Eu estava encarando o teto sentindo meu estômago revirar, minha cabeça doía tanto que eu sentia vontade de arrancá-la com as mãos.
Vai ficar tudo bem, eu estou aqui pela Kim e vou até o fim por ela. Se eu desistir agora eu sempre vou ficar com ela na memória, até que eu pare de respirar e esteja morta.
Estavam todos dormindo, os sons de roncos me deixavam ainda mais sem juízo para pensar em alguma coisa.
Sinto o colchão afundar, deve fazer algumas horas que apagaram as luzes, está tudo escuro. E tem alguém se deitando na cama comigo.
Sempre fica uma meia luz por causa das grades que tem em volta das paredes lá no final da parede.
— Quem é? — Questionei quando a pessoa se encostou em mim.
— Calma! Sou eu, Asher. — Ouvi sua voz rouca sussurrando para mim.
Relaxei e afastei para o lado, o suficiente para ele deitar ao meu lado e eu conseguir vê-lo, não o vejo muito bem mas vejo o suficiente para reconhecê-lo.
— Como você está? — Ele questionou.
Ash deitou de lado e apoiou a cabeça no travesseiro, eu fiz o mesmo ficando de frente para ele.
— Você não precisa ficar aqui se não quiser, vá dormir. Eu estou bem. — Falei tentando convencê-lo a ficar tranquilo quando na verdade nem eu mesma estava.
— Se eu pudesse ir no seu lugar, Kira. Eu iria no seu lugar e Dylan iria proteger você, ou eu obrigaria o Dylan a ir no seu lugar. — Ash falou de um jeito engraçado, como se fosse uma possibilidade. Eu ri.
— Ash, eu vou ficar bem. Vá dormir que amanhã é outro dia.
Ash ficou em silêncio por longos instantes, ficava brincando no colchão como se seus dois dedos fossem pernas e eles iam e voltavam receosos.
— Você está mais calma? — Ele questionou.
— Estou.
— Kira... Você não me deixou explicar. Aquilo... Eu havia bebido um pouco, a... Não está mais em minha vida e não pretendo deixá-la voltar. — Ele sussurrou. — Você me perdoa? Eu gosto de você, Kira. Faz anos que eu nem a vejo, não sei ao menos do paradeiro dela.
Demorei longos minutos em silêncio. Eu não sabia o que deveria responder, nem como deveria reagir.
Ash se mexeu como se fosse levantar para ir embora. Segurei seu braço o obrigando a ficar.
— Quem é ela? Tipo... Eu sei que foi alguma... Como conheceu ela, quem era ela? — Questionei sem ao menos ter certeza do que eu queria saber.
Ash se endireitou no colchão novamente. Apoiou a cabeça no braço dobrado.
— Foi uma namorada da minha adolescência. Ela é filha de um traficante amigo do meu pai, nunca aceitaria nosso relacionamento e então por isso nosso namoro era escondido. Ele nos separou. — Ele contou de uma vez.
— Você namorou com outra depois dela?
— Não. Fiquei todos esses anos esperando para reencontrá-la e podermos viver nosso relacionamento já que as coisas seriam bem mais fáceis, já que meu pai não está mais aqui para ajudar o Brando, o pai da Emily para nos separar.
Meu coração gelou. Brando?
— Brando não é o pai do Liam? — Questionei em um tom alto.
— Sim. Emily é irmã dele. — Ash falou simples.
Ah, não... Robby falou que se envolveu com a irmã de um traficante, e se esse traficante era Liam, e a irmã dele se chama Emily, elas são a mesma pessoa. Uma mãe não nomearia duas filhas com o mesmo nome.
O Ash em todos esses anos não se deu a oportunidade de namorar com outra garota, e enquanto isso fazendo os cálculos... No mesmo ano, ou talvez meses depois de separarem Ash e ela... A Emily já estava vivendo um romance com Robby... Não é julgando m*l antes de saber mas... Ela podia estar com Robby até mesmo antes de separarem eles já que eles se envolveram em tão pouco tempo depois de separarem ela do amor da vida dela.
— Está tudo bem? — Ash questionou.
Ash... Os dois, essa... Ela se envolveu com os dois antes de mim.
— Sim. Vai ficar tudo bem. — Respondi tentando não esboçar nenhuma reação ou desapontamento. Não vou contá-lo, ele não precisa saber.
— Quando te conheci, tudo em você acabou me lembrando ela. — Ash confessou.
— E você me viu como um tapa buraco?
— Não é bem assim...
— Está tudo bem, Ash. Eu perdôo você, mas isso não significa que vamos ter alguma coisa. — O interrompi.
— Kira...
No mesmo instante o estrondo nas portas ecoaram nos nossos ouvidos. Todos levantaram assustados e a mulher de mais cedo entrou. As luzes acenderam e iluminou nossos olhos em uma claridade tão forte que meus olhos arderem, e acho que de todos aqui.
Olhei para Ash e o vi claramente agora esfregando os olhos.
— Então treineiros, chegou o grande momento. — A mulher gritou.
Olhei para Ash assustada, meu coração acelerava tanto que eu achei que fosse ter um infarto. Minhas mãos estavam suadas e escorregadias.
O dormitório começou a correr um bom ventinho gelado por causa das portas abertas e Ash me abraçou, apoiei a cabeça no seu peito ouvindo sua respiração e seu coração também batendo forte.
De alguma forma a presença de Ash me faz sentir a presença de Kim, sinto como se ela estivesse alí. É como se Ash tivesse um pedaço dela alí, e de alguma forma tinha, o seu sangue era o mesmo que o dela.
— Kira... Me escuta! — Ash segurou meu rosto em suas mãos me obrigado a olhar para o dele. — Você vai ficar bem, você vai fazer isso pela Kimberly, lembra? Faça por mim também, volte sã e salva para mim. Resgatar a Kim não seria a mesma coisa sem você. Volte por todos nós.
Ash depositou um beijo em minha testa.
— Façam três filas indianas separadamente de acordo com as sessões. — A mulher gritou me despertando.
Beijei o queixo de Ash e nos levantamos. Andei alguns passos e senti o seus braços me puxarem de volta.
Ash me abraçou forte, não pude evitar em apertá-lo em meus braços também.
— Faltam apenas os pombinhos alí, vamos! — A mulher gritou para mim e Ash.
Nos afastamos e Ash saiu andando, mas antes sussurrou "Pela Kimberly".
Caminhei até a primeira fila equivalente a sessão 01. Olhei nas outras filas procurando os outros.
Noah, Ava e Dylan sussurram por leitura labial "Pela Kimberly". Eu queria chorar naquele momento.
Olho para Ash, que não deixa de parar de me olhar por nenhum segundo. É como se estivessem se despedindo de mim.
As filas começaram a andar. Foi quando cada fila seguiu em uma direção diferente e as outras duas sumiram agora sendo apenas a minha.
Todos nós nos olhamos com o coração apertado. A tristeza de todos nós não era discreta.
Enxuguei algumas lágrimas que escaparam sem que eu percebesse. Quando notei o homem que estava na minha frente colocando as mãos para trás tentando me tocar, eu o olhei incrédula. É sério que eu vou sofrer tanto e sofrer assédio como cortesia da casa?
Diminuí a velocidade fazendo ele ficar mais distante. O homem olhou se soslaio checando alguma coisa.
— Vem para a minha frente, confie em mim. — Ele sussurrou rapidamente quando o "segurança" o homem com o fuzil estava distraído.
O ignorei totalmente.
— É sério! Também estou sozinho, preciso de uma dupla e pelo visto você também. — Ele falou sério novamente quando o segurança se distraiu.
Eu o ignorei, não vou cair nessas. Não sou i****a.
De repente em um movimento rápido ele saiu da fila e veio para trás de mim, sendo o último da fila agora.
— Quando entrarmos lá, me ajude com o que eu mandar. Podemos sobreviver juntos! — Ele sussurrou.
— Não vou cair no seu papinho, não sou i****a. Me deixe em paz. — Sussurrei de volta.
A fila de 100 pessoas parou de andar. Ouvi o estrondo de uma porta de ferro sendo aberta.
Começamos a entrar. Era outro dormitório, fiquei sem entender. Não era para ser um treino? Mas vão nos separar por sessão?
— Sentem no chão, em fileiras arrumadas. — A mulher ordenou.
Quando as pessoas começaram a sentar, notei que de 100 pessoas, umas 85 eram homens.
Eu vou ficar em um dormitório sozinha com quase 100 homens? Ai meu Deus... Eu acho que vou passar m*l!
Quando todos nós estávamos sentados ela começou a falar. O homem que falou comigo sentou ao meu lado me dando visão do seu rosto.
Ele era alto, um magro meio cheinho e forte. Ele era tão bonito, cabelos negros, a barba por fazer. O rosto dele era bem marcado e o maxilar também.
Ele notou que eu o encarava e me deu um sorriso cafajeste de soslaio. Revirei os olhos e voltei a olhar para a mulher.
— É o seguinte, esse teste não terá data para acabar. — Todos se olharam confusos, olhei para o homem ao meu lado e ele tinha uma postura calma. — Vocês não terão comida até o final do teste, e nem água. Terá um banheiro aqui nesse dormitório. — Ela apontou para uma porta no cantinho da parede. — Temos câmeras aqui, e um contador de pessoas. — Ela apontou para um tipo de telão com o número 100. — Tem um botão bem aqui na porta. Quem desistir por qualquer motivo, aperte-o e será eliminado podendo ir para casa.
Encarei um botão vermelho ao lado da porta, ainda sem entender. Eles nos torturarão sem comida e sem água e nos obrigarão a desistir?
— Sobre o teste... Todos aqueles classificados saíram de volta para o dormitório oficial e começar o treino quando naquele placar estiver marcando apenas 50 treineiros, ou seja, metade de vocês. — A mulher explicou. E mesmo assim ainda não entendi como funciona o teste. — Quando vocês estiverem agonizando de fome, e sede, não poderão evitar a luta. — A mulher complementou e saiu andando para trás ainda de frente para nós. — Dentro deste dormitório, toda forma de sobrevivência é justa. Podem usar tudo o que tem. Boa sorte! — Ela fechou as portas e foi embora.
Ficamos todos encarando a porta sem nenhuma forma de reação.
Então... É como uma forma de sobrevivência?? Eles nos trancam aqui dentro sem comida e sem água, para fazer metade dos treineiros desistir. E como muitos vão insistir, os outros loucos agonizando de fome irão fazer os outros treineiros desistir... Do jeito deles!
Merda! Eu... Não consigo respirar. Eu não sei lutar e nem muito menos me defender.