Depois do cinema, as coisas não mudaram de repente. Mudaram devagar. Como se tanto eu quanto Lucas Moretti tivéssemos medo de estragar algo só por tocar demais.
Na manhã seguinte, ele já estava no portão quando cheguei.
Lucas Moretti:
— Bom dia.
O jeito como ele disse meu nome, com um sorriso meio contido, fez meu estômago dar um nó estranho.
Isabela Duarte:
— Bom dia.
Caminhamos juntos até a sala. Nenhum dos dois mencionou o beijo. Não porque não importasse, mas porque parecia grande demais para ser tratado como algo simples.
Na aula de matemática, ele me passou um papel dobrado.
“Você também ficou pensando ontem?”
Olhei para ele de canto de olho antes de responder.
“Fiquei.”
Lucas sorriu, voltando a atenção para o quadro como se nada tivesse acontecido.
No intervalo, sentamos no banco de sempre, mas agora havia uma distância menor entre nós.
Lucas Moretti:
— Eu fiquei com medo de ter sido rápido demais.
Isabela Duarte:
— Não foi.
Lucas Moretti:
— Eu não queria que você se sentisse pressionada.
Isabela Duarte:
— Eu não me senti.
Ele pareceu aliviado.
Lucas Moretti:
— Então… a gente fica estranho agora?
Pensei por alguns segundos.
Isabela Duarte:
— Acho que não precisa.
Ele assentiu.
Lucas Moretti:
— Também acho.
Naquela semana, Lucas passou a me mandar mensagens com mais frequência. Nada exagerado. Nada invasivo. Apenas presença.
“Chegou bem?”
“Vai estudar agora?”
“Boa sorte na prova.”
Respondi todas.
Em casa, minha mãe percebeu antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
Maria Duarte:
— Tem alguém te deixando distraída.
Isabela Duarte:
— Talvez.
Ela apoiou o cotovelo na mesa, me observando com atenção.
Maria Duarte:
— É o Lucas.
Não foi uma pergunta.
Isabela Duarte:
— A gente se beijou.
Ela respirou fundo, mas sorriu.
Maria Duarte:
— E como você se sentiu?
Isabela Duarte:
— Nervosa. Mas feliz.
Maria Duarte:
— Então tá tudo bem.
Alguns dias depois, Lucas me chamou para caminhar depois da aula. Não era um convite formal. Apenas um “vamos andar um pouco?”.
Paramos numa praça pequena perto da escola. Sentamos no banco ainda quente de sol.
Lucas Moretti:
— Eu não sou muito bom com essas coisas.
Isabela Duarte:
— Com quais coisas?
Lucas Moretti:
— Com definir. Com pedir. Com… rótulos.
Sorri.
Isabela Duarte:
— Eu também não.
Ele respirou fundo.
Lucas Moretti:
— Mas eu sei que gosto de você.
O jeito direto como ele disse aquilo fez meu coração acelerar.
Isabela Duarte:
— Eu gosto de você também.
Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso.
Lucas Moretti:
— Então… a gente pode ir com calma?
Isabela Duarte:
— Eu prefiro assim.
Ele sorriu, relaxando um pouco.
A partir dali, as coisas ganharam um novo tom. Ele passou a segurar minha mão sem pedir. Eu encostava a cabeça no ombro dele quando sentávamos juntos. Não havia pressa. Apenas descoberta.
Em uma tarde chuvosa, ficamos abrigados na entrada da escola, esperando a chuva diminuir.
Lucas Moretti:
— Você fica bonita quando fica séria.
Isabela Duarte:
— Eu fico séria quando fico nervosa.
Lucas Moretti:
— Então você tá nervosa agora?
Assenti.
Isabela Duarte:
— Um pouco.
Ele se aproximou devagar.
Lucas Moretti:
— Posso?
Não respondeu com palavras. Apenas inclinei o rosto. O beijo foi mais confiante dessa vez. Ainda cuidadoso, mas menos inseguro. Quando nos afastamos, fiquei sem fôlego.
Lucas Moretti:
— Melhor assim?
Isabela Duarte:
— Melhor.
Naquela noite, deitada na cama, pensei em como tudo parecia simples demais para ser perigoso. Talvez por isso eu não tivesse medo.
Alguns dias depois, Lucas apareceu em casa para me buscar oficialmente. Minha mãe abriu a porta.
Maria Duarte:
— Você deve ser o Lucas.
Ele endireitou a postura.
Lucas Moretti:
— Sou, sim, senhora.
Maria Duarte:
— Entra.
Sentamos à mesa da cozinha. Ele respondeu às perguntas dela com respeito, sem exageros.
Antes de sairmos, minha mãe falou:
Maria Duarte:
— Lucas, só uma coisa.
Ele se virou.
Maria Duarte:
— Vá com calma com a minha filha.
Lucas Moretti:
— Eu vou.
E naquele momento, eu acreditei nele.
Na saída, ele segurou minha mão com mais firmeza.
Lucas Moretti:
— Sua mãe é… intensa.
Isabela Duarte:
— Ela só se importa.
Lucas Moretti:
— Eu sei. E eu respeito isso.
Caminhamos em silêncio por alguns metros.
Lucas Moretti:
— Então… você quer ser minha namorada?
Meu coração disparou.
Isabela Duarte:
— Quero.
Ele sorriu, aliviado, e me puxou para um abraço apertado.
Naquele instante, tudo parecia certo. Não perfeito. Mas verdadeiro.
E eu não via motivo algum para duvidar.