Henrique fechou a porta atrás de si com mais cuidado do que pretendia, como se o barulho pudesse revelar mais do que ele estava disposto a mostrar.
— O que é isso? — perguntou, os olhos ainda fixos na mão fechada de Natasha contra o peito.
— Nada que diga respeito a você — respondeu Caio, calmo demais pra ser inocente.
— Ela é minha esposa. Tudo que envolve ela diz respeito a mim.
Natasha não disse nada. Ficou parada entre os dois, o papel ainda escondido, os olhos indo de um irmão pro outro como se estivesse tentando decidir, ali mesmo, em quem confiar.
— Natasha. — Henrique deu um passo em direção a ela, a voz suavizando num tom que ele usava havia anos pra acalmar qualquer situação difícil. — O que ele te mostrou?
Ela hesitou. Foi só um segundo, mas Henrique sentiu esse segundo como um soco.
— Cartas — disse ela, por fim, a voz sem nenhuma emoção que ele conseguisse ler. — Cartas que ele diz ter escrito pra mim, cinco anos atrás.
— E você acredita nisso?
— Eu não sei no que acreditar.
Henrique sentiu o controle da situação escorregando entre os dedos, e fez o que sempre fazia quando isso acontecia: apertou mais forte.
— Caio sempre foi bom em criar histórias convenientes — disse, virando pro irmão. — Documentos podem ser forjados. Datas podem ser manipuladas. Você não vai acreditar em qualquer papel que ele decida te entregar depois de cinco anos de silêncio.
— Não são forjadas — disse Caio, sem alterar o tom. — E você sabe disso.
— Como eu saberia?
— Porque alguém ligou pro meu contato em Lisboa perguntando informações sobre onde as cartas estavam sendo enviadas. Alguém que se identificou como representante da família Alencar.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado o suficiente pra Henrique sentir o próprio pulso acelerar.
— Isso é absurdo — falou, mais alto do que pretendia. — Você está insinuando que eu intercept...
— Eu não disse seu nome.
Henrique parou. A frase ficou suspensa no ar, e ele percebeu, tarde demais, que tinha se antecipado a uma acusação que ninguém tinha feito ainda em voz alta.
Natasha o olhou de um jeito diferente. Não era mais só confusão. Era o início de alguma coisa mais afiada.
— Ele não falou seu nome, Henrique — disse ela, devagar. — Por que você já pulou pra se defender?
— Porque é óbvio que é isso que ele está insinuando! — A voz dele saiu mais dura do que qualquer coisa que tivesse dito a manhã inteira. — Ele volta depois de cinco anos com histórias de cartas interceptadas, olha pra mim como se eu fosse o vilão da história, e espera que eu fique calado?
— Ninguém te chamou de vilão — disse Caio, calmo, quase gentil demais pro tom da conversa. — Só levantei uma pergunta. Você que decidiu responder como se fosse acusação.
Henrique sentiu o rosto esquentar. Sabia, com uma certeza fria, que tinha acabado de cometer o erro que passara a manhã inteira tentando evitar — reagir rápido demais, revelar mais do que devia através da própria defesa.
— Preciso voltar pro meu escritório — disse, tentando recuperar alguma compostura. — Temos uma empresa pra administrar, e essa conversa pode continuar depois, em particular, sem acusações soltas no meio de uma reunião de negócios.
Ele saiu antes que qualquer um dos dois pudesse responder, e só quando a porta se fechou atrás dele, no corredor vazio, permitiu que a expressão no rosto mudasse — o controle absoluto rachando por um segundo, revelando algo mais cru por baixo.
Caminhou rápido até o próprio escritório, trancou a porta, e ficou parado, respirando fundo, tentando organizar os próprios pensamentos antes que alguém batesse.
Cartas. Ele tinha certeza de ter interceptado todas. Tinha certeza de ter cortado qualquer possibilidade de contato entre os dois nos primeiros anos, pagando as pessoas certas, cobrindo os rastros certos.
Mas se Caio sabia sobre a ligação pra Lisboa — se ele tinha esse detalhe específico — significava que alguém tinha falado. E só existia uma pessoa que sabia dos detalhes exatos daquela ligação: quem ele mesmo tinha pago, cinco anos atrás, pra fazer o contato e depois sumir com qualquer rastro.
Henrique pegou o celular, discou um número que não usava havia anos — o único número que podia ter vazado aquele detalhe específico.
Não atendeu.
Discou de novo.
Na terceira tentativa, uma voz sonolenta e irritada respondeu do outro lado.
— Quem é?
— Você sabe quem é. — A voz de Henrique saiu mais fria do que pretendia. — Precisamos conversar. Agora. Sobre aquela ligação pra Lisboa, cinco anos atrás.
Do outro lado da linha, o silêncio durou tempo demais pra ser inocente.
— Já faz cinco anos que a gente não conversa sobre isso — disse a voz, finalmente, o tom de sono desaparecendo por completo. — Por que agora?
— Porque tem alguém fazendo perguntas.
— Como descobriram isso?
— Não sei. Mas se você abrir a boca sobre qualquer coisa daquela época, eu vou garantir que tudo que você fez nesses cinco anos venha à tona também. Entendeu?
A ligação foi desligada sem resposta, e Henrique ficou parado, olhando pro celular na própria mão, sentindo pela primeira vez desde a volta do irmão que o chão que ele tinha construído com tanto cuidado começava, devagar, a rachar por baixo dos próprios pés.