Ceifador Narrando
Assim que acabou a visita, já bateu aquele clima pesado de novo.
Porque é assim, tu esquece onde tá por algumas horas.
Mas na hora de voltar?
A realidade vem igual soco.
Os agentes começaram a organizar geral.
— Levanta! Vamos, vamos.
Levantei na moral, sem pressa, já acostumado com o ritmo. A gente vai saindo do pátio em fila, um atrás do outro.
Cabeça baixa, sem gracinha.
Porque qualquer movimento errado aqui dentro vira problema.
Passamos pelos corredores.
Grade abrindo, grade fechando.
Aquele barulho que não sai da mente.
Revista rápida na volta também. Braço pra cima, giro, confere, padrão.
Depois disso, cada um vai sendo direcionado pro seu raio.
Quando cheguei no meu, o agente abriu a cela.
— Entra.
Entrei.
Mais uma grade batendo atrás de mim, e pronto.
De volta ao inferno.
A cela tava daquele jeito de sempre. Quente, abafada, cheiro pesado.
Olhei rápido ao redor.
Os cria tudo na atividade deles.
E o Morte já veio na minha direção.
— E aí?
Ele me olhou com aquele sorrisinho de canto.
— Foi a tua mulher mesmo que veio?
Passei a mão no rosto, ele não sabe que ela não é minha mulher, não é nada minha. Mais vai ser.
— Foi.
Ele arregalou um pouco o olho.
— Sério?
Dei um meio sorriso.
— Foi ela.
Ele deu uma risadinha.
— Carälho, visão, hein.
Nem respondi.
Fui direto pra minha cama e sentei. Encostei na parede, olhando pro nada.
Mas minha mente tava longe.
Várias fitas passando ao mesmo tempo.
A imagem dela, o jeito que ela tremia. O olhar.
Balancei a cabeça de leve.
— Preciso arrumar um celular.
Falei baixo, mais pra mim mesmo. Mas o Morte ouviu.
Ele chegou mais perto na hora.
— Fala baixo, pörra.
Olhei pra ele.
— Aqui as grade é vazada, e tem ouvido.
Assenti, ele tava certo.
Aqui dentro, até parede escuta.
Inclinei um pouco o corpo na direção dele, falando quase sussurrando.
— Preciso de um aparelho. mas tem que pegar sinal.
Ele coçou o queixo, pensativo.
— Tem um agente aí que faz essa ponte.
Levantei o olhar.
— Quem?
Ele deu uma olhada ao redor antes de responder.
— Depois te mostro.
Só balancei a cabeça.
Sem pressa. Aqui tudo é no tempo certo.
Os dias foram passando.
Um igual ao outro, rotina chata, pesada.
E nada desse agente aparecer.
Já tava ficando püto.
— Esse cüzao tá achando que eu tô de brincadeira. — murmurei.
Mas fiquei na minha.
Porque aqui dentro, ansiedade só atrapalha.
Até que um dia…
O Morte fez um sinal discreto.
Um gesto com a mão, como se fosse um celular.
Na hora eu entendi.
Levantei devagar, como quem não quer nada. Fui até a grade.
E lá estava o agente.
Encostado, olhando disfarçado.
Cheguei mais perto.
— E aí.
Ele falou baixo.
— Vai custar caro.
Soltei um sorrisinho de lado.
— Sempre custa.
Encostei mais na grade.
— Faz o seguinte, pega o malote com o Fred. Meu Sub. No dendê.
Ele levantou a sobrancelha.
— Nome?
— Fred.
Ele assentiu.
— Vou ver isso.
— Vê não, faz.
Falei firme.
Ele deu um meio sorriso e saiu. Voltei pra cama.
O Morte me olhou.
— Deu certo?
— Vai dar.
Os dias passaram mais um pouco. Até que o agente voltou.
Dessa vez direto.
Chamou o Morte de canto.
Eu só observando. Ele entregou alguma coisa na mão dele.
E falou baixo:
— Passa a fita pro Ceifador.
O Morte veio até mim.
Me entregou.
— Teu.
Peguei.
— Valeu.
— Depois tu me fortalece.
Dei um sorrisinho.
— Lógico.
Agora sim, agora o jogo começa a andar do jeito certo.
Nada de ficar dependendo de gravata.
Nada de esperar visita.
Muito menos. Esperar a Eloá uma vez por semana pra mandar recado.
Agora vai ser diferente, eu vou ter controle. Ninguém me segura.
Os dias aqui dentro são tudo iguais, não tem muita novidade, é sempre a mesma rotina cansativa que parece não ter fim. Naquele dia liberaram a gente de novo pra atividade externa, aquela parada que eles fazem pra ocupar a mente e fingir que tão ajudando em alguma coisa. Eu levantei sem pressa, já acostumado, e fui junto com os outros, em fila, do jeito que eles mandam, sem olhar muito pros lados porque aqui qualquer vacilo vira problema.
Descemos pro pátio, o sol já tava forte batendo na cara, aquele calor que incomoda, mas pelo menos era melhor do que ficar trancado dentro da cela. Fiquei ali um tempo, observando tudo, trocando umas palavras com os cria, mas minha cabeça não parava um segundo. Eu só pensava nas coisas lá de fora, no que tava acontecendo, no que ainda precisava resolver e no tempo que eu ainda ia ficar preso nessa pörra.
Depois de um tempo chamaram a gente pra outra atividade, dessa vez era a tal da biblioteca. Só de ouvir já me deu uma preguiça absurda. Eu nunca gostei de ler, nunca tive paciência pra isso, sempre achei perda de tempo, mas também sei que aqui dentro a gente não escolhe muito. Então fui, meio sem vontade, junto com o resto.
Quando entrei naquele lugar, já senti aquele cheiro de livro velho, silêncio estranho, um monte de prateleira cheia. Fui andando devagar, olhando sem interesse nenhum, até pegar um livro qualquer só pra não ficar de bobeira. Nem vi direito o nome, só sentei e abri, tentando fazer cara de quem tava entendendo alguma coisa.
Mas na real? Eu não tava entendendo pörra nenhuma.
Era um monte de palavra difícil, frase grande, coisa enrolada que não entrava na minha cabeça de jeito nenhum. Eu passava a página, fingia que tava lendo, dava uma olhada em volta de vez em quando pra ver se alguém tava reparando, mas cada um tava na sua. Uns realmente interessados, outros igual eu, só matando tempo.
Fiquei ali um tempão nesse teatro, com o livro aberto na mão, fingindo concentração enquanto minha mente tava longe dali. Pensando no Fred, nas coisas que tão rolando lá fora, na Eloá… principalmente nela. Balancei a cabeça algumas vezes, tentando focar, mas não adiantava muito. As palavras só passavam pelo meu olho e iam embora, sem deixar nada.
Mesmo assim, continuei ali. Porque no fundo eu sei que uma hora ou outra isso pode servir pra alguma coisa. Nem que seja pra eu não ficar perdido em alguma situação, ou pra entender melhor alguma fita. Aqui dentro qualquer vantagem conta, por menor que seja.
O tempo foi passando arrastado até liberarem a gente. Na hora eu fechei o livro sem nem pensar duas vezes e levantei, já aliviado. Voltamos pro pátio e depois subimos pro raio, passando pelo mesmo procedimento de sempre, grade abrindo, grade fechando, aquele barulho que já faz parte da rotina.
De volta na cela, eu deitei e fiquei olhando pro teto, pensando em tudo. Porque eu sei que isso aqui não é pra sempre, não pra mim. Uma hora essas trancas vão abrir, e quando esse dia chegar, aí sim a história muda. Aí a Lili canta, pörra, e eu volto pro meu lugar, do jeito que sempre foi.