CAPÍTULO 2 — Henrique

1030 Words
Henrique viu o irmão entrar no salão e teve exatamente três segundos pra decidir que cara ia fazer. Escolheu a certa. Sempre escolhia. — Meu Deus — murmurou Fernanda ao lado dele, taça parada no ar. — Isso é o Caio? — É. — Ninguém te avisou? — Ninguém precisa me avisar de nada. Mentira. Tinha ficado sabendo fazia três dias, por um contato no aeroporto que ele pagava justamente pra esse tipo de informação. Três dias pra se preparar e ainda assim sentiu o estômago virar quando viu o irmão atravessar a porta como se o lugar ainda fosse dele. Porque, tecnicamente, ainda era. Metade era. Henrique atravessou o salão com o sorriso que tinha ensaiado a vida inteira, o mesmo que usava em reunião de conselho, em entrevista, em qualquer lugar onde as pessoas estivessem prestando atenção nele. Estendeu a mão. — Caio. — Henrique. — O aperto do irmão foi firme demais pra ser só educado. — Não avisou que vinha. — Achei que seria mais interessante assim. Ao redor, ele sentia os olhares. Todo mundo fingindo que não estava olhando, o que era pior do que olhar de vez. Henrique manteve o sorriso, porque era isso que se fazia, e porque em algum lugar naquele salão a mãe dele estava vendo tudo e ele não ia dar a ela o prazer de ver os dois filhos brigando em público. — Bem-vindo de volta — disse, alto o suficiente pra quem estava perto ouvir. — Sentimos sua falta. Caio não respondeu na mesma moeda. Só olhou pra ele por um segundo a mais do que qualquer cumprimento normal exigia, e nesse segundo Henrique sentiu alguma coisa que não sentia fazia anos. Medo. Não do tipo grande, não do tipo que paralisa. Do tipo pequeno e frio que fica alojado no peito e não sai. — Vamos conversar depois — falou Caio, baixo, só pra ele ouvir. — Em particular. — Claro. Sempre tem tempo pra família. Caio deu meia-volta e seguiu andando pelo salão, cumprimentando outras pessoas, e Henrique ficou parado observando as costas do irmão por mais tempo do que devia. Foi Fernanda quem se aproximou de novo, a voz baixa e afiada. — Você está branco. — Estou ótimo. — Henrique. — Estou ótimo, Fernanda. Ela não insistiu, mas o olhar dela dizia que sabia que era mentira. Fernanda sempre sabia quando era mentira. Era uma das razões pelas quais ele confiava nela mais do que devia. Do outro lado do salão, ele viu Natasha parada perto do bar, com Larissa do lado. A postura dela estava mais rígida que o normal, os ombros presos numa linha que ele reconhecia — era assim que ela ficava quando estava segurando alguma coisa por dentro. Ele conhecia essa postura fazia três anos. Não sabia mais o que fazer com ela. — Ela viu — disse Fernanda, seguindo o olhar dele. — Claro que viu. Todo mundo viu. — Não é isso que eu quis dizer. Henrique não respondeu. Sabia exatamente o que ela quis dizer, só não queria admitir em voz alta, ali, no meio de duzentas pessoas segurando taças de champanhe e fingindo que não estavam prestando atenção em cada gesto da família Alencar. Ele pegou uma taça de uísque de uma bandeja que passava e bebeu de uma vez. Cinco anos. Cinco anos de trabalho, de controle, de reconstruir cada peça daquele império do jeito certo, e bastava um homem atravessar uma porta pra tudo parecer, de repente, emprestado. — Você devia falar com ele agora — disse Fernanda. — Antes que ele fale com mais alguém. — Ele disse que quer conversar depois. — E você vai deixar ele escolher a hora? Henrique olhou pra ela. Fernanda tinha esse jeito de dizer as coisas que mais doíam com a voz mais calma possível, como se estivesse comentando o clima. — Eu sempre deixo as pessoas acharem que escolheram a hora — disse ele, baixo. — Isso não significa que a hora não foi minha. Ele terminou o uísque e colocou o copo vazio na bandeja de um garçom que passava. Do outro lado do salão, Caio estava conversando com dois membros do conselho, rindo de alguma coisa como se não tivesse desaparecido por cinco anos, como se não devesse satisfação a ninguém ali. Henrique sentiu a mandíbula travar. Ele tinha construído aquilo. Sozinho. Tinha assumido o peso, tinha segurado a empresa de pé quando o pai adoeceu, tinha aguentado os sussurros de que era o filho errado, o segundo, o que ninguém apostava. Tinha feito tudo isso sozinho. E agora o irmão voltava com aquele sorriso calmo, aquele jeito de quem nunca perde o controle, e em menos de dez minutos já tinha roubado a atenção do salão inteiro. Inclusive a dela. Principalmente a dela. — Henrique. — Fernanda tocou o braço dele, trazendo de volta pro presente. — O que você vai fazer? Ele olhou mais uma vez pra Natasha, ainda parada perto do bar, ainda com aquela rigidez nos ombros que ele não sabia mais desfazer. Depois olhou pro irmão, cercado de gente que já tinha esquecido cinco anos de ausência só porque ele tinha voltado rico e interessante. — O que eu sempre faço — respondeu, ajeitando o paletó. — Vou sorrir, cumprimentar todo mundo, e descobrir exatamente o que ele quer antes que ele perceba que eu já sei. Fernanda sorriu, um sorriso pequeno e cúmplice. — E se ele já souber de alguma coisa que você não quer que ele saiba? Henrique não respondeu na hora. Olhou pro salão, pra luz baixa, pras pessoas rindo de coisas que não importavam, pra vida inteira que ele tinha construído em cima de uma mentira que só duas pessoas no mundo conheciam por completo. — Então eu vou precisar descobrir isso primeiro — disse, por fim. — Antes que seja tarde demais. A orquestra tocava uma valsa qualquer. Do outro lado do salão, Caio riu de alguma coisa, e por um segundo pareceu exatamente como era antes — o irmão fácil, o favorito, o que todo mundo amava sem esforço. Henrique odiou aquele segundo mais do que qualquer outra coisa naquela noite.
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