Caio não dormiu.
Ficou sentado na varanda da cobertura alugada, um copo de uísque que não bebeu esfriando na mesa ao lado, olhando pras luzes de São Paulo até o céu começar a clarear. Cinco anos fora e a cidade continuava a mesma — só ele tinha mudado o suficiente pra não reconhecer mais o próprio reflexo em algumas vitrines.
O celular vibrou pela terceira vez. Rafael.
— Você não dorme mais? — a voz do outro lado vinha cansada, mas com aquele tom de quem já esperava a resposta.
— Não hoje.
— Foi r**m assim?
Caio olhou pro copo intacto na mesa.
— Foi pior do que eu imaginei.
— Você viu ela?
Ele fechou os olhos. Via ainda — o vestido azul-escuro, a postura rígida, os olhos que encontraram os dele do outro lado do salão como se cinco anos não tivessem passado, como se o tempo todo ela estivesse esperando exatamente aquele segundo pra confirmar que ele era real.
— Vi.
— E?
— E nada. Henrique chegou primeiro.
Rafael soltou um suspiro longo, do tipo que Caio já conhecia de cor depois de cinco anos trabalhando junto, brigando junto, sobrevivendo junto num país que não era o deles.
— Você não vai conseguir fazer isso com o coração na frente da cabeça, Caio. A gente passou cinco anos reunindo prova. Não pode estragar tudo numa noite de festa porque viu a cara dela.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Caio não respondeu na hora. Levantou, foi até a beirada da varanda, deixou o vento frio da madrugada bater no rosto. Lá embaixo, a cidade começava a acordar, os primeiros carros circulando, ninguém sabendo ou se importando que um homem tinha voltado pra reivindicar o que era dele.
— Tem reunião essa manhã — falou, por fim. — Henrique marcou pra discutir minha participação na empresa.
— Você vai?
— Vou.
— Com o quê na manga?
— Com nada ainda. Só o suficiente pra deixar ele desconfortado.
Do outro lado da linha, Rafael ficou em silêncio um instante.
— A gente tem os documentos parciais. As datas que não batem. Não é prova de fraude ainda, mas é o bastante pra plantar a dúvida certa, na pessoa certa.
— Não vou usar isso hoje.
— Por quê não?
Caio olhou pra própria mão apoiada na grade da varanda, os nós dos dedos brancos de tanto apertar.
— Porque a primeira pessoa que precisa saber a verdade não é o conselho. É ela.
Rafael demorou pra responder, e quando respondeu, a voz veio mais suave, quase de pena.
— Você sabe que isso pode explodir tudo, né? Se ela não acreditar em você. Se ela escolher o lado dele, mesmo sem saber de tudo.
— Eu sei.
— E mesmo assim.
— Mesmo assim vou arriscar.
Caio desligou o telefone sem dizer mais nada e ficou parado ali, olhando o sol nascer sobre uma cidade que ele tinha deixado pra trás achando que nunca mais voltaria. Cinco anos reconstruindo cada prova, cada documento, cada testemunho que pudesse desmontar a mentira que Henrique tinha construído em cima da vida dele. Cinco anos aprendendo a viver com o gosto amargo de ser considerado o irmão que fugiu, o covarde, o que abandonou tudo sem explicação.
E nenhum desses cinco anos tinha preparado ele pra o que sentiu quando viu Natasha parada no salão, com aquela mesma postura de sempre segurando alguma coisa que ela não deixava transbordar.
Ele achou que ia sentir raiva. Ou culpa. Ou os dois.
O que sentiu foi mais simples e mais perigoso que isso: quis atravessar o salão inteiro e não parar de andar até estar perto o suficiente pra ela nunca mais duvidar de nada.
Não fez isso, claro. Cumprimentou o irmão, sorriu pras pessoas certas, jogou o jogo que precisava jogar pra não estragar cinco anos de paciência numa única noite.
Mas soube, ali mesmo, olhando pra ela do outro lado do salão, que a versão dele que tinha ido embora não existia mais.
O homem que voltou não sabia mais fingir que não a queria de volta. E isso, mais do que qualquer documento ou prova que Rafael tinha reunido, era o tipo de verdade que podia derrubar tudo — inclusive ele mesmo.
Voltou pra dentro do apartamento com o sol ainda baixo no horizonte, a luz cortando de raspão as janelas da sala. Vestiu o terno que tinha separado pra reunião, ajustou o punho da camisa, e se olhou no espelho por um instante longo demais.
Hoje ele ia descobrir o quanto ela ainda se lembrava dele.
Guardou o celular no bolso, pegou as chaves, e saiu pra enfrentar o irmão pela primeira vez em cinco anos com as cartas na mesa — mesmo sabendo que ainda não tinha coragem de jogar todas de uma vez.