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2090 Words
CAPÍTULO 2 — GREGÓRIO NARRANDO Acordo cedo. Sempre acordei. Não importa se fui dormir às quatro da manhã depois de um baile, se passei a madrugada resolvendo problema ou se simplesmente fiquei sentado na varanda olhando a cidade lá embaixo. Meu corpo já se acostumou com a responsabilidade de não poder desligar completamente. Quando você é o homem que todo mundo procura quando alguma coisa dá errado, não existe essa história de dormir tranquilo. Abri os olhos antes das sete, fiquei alguns segundos encarando o teto e passei a mão pelo rosto. Minha casa estava silenciosa naquele horário, mas eu sabia que, lá fora, o complexo já estava acordado fazia tempo. Tomei banho, vesti uma camiseta preta, bermuda escura e um relógio no pulso. Não precisava de terno, gravata ou qualquer merda desse tipo para saber quem eu era. Ali dentro, bastava eu aparecer. Passei pelo espelho do corredor e vi meu reflexo rapidamente. Moreno, corpo forte, braços fechados de tatuagem, peito marcado, barba sempre aparada. Não sou de ficar me admirando no espelho, mas conheço o homem que vejo ali. Aos vinte e sete anos, carrego coisas que alguns homens não carregariam nem aos cinquenta. Meu pai morreu quando eu ainda era novo demais para assumir o que ele deixou. Eu não tive tempo para aprender a ser homem. Tive que simplesmente virar um. Depois que ele morreu, fiquei eu e Gabi. Minha irmã ainda era muito nova, e naquele momento eu entendi que não podia deixar que a vida dela virasse uma merda por causa das escolhas que tinham sido feitas antes de mim. Eu assumi responsabilidades, fiz o que precisava ser feito e nunca mais olhei para trás. Gabi cresceu debaixo da minha proteção. Talvez até demais. Eu sei disso. Sei que sou controlador pra c*****o quando o assunto é minha irmã, mas não vou pedir desculpa por isso. Ela é a única família que tenho. Se alguém quiser mexer comigo, problema meu. Se mexer com ela, vira problema de todo mundo. Desci as escadas e encontrei Otávio na área externa. Ele estava perto de um dos carros, conversando com um dos homens que trabalhavam comigo. Assim que me viu, endireitou a postura. — Bom dia, Grego. — Bom dia. A Gabi já saiu? — Ainda não. Assenti e continuei andando. Minha casa era grande. Grande pra c*****o. Tinha sido reformada aos poucos, até chegar ao tamanho que eu queria. Sala enorme, cozinha planejada, quartos espaçosos, piscina, área externa, garagem que comportava meus carros e motos. Eu gostava de luxo. Nunca escondi isso. Passei boa parte da minha vida vendo gente ter dinheiro e não poder comprar o que queria, então, quando comecei a ganhar o meu, fiz questão de ter aquilo que eu gostava. Carros bons. Motos potentes. Relógios caros. Roupas de qualidade. Minha casa do jeito que eu queria. Não precisava provar nada para ninguém. Eu simplesmente gostava. Mas dinheiro nunca foi suficiente para comprar tranquilidade. Saí pela porta e encontrei alguns homens conversando mais adiante. Eles me cumprimentaram com um aceno de cabeça. — Fala, chefe. — Bom dia. Continuei caminhando. Todo mundo sabia que eu não gostava de ficar parado. Tinha sempre alguma coisa para resolver, alguma pessoa para ouvir, algum problema aparecendo. O complexo nunca dormia de verdade. Havia comércio, moradores indo trabalhar, crianças indo para escola, gente abrindo suas portas, motos passando, carros subindo e descendo, música tocando de algum lugar. Era uma cidade dentro da cidade. E eu conhecia aquele lugar como conhecia minha própria mão. Conhecia os rostos, as famílias, as histórias. Sabia quem tinha chegado recentemente, quem tinha ido embora, quem precisava de ajuda e quem estava procurando problema. Não era apenas poder. Poder sem controle vira bagunça. E eu odiava bagunça. Entrei na sala onde costumava resolver as coisas e encontrei João sentado numa cadeira, mexendo no celular como se fosse dono da casa. Olhei para ele. — Tu não tem casa, não, p***a? Ele levantou os olhos e abriu aquele sorriso debochado. — Bom dia pra você também, meu irmão. — Tô falando sério. — Tenho. Mas lá ninguém me dá café. — Então compra. — Tá maluco? Café aqui é melhor. Balancei a cabeça. — Tu é folgado pra c*****o. João riu e levantou. — Dormiu bem, chefe? — Dormi o suficiente. — Isso significa que dormiu duas horas. — E tu significa que fala demais. — Tá estressado hoje. — Hoje? Kaio entrou na sala justamente naquele momento e soltou uma risada. — Deixa o homem, João. Tu sabe que ele acorda com a cara fechada desde que nasceu. Olhei para os dois. — Vocês vieram trabalhar ou vieram fazer palhaçada? Kaio levantou as mãos. — Trabalhar, pô. Só tava faltando o chefe aparecer. Kaio era um dos poucos homens em quem eu confiava de verdade. Conhecia praticamente todo mundo, sabia se movimentar pelo complexo e tinha uma leitura das pessoas que poucas vezes falhava. João também era diferente. Estava comigo há anos. Nós crescemos juntos em muita coisa. Não precisava explicar tudo para eles. Um olhar bastava. Kaio colocou algumas informações sobre a mesa e começou a falar sobre a movimentação do dia, problemas que precisavam ser resolvidos e algumas situações que exigiam minha atenção. Eu ouvi tudo em silêncio. Não precisava levantar a voz para demonstrar autoridade. Nunca precisei. Quando alguém falava demais, eu apenas encarava. Quando alguém fazia merda, eu resolvia. Não gosto de ameaça vazia. Não gosto de gente que grita para parecer importante. Homem que precisa berrar o tempo todo para ser respeitado já perdeu metade da autoridade que acha que tem. João terminou de falar e eu fiquei alguns segundos em silêncio. — Resolve isso. — Já tô resolvendo. — Então resolve direito. — Pode deixar. Kaio pegou o celular. — E aquele outro assunto? — Depois. — Fechou. Era assim. Curto. Direto. Sem conversa desnecessária. Passei a mão pela nuca e olhei pela janela. Dali de cima dava para enxergar uma parte enorme do complexo. Casas amontoadas, ruas estreitas, comércio, gente circulando. O som da comunidade chegava até minha casa mesmo com as janelas fechadas. Eu conhecia aquele som desde criança. Para mim, era normal. O que para algumas pessoas parecia caos, para mim era rotina. João se levantou. — Vou descer. — Vai. Ele caminhou até a porta, mas antes de sair virou. — Hoje vai ter baile. — Eu sei. — Vai aparecer? Olhei para ele. — Talvez. Ele riu. — “Talvez” é resposta de gente que vai. — Vai cuidar da tua vida, João. — Tô cuidando. Minha vida é boa pra c*****o. — Vai logo antes que eu mude de ideia. — Tá bom, patrão. Ele saiu rindo. Kaio ficou mais alguns minutos comigo e depois também saiu. Fiquei sozinho. Peguei meu celular e vi algumas mensagens. Nada fora do comum. Algumas coisas para resolver, alguns compromissos e uma mensagem de Gabi perguntando se eu poderia buscá-la na faculdade mais tarde. Respondi que Otávio faria isso. Ela mandou uma carinha emburrada. Sorri de canto. Gabi gostava de reclamar. Desde pequena era assim. Ela podia ganhar tudo o que queria e ainda encontraria alguma coisa para dizer que eu estava exagerando. Eu sabia que ela queria liberdade. Sabia que queria sair, dançar, conhecer gente. E eu também sabia que precisava protegê-la. O mundo não era bonito como ela imaginava. Eu tinha aprendido isso cedo demais. Gabi insistiu muito para fazer faculdade. Muito mesmo. Chorou, brigou comigo, ficou dias sem falar direito comigo. Eu não queria que ela estudasse longe de casa, mas acabei cedendo. Hoje ela cursava o que queria e eu pagava tudo. Não faltava nada. Faculdade, carro, roupas, dinheiro, segurança. Ela tinha uma vida confortável. O que ela não tinha era liberdade completa. Isso eu não dava. E não daria. Otávio era responsável por ela quando eu não estava por perto. Era motorista, segurança e, principalmente, meus olhos. Eu confiava nele. Se Gabi saísse, ele ia junto. Se ela voltasse tarde, ele estava lá. Se algum homem se aproximasse demais, ele sabia o que fazer. Gabi odiava. Eu não me importava. Ela podia reclamar o quanto quisesse. Enquanto estivesse sob minha responsabilidade, ninguém ia colocar a mão nela. Voltei para dentro e passei parte da manhã resolvendo coisas. O tempo passou rápido. Quando percebi, já era quase hora do almoço. Almocei em casa e depois saí novamente. Passei boa parte da tarde circulando pelo complexo, conversando com pessoas, observando o movimento e resolvendo alguns problemas. Eu gostava de saber o que acontecia ao meu redor. Não confiava em informação que chegava pela metade. Se alguém dizia que alguma coisa tinha acontecido, eu queria saber como, quando e por quê. Era assim que eu trabalhava. À noite, voltei para casa. Tomei outro banho, troquei de roupa e fui para a sala. Coloquei uma música baixa e me sentei no sofá com um copo na mão. Não estava com vontade de sair ainda. Talvez mais tarde. Ou talvez nem fosse. Eu gostava dos bailes, gostava da música, da energia, da forma como todo mundo parecia esquecer os problemas por algumas horas. Mas também sabia que, em lugares cheios, sempre aparecia alguém querendo testar limite. E eu não tinha paciência para isso. Ouvi a porta abrir e, alguns segundos depois, Gabi entrou. Ela estava sorrindo, com uma bolsa no ombro e o cabelo solto. Assim que me viu, abriu os braços. — Cheguei! Olhei para ela. — Eu tô vendo. — Nossa, que recepção maravilhosa. — Como foi a faculdade? Ela deixou a bolsa sobre uma poltrona. — Foi boa. — Só isso? — Foi boa, ué. — Algum problema? — Não. Fiquei olhando para ela. — Tem certeza? — Tenho, Grego. Gabi se aproximou e sentou no sofá. — Você não cansa de perguntar? — Não. Ela bufou. — A faculdade foi ótima. Tive aula, fiz trabalho, conversei com as meninas… — Que meninas? Ela me olhou por alguns segundos. — Você não conhece. — Então não preciso saber. — Exatamente. Revirei os olhos. — E como estão as coisas? — Normais. Ela ficou mexendo no cabelo, e eu percebi. — Tá escondendo alguma coisa? — Não. — Gabi. — Que foi? — Quando tu começa a mexer no cabelo desse jeito, tá aprontando. Ela soltou uma risada. — Você é paranoico. — Sou cuidadoso. — É a mesma coisa. — Não é. Ela ficou alguns segundos em silêncio e então começou a falar sobre a faculdade. Comentou sobre uma professora, uma prova, um trabalho que precisava entregar. Eu escutei sem interromper. Em determinado momento, ela mencionou uma colega. — Tem uma menina na minha turma, a Cecília. Eu não dei muita atenção. — Hum. — Ela é muito quietinha. — E daí? — Nada. Só tô falando. — Então fala. — Ela é diferente. Olhei para minha irmã. — Diferente como? — Sei lá. Educada. Tímida. Parece que vive em outro mundo. — E tu ficou amiga dela? — A gente tá se conhecendo. Assenti e voltei a olhar para a televisão. — Ela é da Zona Sul, acho. — Acha? — É. — Então sabe ou não sabe? Gabi riu. — Tu é muito chato. — E tu fala demais. Ela pegou uma almofada e jogou em mim. — Grosso. Segurei a almofada e joguei de volta. — Vai estudar. — Já estudei. — Então vai descansar. — Hoje tem baile. Olhei para ela. — Eu sei. — Eu vou. — Otávio vai contigo. Ela fez uma careta. — Eu sei. — E volta cedo. — Grego… — O quê? — Eu tenho vinte anos. — E eu tenho vinte e sete. E continuo dizendo o que tu vai fazer. Ela cruzou os braços. — Você é impossível. — Sou teu irmão. Ela ficou me encarando, mas depois sorriu. — Tá bom. Levantei-me e peguei meu celular. Antes de subir, olhei para ela mais uma vez. — Só não inventa de trazer gente estranha pra dentro de casa, Gabi. Tu sabe que eu não gosto dessa p***a. Ela respondeu imediatamente, com a maior naturalidade do mundo: — Tá bom, irmão. Subi as escadas sem pensar mais no assunto. Para mim, aquela conversa terminava ali. Gabi era minha irmã. Eu confiava nela. Conhecia cada mania, cada mentira pequena, cada sorriso. Achava que sabia exatamente o que acontecia na vida dela. Eu só não fazia ideia de que, naquela mesma noite, minha irmã estava prestes a quebrar uma das poucas regras que eu jamais permiti que alguém quebrasse dentro da minha casa.
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