25 - Eloá

1167 Words
Eloá Narrando Eu tava arrumando a casa, tentando ocupar a cabeça com qualquer coisa que não fosse pensar na minha vida completamente bagunçada. Passei pano, organizei a mesa, dobrei umas roupas, mexi nas coisas da cozinha, aquelas tarefas simples que ajudam a gente a não surtar. Amanda tinha ido pra faculdade e dona Lindalva tava lá atrás, cuidando das plantas, então a casa tava silenciosa, tranquila, exatamente do jeito que eu gosto. Eu sempre fui assim, mais na minha, gostando de paz, de silêncio, de ficar no meu canto, só que agora nem isso tava sendo suficiente pra acalmar minha mente. Eu tava terminando de ajeitar a pia quando ouvi alguém chamando no portão. No começo nem dei atenção, mas aí a voz veio de novo, mais firme, me chamando pelo nome. Na hora meu corpo já ficou em alerta, porque aqui dificilmente alguém chama assim sem motivo. Fui até a porta e quando vi um vapor parado ali. — Oi. — Tua mãe quer falar contigo. Na mesma hora eu senti um negócio ruïm subir pelo peito, era irritação mesmo, daquelas que vem com força. Eu nem pensei duas vezes antes de responder. — Eu não tenho mãe — falei seco — e não quero falar com ninguém. Ele ficou meio travado, sem reação, claramente sem saber o que fazer com a minha resposta. Mas eu sabia muito bem quem era. Filipa. E eu também já sabia o motivo dela estar ali. O Ceifador mandou tomar a casa, ela perdeu tudo e agora quer jogar a culpa em mim, como sempre fez a vida inteira. Sempre fui eu pagando pelas escolhas dela, pelos erros dela, pelas dívidas dela, e agora não era diferente. O vapor deu um passo pra trás, já entendendo que não ia rolar conversa, e começou a se virar pra ir embora. Foi quando eu chamei. — Ei! Ele virou de novo, me olhando. — Oi? Cruzei os braços e encarei ele. — Você não sabia que o seu chefe não quer que eu receba visita nem fale com ninguém? Ele franziu a testa, confuso. — Não, não me passaram isso não. Eu dei um sorrisinho de canto, meio irônico. — Pois é, ele me proibiu de falar com as pessoas quando fui visitá-lo. Dei de ombros, como se fosse a maior verdade do mundo, mesmo não sendo. — Então você já sabe, e passa pros outros, tá? Ele assentiu na hora. — Pode deixar. E saiu. Fechei a porta devagar e fiquei encostada ali por alguns segundos. E sem nem perceber, comecei a rir. Sozinha mesmo. Um riso meio sem graça, meio desacreditado, da mentira que acabei de contar. — Olha onde eu fui parar. — murmurei, balançando a cabeça. Voltei pra dentro e tentei continuar arrumando as coisas, mas minha cabeça já tava longe de novo. Não demorou muito e começaram os gritos lá fora. Alto, escandaloso, chamando atenção de todo mundo. Fechei os olhos na hora, porque eu reconheci. Filipa. Só podia ser ela. Reclamando, gritando, fazendo cena, como sempre fez. Respirei fundo e ignorei. — Não vai tirar minha paz — falei baixo, mais pra mim mesma. Continuei fazendo minhas coisas, tentando não me abalar. Porque já basta. Já basta a mërda que ela fez com a minha vida. Eu não vou deixar ela fazer mais nada, não vou dar esse gostinho. Se ela quiser gritar, que grite. Se quiser surtar, que surte. Mas eu vou continuar aqui, na minha, tentando juntar os pedaços do que sobrou de mim. Eu tinha acabado de sair do banho, cabelo ainda molhado, o corpo quente da água, tentando relaxar um pouco depois daquele dia pesado, quando a Amanda entrou no quarto sem nem bater direito, já falando rápido. — Eloá, o Fred tá lá embaixo, ele quer falar com você. Na mesma hora eu senti. Um aperto no estômago. Sempre que alguém vinha falar comigo, tinha o nome dele no meio. Ceifador. Respirei fundo, passando a mão no cabelo ainda úmido. — Tô indo. Calcei o chinelo e desci junto com ela. Cada degrau parecia mais pesado, como se meu corpo já soubesse que vinha coisa que eu não queria. Quando chegamos na sala, o Fred tava lá, sentado, conversando com dona Lindalva como se fosse visita normal, mas nada ali era normal. — Boa noite — falei, meio sem jeito. Ele olhou pra mim na hora. — Boa noite. O olhar dele era diferente, atento, como se estivesse me analisando. Sem falar muito, ele estendeu a mão na minha direção, segurando uma caixinha branca. — Pra você. Fiquei sem entender por um segundo, mas estiquei a mão e peguei. Era leve. Abri ali mesmo e quando vi, era um celular. Novo. Daqueles de última geração mesmo, bonito, moderno, brilhando na minha mão. Levantei o olhar pra ele, surpresa. — Isso aqui… — Foi o Ceifador que mandou te dar — ele respondeu direto. Meu coração deu um salto estranho. Ele tirou um papel do bolso e me entregou. — Aqui tá o número dele. Peguei devagar, olhando os números como se aquilo fosse alguma coisa maior do que realmente era. Ele continuou explicando, sério, como se estivesse passando uma ordem importante. — Escuta, vocês não podem ficar ligando nem mandando mensagem toda hora. Assenti, prestando atenção. — Tem que esperar o contato dele. Ele que vai falar com todo mundo. Balancei a cabeça de novo. — Tá. Mas por dentro? Eu respondi. — Quanto a mim, pode ficar tranquilo, eu não tenho intenção nenhuma de ligar nem mandar mensagem. Mas fiquei quieta. Só guardei isso pra mim. — Obrigada — falei baixo. Ele assentiu e voltou a falar com dona Lindalva, como se já tivesse resolvido o que veio fazer. Eu olhei pra Amanda, que já tava com um sorrisinho curioso. — Bora — ela cochichou. Subimos pro quarto quase correndo. Assim que entramos, ela já sentou na cama do meu lado. — Abre, abre direito! Revirei os olhos, mas acabei rindo de leve. A gente ligou o celular, começou a configurar tudo. Eu fui colocando as coisas devagar, ainda meio perdida, meio sem acreditar. Quando chegou na parte de salvar contato, eu parei por um segundo, olhando pro papel. Digitei o número. Salvei. Fiquei encarando o nome por alguns segundos antes de colocar. Ceifador. Amanda me cutucou. — Manda logo. Suspirei. — Tá. Lembrei do que o Fred falou e só mandei simples. — Oi, é a Eloá. Nada mais, nada menos. Do jeito que ele explicou. Bloqueei a tela na hora, como se aquilo fosse evitar alguma coisa. — Pronto. Amanda riu. — Agora é esperar. Descemos pra jantar, tentando agir normal. Dona Lindalva conversava, Amanda falava da faculdade, e eu só respondia quando precisava, porque minha cabeça tava em outro lugar. Depois do jantar, cada uma foi pro seu quarto. Eu deitei na cama, ainda cansada, olhando pro teto, tentando relaxar. Foi quando o celular vibrou. Meu coração disparou na hora. Olhei devagar. Notificação, Mensagem dele. Do Ceifador.
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