Dean só chegou depois. Segundo anunciou lá da porta mesmo aos convidados, fora comprar mais cerveja — e então exibiu quatro engradados fechados para o alto; suas provas cabais. E a festa o recebeu com uma pequena grande ovação.
A primeira pessoa que Dean viu ao adentrar o apartamento, porém, — depois de Elisa o pressionar para deixar seus “distrativos das experiências extrassensoriais” num dos recipientes — foi Will. Dean estava procurando Darian, mas foi uma feliz surpresa, afinal.
— E não é que você veio mesmo? — disse ele sorrindo, ao se aproximar. Sua voz estava um pouco abafada pela Ariana Grande e seus “7 Rings”.
— Não foi fácil decidir — alegou Will.
— E por que está aqui sozinho? Levou um fora ou ainda não achou ninguém interessante? — Will negou com a cabeça, não deixando claro o que queria dizer exatamente com aquilo. Mesmo assim, Dean concluiu: — Mas que bom que veio. — Então, hasteou o braço para ele, com dois dos engradados entrelaçados nos dedos, quase fraquejando. — Me ajuda a guardar?
Will assentiu, tomando-lhe os dois caixotes de uma das mãos.
Os dois se enveredaram com esforço por entre os corpos rebolantes e calorentos de jovens rebolantes e calorentos em direção à cozinha diminuta. Nossa, Will realmente odiava festas e as pessoas que festejavam nelas.
— E o que te fez mudar de ideia? — Dean quis saber. Will exprimiu um ponto de interrogação, o que o fez rir, e por isso explicou: — O que te fez vir à festa? O que te fez mudar de ideia.
O Darian.
— Não tinha muito mais para fazer em casa…
— Sei como é. — Dean tomou os engradados dos braços de Will de volta e foi depositando, uma a uma, as garrafas no congelador da geladeira. — Uma pena você não ter chegado antes. Porque, antes, estávamos só Darian, Elisa e eu aqui, arrumando tudo.
— E isso faz quanto tempo?
— Meia hora, mais ou menos. Aí eu fui comprar mais cerveja, porque a Elisa achou que tinha pouca. E quando eu voltei… — E então Dean apontou, com o queixo erguido, para o pequeno Lollapalooza logo ao lado, na sala de estar.
Will riu do sarcasmo, mas sem muito vontade, somente querendo ser educado. Ele só não era pior dissimulando boas maneiras do que flertando. Ah. E ele também não sabia puxar papo, nem mesmo quando era para algo extremamente útil. Dean estava ali: o melhor amigo do Darian, o cara que, em teoria, sabia tudo e mais um pouco sobre o cara que ele gostava: do que Darian gostava, as músicas que ouvia, como gostaria de ser pedido em namoro, que posições preferia no sexo e quais suas principais fantasias. Entretanto, lá estava Will, pateticamente caçando as palavras que lhe fugiam, sem saber o que dizer.
Portanto, o silêncio. Um silêncio barulhento da atmosfera ao redor. Will vasculhando com o olhar pelos rostos desconhecidos que ele cotidianamente ignorava, ou então rostos de conhecidos que igualmente o ignoravam; sem, é claro, encontrar quem estava procurando: aquele lindo rosto conhecido de olhos azuis e cabelo loiro
— Preciso admitir que não sei por que você me convidou… — Will soltou, de repente. Mas ele sabia sim, mais ou menos: talvez Dean soubesse que Will gostava do melhor amigo dele e decidiu dar uma forcinha. Will não era tão em disfarçar seus sentimentos quando pensava, e faria sentido se Dean fosse tão bondoso ao ponto de ajudá-lo com os seus sentimentos, que eram óbvios.
— Acho que sabe sim.
— Hum… acho que sei — confessou Will. Sorrindo.
— E é… recíproco? — O olhar de Dean reluziu sobre a claridade neon.
Will sorriu ainda mais.
— Sim. É, sim.
— Que bom. Bem bom. Isso é… muito bom.
E aí Dean, impulsionado pelo desejo, pela adrenalina, pelas pessoas que nem estavam prestando atenção nele pela primeira vez na vida e pela aura magnética da juventude e a sensualidade que ela exalava — Elisa tinha razão mesmo, afinal —, imprensou Will na parede, pressionando-o pelo quadril enquanto o beijava. Sua língua dançando dentro da boca dele, revestindo a saliva dele com a sua. Will era um gatinho. Um gatinho muito gostoso.
E até que Dean beijava bem. Ele tinha habilidade para se adaptar aos lábios de Will — lábios secos e rígidos pela surpresa — e, ainda mais importante que isso, tinha t***o. Com dinheiro, poder e t***o, pode-se fazer qualquer coisa.
Mas Will se esquivou, achando fuga por debaixo dos braços de Dean. Este, atônito, o encarou com curiosidade; não estava bom?
— Eu estava falando do Darian! Eu gosto… do Darian. Pensei que tivesse me chamado aqui por causa do Darian. Pra me…
— Dar uma força com ele? — completou Dean, decepcionado; com um sorriso consolador no rosto, que pretensiosamente tentava dissimular seu choque. — É. Foi o que eu pensei mesmo.
— Eu não… — Will engoliu em seco. Reorganizou melhor as palavras: — Eu não quis magoar você. Não quis dar a entender errado.
— Não se preocupe. Estou acostumado — confessou Dean, tomando da geladeira um dos cascos que ele acabara de guardar ali. Ainda estava quente, obviamente, mas não importava mais. Agora, na verdade, uma cerveja quente era o menor dos problemas. Ele removeu a tampinha com a barra da camisa e deu um gole. — Você não é o primeiro cara que prefere o Darian, em vez de mim.
Nesse momento, Will se lembrou também de um outro rumor que rodeava a escola: o de que, antes de Darian, e vai ver antes de Lee também, Dean é quem havia sido o primeiro amorzinho juvenil de Elton.
— Oh, Dean. Qual é, eu não quis…
— Relaxa — ele o interrompeu novamente; tentando dissimular, tentando ocultar a dor aguda de se sentir indesejado até por alguém levemente embriagado, e por isso sorriu. Então, mais uma vez, Dean indicou a pequena multidão à frente deles, com o queixo erguido. — Aproveita a festa. Aproveita que você já tá aqui. — Logo, depois de mais uma golada depois, ele foi embora, sumindo no meio daquela pândega toda.
Isso só deixou Will pior do que já estava. Ele estava ali não fazia nem duas horas e já havia brigado com o amante do anfitrião, magoado o melhor amigo do anfitrião e possivelmente assustado o anfitrião, que era o pequeno grande amor da sua vida até agora.
Ainda assim, (mas que coisa...) um pouco mais tarde naquela mesma noite, o milagre enfim aconteceu.
Depois de três azedas batidas de maracujá, Will começou a bolar estratagemas. Ele não queria que a noite tivesse sido em vão, embora Joana não estivesse ali para auxiliá-lo ou arranjar ficadas para ele dessa vez; por isso, Will que se virasse. Primeiro, ele até cogitou derramar bebida na camisa do Darian, como desculpa para puxar assunto — mas isso era coisa de filme, porque, na vida real, antes de um beijo, a pessoa iria querer te dar um soco por “seu filho da p**a, minha roupa nova! Comprei hoje!”. Em seguida, Will tentou se imaginar simplesmente chegando até ele: cheio de ois-tudo-bem?, ou então todo confiante, tipo “se ser bonito fosse crime, eu é quem deixaria você me prender e punir, gatinho”. Ou, quem sabe, talvez Will só devesse falar a verdade de que vim-porque-o-Dean-me-convidou-parece-que-para-ficar-comigo-só-que-eu-não-tô-afim-dele-mas-sim-de-você-porém-eu-posso-ir-embora-se-você-quiser-mas-também-posso-ficar-se-quiser-que-eu-fiquei-e-eu-fico-com-prazer. Porém isso seria i****a. E Darian já não parecia muito receptivo agora, depois da treta com Elton. Além do mais, antes de qualquer coisa, Will precisava achá-lo no meio daquela gente toda. Nossa, como a Joana fazia falta.
Will supôs que qualquer chance de conseguir algo com Darian naquela noite havia ido por água abaixo (chance que na verdade nunca houve, diga-se), junto com o bom-humor de Darian — ou seja, o bom-humor = o filho da p**a do Elton. Desde aquele momento que Will não voltou a ver o Darian na sala. Não que fosse fácil ver qualquer um no meio daquela balbúrdia; gente dançando pra lá e para cá, um pós-body-shot acontecendo na cozinha, coisa e tal. Will, ao canto da sala, nem dançando nem conversando nem curtindo, estava apenas bebendo — o que lhe trouxe a sensação terrível de que, naquele momento, não havia muita diferença entre ele e aqueles cornos que afogam as mágoas em barzinhos —, e, por isso, decidiu que iria embora dali, daquela festa a qual ele sequer deveria ter ido, pra começo de conversa. Ele já conseguia ouvir Joana reclamando, zumbindo sobre isso no seu ouvido.
Ele, então, partiu a vasculhar um caminho por entre aquela pequena multidão. Ainda não sabia como tanta gente cabia em tão poucos metros quadrados, mas sabia que essa gente dava boas cotoveladas quando um Will afoito invadia o espaço dos seus passos de dança e paquera enquanto tentava ir embora. Até que chegou aos recipientes. Teve que vasculhar um pouco para achar suas chaves e celular, e por fim achou; mas não adiantou muito, no fim. Darian, de repente, tomou-os da sua mão, guardando-os no bolso em seguida.
— O que está fazendo? — questionou.
— Seu nome é Will, não é?
— É.
— E foi o Dean quem te chamou, né?
Isso era um “Eltona da minha festa, estranho”? Isso foi um “eu sei o que você fez com ele, então Eltona da minha festa, estranho”?
— Sim, mas… não precisa me expulsar. Já estou indo embora…
— E por que eu te expulsaria?
— Porque meio que estraguei a festa pra você, empurrando o babac… o seu namorado.
— Elton não é meu namorado.
— Hum.
— É.
Ao fundo, The Weekend acelerava as batidas da música, e a velocidade com que as pessoas dançavam e flertavam entre si.
— Desculpe — disse Will, tentando novamente se redimir.
— Pelo quê?
— Por ter estragado a festa pra você.
— Mas você não estragou a festa pra mim — garantiu Darian.
— Hum.
Will já não sabia mais o que dizer para contornar o assunto “pode me dar meu celular e chaves, por favor, porque sua presença me intimida?”.
— Então quem estragou? — Will quis saber.
— Por que acha que alguém estragou a festa pra mim?
— Você não está tão alegre quanto de costume.
Quanto de costume? Então você vem reparando?
Will suspirou pesado, fechando os olhos para a sua estupidez.
— É. Pode ser sim que alguém tenha estragado minha festa. Mas não foi você.
— Foi o Elton — Will tentou, confiante.
— Também não. Acho que eu mesmo estraguei a minha própria festa.
— Hum.
— É.
— Você vai… Tipo, eu posso pegar meu celular e minhas chaves?
— Você parece ter bebido. Não parece bem pra dirigir, e você ainda não respondeu à minha pergunta, agora que sabe que não estragou nada. — A pergunta do porquê Will queria ir embora; do porquê achava que Darian o expulsaria.
— Porque… — eu soquei seu não ex namorado e dei um fora no seu melhor amigo — não nos conhecemos. — E porque eu sinto que você está… meio que me expulsando, só que, antes, zoando com a minha cara um pouco, porque já percebeu que eu gosto de você.
— Então, o jeito de mudarmos isso seria você ficando, não é? — perguntou Darian, com um sorriso de lado. Will engoliu em seco, sem saber o que dizer. O que fazer. — Vem. — E Darian foi andando, em meio à multidão e à batida (autorizada por ainda não ter passado das 22h, porém mesmo assim não tão alta), mas então parou, vendo que Will não o seguia. — Eu disse para vir. Isso se ainda quiser seu celular e as chaves do carro. — Assim, Darian partiu para o quarto, sem olhar para trás de novo.
E Will, sem escolha, engolindo em seco e reticente, o seguiu.