Prólogo

542 Words
Alice Martins sabia exatamente como sua vida tinha saído dos trilhos: um bolo de aniversário pegando fogo, uma criança pendurada no lustre e um pombo desorientado voando dentro da casa. O que ela não sabia era como tinha parado ali, segurando um telefone e ouvindo um homem que soava como se tivesse engolido um banco oferecer-lhe um trabalho irrecusável. — Você tem experiência com crianças difíceis? — perguntou a voz séria do outro lado da linha. Alice olhou para o caos ao seu redor. A pequena Sofia gritava porque um brigadeiro tinha sumido (Alice tinha comido, mas negaria isso até a morte), Miguel estava coberto de glitter até os dentes, e o gato da casa estava claramente tentando invocar alguma entidade maligna no canto do sofá. — Digamos que eu sou uma espécie de domadora de ferinhas— respondeu, chutando discretamente um brinquedo que pegava fogo para debaixo da mesa. A voz pigarreou. — Precisamos de alguém que seja firme. Profissional. Que não se impressione fácil. Alice riu. O homem claramente nunca tinha levado um chute de uma criança de três anos vestida de princesa enquanto segurava um balde de vômito. — Meu nome é Ethan Blackwood. Preciso de uma babá para os meus sobrinhos. Urgentemente. Me disseram que você é a melhor com crianças temperamentais. Alice congelou. Ethan Blackwood. O tubarão de Wall Street?! O homem que demitia pessoas por e-mail usando um emoji de "joinha". — Ah. Você é o magnata sem alma. Houve um silêncio mortal do outro lado. — Você sabe que eu ainda estou na linha, certo? — E eu sei que você ainda é um magnata sem alma. Mas prossiga. Mais silêncio. Depois, um suspiro. — Meus sobrinhos precisam de uma babá. Eles são... exigentes. Todas as candidatas anteriores desistiram. Alice sentiu um arrepio na espinha. Crianças que assustavam babás normalmente vinham em duas categorias: "pequenos gênios do crime" ou "animais selvagens criados por lobos". Ambas eram sua especialidade. — Costumo lidar bem com crianças difíceis. — Pago o dobro do que você ganha atualmente. Ela quase engasgou. — Você nem sabe quanto eu ganho. — Não importa. O triplo. Eu preciso urgente. Alice estreitou os olhos. Era pegadinha? Uma câmera escondida? O que vinha depois? Uma exigência absurda, como usar um uniforme vitoriano e servir chá pontualmente às cinco? — Tem pegadinha nisso? — Nenhuma. Você aceita ou não? São filhos da minha irmã. Ela não está e eu preciso de alguém que fique com eles. Isso não é uma brincadeira, senhorita. Alice olhou ao redor. O bolo continuava pegando fogo. O pombo agora tentava escapar pela televisão. E, no meio da sala, Miguel esfregava glitter na cara como se fosse um ritual de purificação. Ela respirou fundo. — Quando começo? Ethan Blackwood sorriu do outro lado da linha. Alice até escutou o suspiro aliviado. Era sempre assim. Pais desesperados com emergências com crianças. — Amanhã de manhã. E não se atrase. Meu RH vai falar com você. Alice desligou o telefone, olhando para o caos à sua frente. — Bom, gente... acho que acabei de vender minha alma. Miguel, ainda coberto de glitter, ergueu os braços e gritou: — VIVA A BRUXA DO GLITTER! Definitivamente, ela estava pronta para qualquer coisa. Ou assim pensava.
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