mais, e foi melhor assim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD