Fred Narrando
Mano, na moral, tá impossível. Eu tô cheio de trampo, é B.O em cima de treta, uma parada atrás da outra sem nem dar tempo de respirar direito.
O bagulho aqui no Dendê virou o puro suco do caos, meu irmão, e eu fico pensando sério mesmo como o Ceifador conseguia segurar essa pörra toda sozinho, porque não é possível, o cara é diferenciado demais.
Eu tô ficando é maluco com essa responsa toda nas minhas costas, porque é problema que não acaba mais, é n**o querendo crescer mais do que pode, é desacerto de dinheiro, é disputa por espaço, é gente querendo passar por cima de regra, e no final sobra tudo pra mim resolver.
Teve uma hora mais cedo que eu quase perdi a linha, sem caô. Eu cheguei numa rua lá e tava aquela confusão armada, um gritava de um lado, outro gritava do outro, quando fui ver direito era filho querendo mandar no pai, e o pai querendo matar o filho.
Eu fiquei olhando aquilo por uns segundos, desacreditado mesmo, pensando: não é possível que eu tô vendo essa cena não. mas tava lá, os dois quase se matando na minha frente. Aí já sabe, né? tive que intervir antes que desse mërda maior.
— Tá achando que isso aqui é o quê? — falei já chegando na pressão, olhando pros dois.
Na hora o clima mudou, os dois ficaram quietos, mas ainda com aquela cara de ódio um pro outro. O pai ainda tentou abrir a boca pra falar.
— Mas ele...
— Cala a boca — cortei seco, nem deixei terminar. Olhei pro filho na mesma hora — E tu também.
Ficou um silêncio pesado, daqueles que dá até pra ouvir a respiração dos outros em volta. A galera só assistindo, esperando ver o que eu ia fazer.
— Vocês vão resolver isso aqui agora ou querem que eu resolva pra vocês?
Nem precisei falar mais nada, os dois já abaixaram a bola na hora, porque sabem como funciona. Se eu resolvo, não tem conversa depois. Acabaram se acertando ali mesmo, meio que engolindo seco, mas pelo menos pararam com a palhaçada. Só que é sempre assim, a chapa esquenta e quem eles chamam? O comando. E quem tá segurando essa bomba? Eu. É pra surtar, papo reto. Já até falei brincando, mas nem é tão brincadeira assim não, um dia eu vou acordar de ovo inchado e vou meter bala nesses cüzao tudo, porque o nível do estresse tá absurdo.
No meio disso tudo ainda tem as paradas que o Ceifador deixou alinhadas pra resolver, e uma delas foi a casa que era da madrasta da Eloá. A vó dele mandou reformar e colocar pra alugar, e eu nem questionei nada, porque se a coroa mandou, já era, o Ceifador vai concordar.
Então já agilizei tudo, chamei os moleques da obra e falei, Quero essa casa de cara nova, nada de serviço porco não, faz direito essa pörra. Os caras trabalharam rápido, deram um jeito em tudo, pintura, ajuste, deixaram a casa apresentável de novo, e eu já mandei colocar pra alugar logo em seguida. Tudo certo, sem dor de cabeça nessa parte.
Mas o que tá pegando mesmo é outra parada, a que não sai da minha cabeça um segundo sequer. A investigação. Eu e o Vitinho tamo tocando isso só nós dois, porque essa fita não dá pra confiar em qualquer um não. O Ceifador quer saber quem foi o cagueta que entregou ele pros cana, e eu também quero descobrir, porque isso aí não é só vacilo não, isso aí é sentença de morte. Mais cedo a gente tava trocando ideia sobre isso, tentando ligar os pontos.
— Tá muito estranho isso, Fred — o Vitinho falou, sério.
— Eu sei — respondi andando de um lado pro outro, já bolado com isso.
— Não foi coisa de fora não — ele continuou.
Parei e olhei pra ele na hora.
— Também acho, isso veio de dentro.
Ficou aquele silêncio pesado entre a gente, porque nós dois sabemos o que isso significa. Traição interna é a pior coisa que tem.
— E quando eu descobrir quem foi — falei devagar, sentindo a raiva subir — vai comer capim pela raiz.
— Sem dó — o Vitinho respondeu na mesma hora.
— Sem pena nenhuma — confirmei.
E é isso. No meio desse caos todo eu tô aqui, segurando a bronca, resolvendo tudo na pressão, do jeito que dá, mas não vou mentir não, se continuar assim por muito tempo, uma hora alguém vai estourar. E quando isso acontecer, vai dar mërda. Das grandes.
Já era quase onze da noite quando me chamaram na barreira. Eu já tava no limite, cabeça pesada, corpo pedindo descanso, só pensando em chegar em casa e apagar pelo menos umas horinhas. Mas aqui não tem essa, né? Quando chama, tem que ir.
— Fred! Cola aqui rapidão.
Revirei os olhos, mas desci mesmo assim. Parei a moto ali perto e fui andando até o ponto. Tinha um cara lá, parado, meio deslocado no meio dos cria. Não era do morro, isso dava pra ver de longe. Roupa diferente, postura diferente, já fiquei ligado na hora.
— Qual foi? — perguntei, olhando pra ele.
Um dos moleques respondeu:
— Disse que quer falar contigo.
Olhei pro cara de novo, avaliando.
— Fala.
Ele nem enrolou muito. Tirou um papel dobrado do bolso e estendeu pra mim.
— Vim a mando do Ceifador.
Na hora meu olhar mudou.
Peguei o papel, abri ali mesmo e li rápido. Era o recado que eu já tava esperando, na real. O bagulho do celular. Então era isso, o cara era o contato lá de dentro.
Levantei o olhar pra ele.
— Tu é agente, né?
Ele só deu um meio sorriso de canto, sem confirmar nem negar.
Já entendi tudo.
— Certo, fica aí.
Virei e já chamei um dos moleques.
— Vai lá no Gominho, e pega um aparelho bom, com carregador. Chip de plano. Agora.
O cara saiu correndo.
Não demorou muito voltou com o celular na mão. Conferi rápido, tudo certo.
Entreguei pro sujeito.
— Aqui.
Ele pegou, guardou rápido, profissional.
— E o pagamento? — ele perguntou baixo.
Já puxei o dinheiro, contei na frente dele e entreguei.
— Tá aí.
Ele conferiu por alto e assentiu.
— Vai chegar lá.
— Eu sei que vai — respondi firme.
Ele não falou mais nada. Só virou e saiu, sumindo no escuro igual chegou.
Fiquei ali parado por uns segundos, pensando.
Agora sim.
Agora o jogo muda.
— Agora sim, meu mano — falei baixo — vai ter linha direta com o morro.
Sem depender de ninguém.
Sem esperar visita.
Sem ficar mandando recado por terceiros.
Do jeito certo.
Subi na moto e fui pra casa. O corpo já tava pedindo arrego, mente cansada, tudo que eu queria era deitar e dormir pelo menos uma hora, só pra dar uma resetada.
Entrei em casa, larguei tudo de qualquer jeito, tirei o tênis e me joguei na cama.
— Finalmente.
Fechei o olho.
Nem deu tempo de pegar no sono direito.
Batida forte na porta.
Na hora eu já levantei püto.
— Ah não, cüzao.
Passei a mão no rosto, respirando fundo, tentando manter a calma.
— Não é possível.
A batida continuou.
— FRED! Abre aí!
Já reconheci a voz.
Problema.
Óbvio.
Caminhei até a porta já irritado, abrindo com força.
— Fala logo, Carälho.
O moleque tava ofegante.
— Estourou uma treta lá embaixo.
Fechei o olho por um segundo. Balancei a cabeça, desacreditado.
— Aí não, cüzao.
Passei a mão na nuca, já sentindo o estresse voltando.
— Aí tu föde comigo.
Mas fazer o quê?
Aqui não tem descanso.
Peguei a chave, saí de casa e já subi na moto de novo.
Mais uma noite.
Mais um problema.
E eu? No meio de tudo.
Já tô quase indo em bangu, e pedindo pra trocar de lugar com o Ceifador.