Senti um puxão no meu braço. Eu estava tão desprevenida que fui arrastada como uma boneca de pano.
— Me ajude a empurrar essas duas colunas de beliches. — O homem de antes ordenou. — Rápido!
Fiquei um bom tempo parada sem entender.
— Anda logo, p***a! — O homem ordenou novamente. — Empurra a beliche!
Olhei para trás e vi todos distraídos indo checar o banheiro, ou olhando o botão vermelho, ou até mesmo igual uns idiotas olhando o placar ou as câmeras.
Quando o vi tentando juntar as duas colunas de beliches mais altas, corri e fui ajudar. Coloquei tanta força que senti minha visão escurecer.
— Desparafusa a escada da outra beliche! — Ele ordenou novamente.
Quando eu parava para pensar o porquê de eu estar obedecendo as ordens de um homem que eu m*l conhecia ele gritava "Rápido, c*****o!" e o seu grito me assustava, me fazendo o obedecer no automático.
Ele desparafusou a parte debaixo da escada e a cada parafuso que ele encontrava ele desparafusava com os dedos.
Entendi o que era para fazer e fiz o mesmo. Fiquei impressionada o quanto os parafusos estavam frouxos, quando chegamos lá em cima restou dois parafusos apenas. Eram dois parafusos de cada lado da escada em cada cama.
— Pronto! — O homem falou quando eu subi e sentei na cama colada ao seu lado. — Retire os últimos parafusos dessa daí, já tirei dessa daqui. — Ele ordenou mais calmo.
Eu pelo contrário, estava á um passo de surtar.
— O que? Você é i****a? Como vamos descer depois? — Eu praticamente gritei.
— Se não podemos descer, ninguém também não pode subir. Burra. — Ele afirmou enquanto colocava a escada em cima da cama.
Se aproximou da minha e retirou os parafusos da outra também colocando as duas escadas em cima da cama.
Posicionou a escada abaixo do pé e chutou várias vezes até o degrau de ferro sair. Chutou outra vez e tirou outro degrau. Afastou as escadas para o cantinho da cama.
Estávamos em um tipo de plataforma lá em cima enquanto os outros estavam lá embaixo.
— Toma. — Me entregou um degrau e segurou o outro.
— Para quê? — Questionei segurando o degrau.
— Para nós lutarmos, acho qu...
Como eu não tinha a menor chance contra esse homem, não o deixei terminar de falar e bati o degrau diversas vezes na cabeça dele com força para que eu tivesse alguma chance.
O degrau de ferro oco, fazia barulhos altos.
— Para! — Ele gritou.
Tentou me segurar mas não conseguiu, então colocou os braços na frente do rosto e me empurrou para o lado sentando em cima de mim e segurando meus braços.
— Não é para lutarmos nós dois entre si, é para lutarmos com os treineiros que estão lá embaixo, eu e você... Como uma dupla. — Ele gritou.
Ai meu Deus... Ele estava querendo fazer uma dupla comigo para não ficarmos sozinhos e eu achei que ele queria me eliminar...
— Ah... — Foi a única coisa que eu consegui falar quando ele saiu de cima de mim.
— Merda... — Ele murmurou enquanto tocava o pouco sangue que escorria da sua testa com os dedos.
— Desculpa por favor, eu me assustei! — Repeti diversas vezes. — Me deixe te ajudar.
Me aproximei dele olhando o ferimento na cabeça dele. Tirei o casaco que estava amarrado em minha cintura, segurei a manga dele e coloquei em cima do seu ferimento.
— Pronto, fique pressionando. O machucado é pequeno. Jajá para de sangrar. — Expliquei.
Eu fiquei quieta e um pouco envergonhada.
Fiquei observando as pessoas lá embaixo que conversavam e se deitavam no chão em conjunto.
— Por que subimos aqui em cima? As pessoas estão calmas lá embaixo, devíamos nos juntar e não ficar só nós dois aqui isolados. — Falei.
— Estão assim porque é o primeiro dia. — Ele falou também olhando lá para baixo.
— Como você sabe?
— Já passei por isso antes, acredite em mim quando digo que quando 100 pessoas convivem juntas em um lugar isolado, sem comida e sem água não dá certo. — Ele disse simples.
— Você já passou por esse treinamento antes? — Questionei curiosa e confusa se eu realmente havia entendido certo.
— Já perdi as contas de quantas vezes já passei por aqui. — Ele falou rasgando a manga do meu casaco e a dobrando.
— Ei, e se eu precisar dele?
— Pensasse nisso antes de tentar me matar. — Ele ironizou enquanto dobrava o tecido e pressionava em sua testa. — Eles dão roupas novas sempre que saímos de um treino, então relaxa. Até porque não tem como ficar com as roupas inteiras até o final dos treinos.
— Por que você já participou desse treinamento tantas vezes?
— Porque eu quero. — Ele respondeu rude.
Olhei para baixo e eles nem nos vêem, pelo menos ainda não nos viram aqui em cima, até porque é bem alto.
— Quantos metros essa beliche tem mais ou menos de altura? Uns 3 metros será? — Quebrei o silêncio.
— Tem 4 metros de altura. — Ele falou calmo.
— Estamos a quatro metros do chão!?
— Foi o que eu disse não é? — Ele respondeu rude novamente como se eu fosse irritante.
Por que ele me escolheu? Esses outros homens fortões ajudariam muito mais, devem ser muito mais espertos, inteligentes e fortes.
— Por que me escolheu? Os outros homens lá embaixo são todos bem mais escolhiveis para fazer dupla.
— Justamente por isso. Quando a situação apertasse eles tentariam me matar para o placar chegar em 50 mais rápido, como você é mosca morta eu poderia facilmente te jogar daqui de cima se você tentasse. — Ele falou simples sorrindo de lado.
Minha expressão ficou tensa e então resolvi me calar. Mas eu tenho tantas perguntas.
— Vamos ficar aqui por quanto tempo?
— Até o placar chegar em 50. — Ele ironizou e eu o olhei incrédula. — Falei sério.
— E se precisarmos usar o banheiro?
— Esperamos até a madrugada quando todos estiverem dormindo e vamos juntos, um fica na porta de guarda enquanto o outro volta.
— E se for eu esperando? Não sei lutar. — Questionei.
— Aí eu vou estar lá dentro preparado para quando entrarem.
— E eu vou dar a minha vida por você? — O olhei incrédula.
— Eu estou ajudando você, e você não tem nenhuma chance sem mim. Então é o mínimo que você pode fazer.
Fiquei calada. Ele realmente tem razão.
— E se alguém tentar subir aqui?
— Aí você faz o que sabe fazer de melhor, bata na cabeça da pessoa com o degrau da escada. — Ele piscou irônico para mim. — Estamos no alto, então temos vantagens.
Tenho inveja dele, ele é muito esperto e todos os seus movimentos são calculados. Não sei se fico feliz em estar em dupla com alguém assim ou se fico com medo.