CAPÍTULO 3 — GABI NARRANDO
Se tem uma coisa que eu aprendi desde pequena é que meu irmão não sabe ser irmão pela metade. Gregório sempre foi oito ou oitenta. Quando nosso pai morreu, ele tinha idade suficiente para entender que a vida tinha mudado, mas era novo demais para carregar tudo o que caiu sobre os ombros dele. Eu era pequena. Não entendia de dinheiro, de responsabilidade, de gente cobrando postura, de homem querendo tomar o lugar do nosso pai. Eu só sabia que, de uma hora para outra, Grego deixou de ser apenas meu irmão mais velho e virou praticamente meu pai. Foi ele quem começou a conferir se eu tinha comido. Foi ele quem aparecia na porta da escola. Foi ele quem brigava quando eu voltava cinco minutos atrasada. Foi ele quem me dava presente escondido quando eu estava triste. E também foi ele quem ficou maluco quando eu completei dezesseis anos e começaram a aparecer os primeiros garotos interessados em mim. Até hoje eu lembro da cara dele quando um menino deixou uma cartinha na minha mochila. Gregório segurou o papel, leu e perguntou quem era o infeliz. Eu ri tanto que quase caí da cadeira. Ele não achou graça nenhuma. Desde então, minha vida amorosa virou uma missão impossível. Não que eu fosse exatamente obediente. Nunca fui. Eu podia ser meiga, carinhosa e até paciente, mas quando colocava uma coisa na cabeça, era difícil alguém tirar. Principalmente Grego. A maior prova disso foi quando decidi que queria fazer faculdade. Ele foi contra desde o começo. Disse que eu não precisava estudar fora, que poderia fazer qualquer curso de casa, que era perigoso, que ele não gostava de me deixar sozinha. Eu chorei. Briguei. Passei dias sem falar com ele. Fiz drama. Muito drama. Até ameacei dizer que não queria mais morar com ele. Essa última parte quase matou o homem. — Tu tá maluca? — ele perguntou naquela noite, parado na porta do meu quarto. — Não vou discutir isso. — Eu vou estudar. — Não vai. — Vou. — Gabi. — Gregório. Ele me encarou daquele jeito que faria qualquer pessoa recuar. Eu não recuei. — Eu tenho vinte anos. — E eu sei. — Então para de agir como se eu tivesse cinco. — Enquanto tu morar comigo, eu vou cuidar de ti. — Cuidar não é prender. — Não começa. — Eu vou começar, sim. Eu quero ter uma vida! Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo. — Tu tem uma vida. — Não tenho a vida que eu quero. Ele ficou em silêncio. Acho que foi a primeira vez que percebeu que eu realmente estava cansada de receber tudo, menos liberdade. Depois de muita discussão, ele cedeu. Mas, é claro, Gregório sendo Gregório, não poderia simplesmente dizer “tá bom”. Ele criou uma lista de regras. Horário para chegar. Motorista. Segurança. Nada de sair sozinha. Nada de festa sem avisar. Nada de homem entrando na casa. Nada de viagem sem autorização. Nada disso. Eu aceitei tudo porque o importante era conseguir estudar. E hoje eu amo minha faculdade. Amo acordar, me arrumar, colocar minha bolsa no ombro e sair de casa sabendo que vou passar algumas horas vivendo uma vida que é realmente minha. Talvez seja por isso que eu goste tanto de lá. Não é só pelas aulas. É pela sensação de ser apenas Gabi. Não irmã do Gregório. Não menina criada pelo homem mais respeitado da comunidade. Não alguém que precisa de segurança para atravessar uma rua. Só Gabi. E foi na faculdade que eu conheci Cecília. No começo, achei que ela fosse apenas tímida. Muito tímida. Daquelas pessoas que pedem licença até quando não precisam. Ela sempre chegava sozinha, sentava mais afastada, falava baixo e parecia pensar dez vezes antes de responder qualquer pergunta. Mas tinha alguma coisa nela que chamava minha atenção. Talvez fossem os olhos verdes. Talvez o jeito delicado. Talvez aquela sensação de que ela estava sempre tentando ocupar o mínimo de espaço possível. Comecei a puxar assunto. No início, ela respondia com poucas palavras. Depois começou a sorrir. E quando Cecília sorria, parecia que o rosto inteiro dela mudava. Eu gostava disso. Gostava de vê-la se soltando. Naquele dia, depois da aula, nós almoçamos juntas. Ela continuava muito quieta, mas eu já tinha descoberto que conseguia fazê-la rir. — Você nunca sai? — perguntei enquanto mexia no meu suco. — Quase nunca. — Nem para dançar? — Não. — Nem com amigas? Ela balançou a cabeça. — Eu não tenho muitas amigas. — Agora tem uma. Ela sorriu. — Você se considera minha amiga? — Claro. — Então pronto. Problema resolvido. Ela riu baixinho. — Você é engraçada. — Eu sei. Sou um acontecimento. Cecília balançou a cabeça, rindo. Eu gostava daquele jeito dela. Era completamente diferente de mim. Eu falava alto, fazia piada, dançava, saía, gostava de baile, de música, de gente. Cecília parecia ter vivido vinte anos dentro de uma bolha. E quanto mais eu conhecia aquela garota, mais tinha certeza de que existia alguma coisa por trás daquele comportamento. Ela ficava nervosa quando o celular tocava. Sempre olhava para a tela antes de atender. Quando eu perguntava sobre a família, mudava de assunto. E havia uma coisa que me chamou ainda mais atenção: ela nunca falava “eu quero”. Falava “meu pai deixa”, “meu pai não gosta”, “meu pai não permite”. Aquilo me incomodava. Eu sabia o que era ter um irmão controlador. Mas aquilo parecia diferente. Muito diferente. Enquanto Cecília estava distraída, meu celular vibrou em cima da mesa. Olhei rapidamente para a tela. Era João. Sorri sem perceber. João tinha um talento impressionante para me fazer esquecer que eu precisava tomar cuidado. Ele era amigo do meu irmão, trabalhava ao lado dele e, se Grego descobrisse que nós dois estávamos ficando escondidos, eu provavelmente teria que assistir a um interrogatório que duraria umas seis horas. Abri a mensagem. “Vai ficar me enrolando até quando, gata?” Mordi o lábio para não rir. Respondi: “Até tu aprender a ficar quieto.” A resposta veio quase imediatamente. “Ih, tá se achando.” Soltei uma risadinha. Cecília me olhou. — O que foi? — Nada. — Você está sorrindo para o celular. — Estou? — Muito. — É uma coisa engraçada. — Homem? Quase engasguei. — O quê? Ela arregalou os olhos, surpresa com a própria pergunta. — Desculpa. Não devia perguntar. Comecei a rir. — Relaxa. Mas ela ficou vermelha. — Eu só… — Você só o quê? — Nada. Eu não tenho experiência com isso. Franzi a testa. — Com o quê? Ela abaixou os olhos. — Homens. Aquela resposta me pegou de surpresa. — Você nunca namorou? Ela balançou a cabeça. — Nunca. — Nunca beijou? O rosto dela ficou completamente vermelho. — Gabi! — Tá bom, tá bom. Não precisa responder. Ela ficou mexendo no guardanapo, claramente envergonhada. Eu não queria deixá-la desconfortável. Então mudei de assunto. Mas aquela conversa ficou na minha cabeça. Cecília não parecia apenas inexperiente. Ela parecia ter sido protegida do mundo. Ou escondida dele. E eu ainda não sabia qual das duas coisas era pior. À tarde, voltei para casa e encontrei Grego na sala. Ele estava sentado no sofá, mexendo no celular. Assim que me viu, levantou os olhos.
— Chegou.
— Cheguei.
— Como foi?
— Boa.
— Só?
— Você quer um relatório?
— Se precisar.
— Meu Deus, você é insuportável.
Ele deu um sorriso pequeno.
— Vai se arrumar.
— Para quê?
— Hoje tem baile.
— Eu sei.
— Otávio vai contigo.
Revirei os olhos.
— Eu sei, Grego.
— E não volta tarde.
— Tá.
— Gabi.
— O quê?
— Tô falando sério.
— Eu também.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Qualquer coisa, me liga.
Aquela era a parte que eu não conseguia odiar nele. Grego podia ser controlador, grosso e completamente maluco quando achava que alguma coisa ameaçava minha segurança, mas eu sabia que ele me amava. Talvez de um jeito exagerado. Talvez do jeito errado às vezes. Mas amava. Subi para o quarto e comecei a me arrumar. Escolhi uma roupa confortável, passei maquiagem, soltei o cabelo e coloquei um perfume que eu sabia que João gostava. Olhei para o espelho e sorri. Eu amava o baile. Não importava o que Grego pensasse. Ali eu conseguia dançar, rir, cantar, esquecer as preocupações e sentir que tinha vinte anos. Quando desci, Otávio já estava esperando. Ele estava encostado no carro, mexendo no celular. Assim que me viu, guardou o aparelho.
— Vamos?
— Vamos.
— Seu irmão falou para eu ficar de olho.
— Meu irmão fala isso todo dia.
— E eu trabalho para ele.
— Traidor.
Ele riu.
— Não reclama. Tu sabe que ele só quer te proteger.
— Eu sei.
Entramos no carro e seguimos para o baile. Conforme nos aproximávamos, o som aumentava. As luzes coloridas apareciam entre as casas, as pessoas caminhavam pelas ruas, motos passavam, carros estacionavam e a música fazia o chão parecer vibrar. Eu sorri antes mesmo de chegar. Era aquilo. Era esse sentimento que eu procurava toda vez que vinha para o baile. Liberdade. Quando desci do carro, encontrei algumas amigas e fui imediatamente dançar. Esqueci o celular. Esqueci Grego. Esqueci as regras. Só existia a música. Dancei, ri, gravei alguns vídeos e cantei até ficar sem voz. Em determinado momento, vi João mais afastado, encostado em uma parede, olhando para mim. Ele estava sorrindo. Caminhei até ele.
— Tá olhando o quê?
— Você.
— E por quê?
— Porque você tá linda.
— Não começa.
— Eu nem falei nada demais.
— Eu conheço você.
Ele se aproximou.
— E eu conheço você.
— Meu irmão tá por aí.
— E daí?
— E daí que se ele descobrir…
— Ele não vai descobrir.
— Você fala isso porque não conhece meu irmão.
João riu.
— Gabi, eu conheço teu irmão melhor que tu imagina.
— Então sabe que ele pode acabar com você.
— Por você? Talvez valha a pena.
Revirei os olhos, mas não consegui esconder o sorriso. Eu gostava dele. Gostava mais do que deveria. E sabia que aquilo era perigoso. João era um dos homens de confiança do meu irmão. Grego confiava nele. Se descobrisse que nós dois estávamos nos encontrando escondidos, seria um inferno. Por isso, mantínhamos tudo em segredo. Quando voltei para casa mais tarde, Otávio me acompanhou até a porta. Antes de entrar, olhei para ele.
— Não conta que eu fiquei até essa hora.
— Eu não sou louco.
— Obrigada.
Entrei na casa silenciosa e subi para o meu quarto. Tomei banho, coloquei meu pijama e deitei na cama. Peguei o celular para responder João, mas antes que pudesse abrir a conversa, outra mensagem apareceu. Dessa vez não era dele. Era da Cecília. O horário me fez franzir a testa. Era tarde demais. Abri a mensagem e senti meu sorriso desaparecer.
“Você poderia me ajudar?”
Fiquei olhando para aquelas cinco palavras durante alguns segundos. Meu coração começou a bater mais rápido. Respondi imediatamente.
“Claro. O que aconteceu?”
A mensagem ficou como enviada.
Esperei.
Um minuto.
Dois.
Três.
Nada.
Então o celular vibrou novamente.
“Eu não sei para onde ir.”
Sentei na cama.
Meu sorriso tinha desaparecido completamente.
Alguma coisa estava muito errada.
Digitei:
“Cecília, onde você está?”
A resposta demorou um pouco.
“Na faculdade.”
Olhei para o relógio.
Era quase meia-noite.
Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto. Minha cabeça começou a criar mil possibilidades. Talvez tivesse brigado com os pais. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Talvez estivesse em perigo. E, por algum motivo, a primeira coisa que pensei foi naquela maneira como ela sempre desviava o olhar quando eu perguntava sobre a família.
Digitei novamente:
“Você está sozinha?”
A resposta chegou.
“Estou.”
Senti um arrepio percorrer meu corpo.
Olhei para a porta do meu quarto.
Meu irmão estava em algum lugar daquela casa.
Eu sabia exatamente o que ele diria se descobrisse que eu estava prestes a fazer alguma coisa escondida.
Mas também sabia que não conseguiria simplesmente dormir enquanto Cecília estivesse sozinha em uma faculdade, no meio da madrugada, sem ter para onde ir.
Peguei uma blusa, calcei o tênis e segurei o celular.
Talvez eu estivesse prestes a fazer a maior merda da minha vida.
Mas, naquela noite, eu não fazia ideia de que aquela mensagem seria o começo de uma mudança que atingiria não só a minha vida, mas também a do meu irmão.
E principalmente a do homem que ainda nem sabia que Cecília existia.