Capítulo 4 — Planos Que Pareciam Eternos

1570 Words
Isabela No segundo ano do ensino médio, não havia mais dúvidas sobre nós. Lucas Moretti e eu éramos “o casal”. Era assim que os professores comentavam em tom de brincadeira, que os colegas cochichavam nos corredores, que as amigas diziam com sorrisos cheios de certeza. — Vocês ainda vão casar — alguém sempre dizia. Eu ria, meio sem saber o que responder. Lucas ria também, mas segurava minha mão com mais firmeza quando ouvia aquilo. Nosso namoro era leve. Tínhamos discussões bobas, ciúmes pequenos, reconciliações rápidas. Nada dramático. Nada exagerado. A gente se escolhia todos os dias, e isso parecia suficiente. Os beijos ficaram mais frequentes. Mais demorados. Às vezes começavam inocentes e terminavam com o coração acelerado, a respiração descompassada, o corpo pedindo mais do que a cabeça permitia. Mesmo assim, eu tinha medo. Não do Lucas. Nunca dele. Mas da primeira vez. — A gente não precisa ir além disso — ele dizia, sempre que percebia meu silêncio mudar. — Não agora. E eu acreditava. Porque ele realmente esperava. Às vezes ficávamos deitados no quarto, a porta fechada, a música baixa. Os corpos próximos demais para fingir que nada estava acontecendo. As mãos dele subiam devagar, respeitando limites invisíveis. Quando algo em mim começava a pulsar diferente, eu encostava a testa no peito dele, pedindo pausa sem palavras. Lucas entendia. — Quando você estiver pronta — ele murmurava. E eu agradecia por isso mais do que conseguia dizer. ⸻ Lucas Esperar não era um sacrifício. Era uma escolha. Isabela Duarte confiava em mim, e aquilo era maior do que qualquer urgência. Eu sentia desejo, claro. Meu corpo reagia sempre que ela se aproximava, sempre que roçava em mim sem perceber, sempre que os beijos ficavam longos demais para continuar sendo só beijos. Mas eu queria que fosse certo. Para ela. Às vezes, quando estávamos sozinhos, eu precisava respirar fundo para não ir longe demais. Meu corpo ficava rígido, tenso, denunciando pensamentos que eu não dizia em voz alta. Mesmo assim, eu parava. Ela merecia tempo. ⸻ Isabela Foi nesse mesmo ano que começamos a falar do futuro com mais seriedade. — E depois daqui? — perguntei uma tarde, sentados na arquibancada vazia. — Faculdade — Lucas respondeu sem hesitar. — Finanças. Sorri. — Eu pensei nisso também. Ele virou o rosto para mim, surpreso. — Sério? — Minha mãe sempre disse que era uma área segura. Lucas ficou em silêncio por alguns segundos. — E se a gente tentasse a mesma faculdade? A ideia ficou suspensa entre nós. Assustadora. Empolgante. — Juntos? — perguntei. — Juntos. A partir dali, tudo ganhou forma. Pesquisamos faculdades em Boston, analisamos notas de corte, falamos sobre provas, simulados, estratégias. Estudávamos juntos depois da aula, espalhando livros pela mesa da cozinha enquanto minha mãe fingia não prestar atenção. — Vocês parecem um casal de universitários — ela comentou certa vez. — Ainda não — respondi. — Mas estamos tentando. ⸻ Lucas Ver Isabela falando do futuro comigo me dava uma sensação estranha de certeza. Como se eu estivesse exatamente onde deveria estar. Nos esforçamos. Estudamos de verdade. Abrimos mão de algumas saídas, de alguns finais de semana. Não porque alguém exigia, mas porque queríamos chegar lá juntos. Quando as cartas de aceitação chegaram, abri a minha com as mãos trêmulas. — Passou? — Isabela perguntou, aflita. Mostrei o papel. Ela levou a mão à boca antes de rir, emocionada. — Eu também passei. Abraçamos um ao outro com força, sem ligar para quem estava olhando. Naquele momento, parecia impossível que algo pudesse dar errado. ⸻ Isabela O último ano passou rápido demais. Provas finais, ensaios de formatura, despedidas antecipadas. No dia da formatura, eu me olhei no espelho e m*l reconheci a menina que tinha entrado ali anos antes. O vestido caía bem. O cabelo estava diferente. Eu estava diferente. Lucas me esperava do lado de fora. — Você tá linda — ele disse, sem exagero. — Você também. Ele me beijou com cuidado, mas havia algo novo naquele beijo. Uma expectativa silenciosa. {Aconteceu a formatura} Depois da cerimônia, ele segurou minha mão. — Eu reservei um lugar pra gente — disse, meio nervoso. — Que lugar? — Um hotel. Só por essa noite. Meu coração acelerou. Não por medo, mas por decisão. — Eu confio em você — respondi. ⸻ Lucas O quarto do hotel era simples. Luz baixa. Silêncio confortável. Isabela sentou na beira da cama, respirando fundo. — Eu tô nervosa — ela confessou. Aproximei-me devagar. — A gente pode parar a qualquer momento. Ela assentiu. Quando a beijei, foi diferente. Não havia pressa. As mãos encontraram caminhos conhecidos, mas agora não recuaram tão cedo. Quando nossos corpos se alinharam, senti a reação imediata, uma tensão quente que eu tentei controlar. Isabela roçou em mim sem perceber, e algo em mim pulsou forte, denunciando tudo o que eu sentia. Mesmo assim, continuei devagar. ⸻ Isabela Meu corpo reagia antes da minha mente. Um calor baixo se espalhava, insistente. Quando as mãos dele subiram, encostando com cuidado, senti um arrepio inteiro me atravessar. — Tá tudo bem — sussurrei, mais para mim do que para ele. A região entre minhas pernas parecia viva, pulsando com uma intensidade nova. Eu respirava fundo, tentando não pensar demais. Apenas sentir. — Obrigada por esperar — murmurei, encostando a testa na dele. — Eu precisava disso. Lucas me beijou de novo, com carinho e desejo misturados. ⸻ Lucas Olhei para Isabela, deitada ao meu lado, e senti algo diferente de tudo que já tinha sentido. — Posso te pedir uma coisa? — perguntei, hesitante. — O quê? — Queria gravar… só pra mim. Pra guardar. Pra lembrar desse momento pro resto da vida. Ela me observou por alguns segundos. Depois assentiu. — Eu confio em você. E naquele instante, eu acreditei que aquilo também era amor. ———— Isabela Quando ele me pediu para gravar, no início eu não entendi. Houve um silêncio curto. Não pesado. Apenas honesto. Eu pensei na forma como ele tinha esperado. No jeito como sempre parava quando eu precisava parar. No cuidado que existia ali antes mesmo de qualquer toque. — Tá — respondi por fim. — Eu confio em você Lucas respirou fundo, como se aquela resposta significasse mais do que eu conseguia medir. Ele ajustou o celular com cuidado, deixou de lado, e voltou para mim como se nada além daquele quarto existisse. O beijo veio devagar. Sem pressa. Como se ele quisesse que meu corpo acompanhasse minha decisão no mesmo ritmo. Quando seus lábios tocaram os meus, senti o conhecido arrepio, mas agora havia algo diferente — uma expectativa calma, quase serena. As mãos dele roçaram minha pele com atenção, subindo devagar, pedindo permissão em cada gesto. Meu corpo respondia em pequenos sinais: um suspiro mais longo, um arrepio que nascia baixo e subia, um pulsar suave que eu ainda estava aprendendo a reconhecer. — Me fala se doer — ele murmurou perto do meu ouvido. — A gente para. Assenti, incapaz de responder com palavras. Quando nossos corpos se alinharam de verdade, senti o peso do momento. Não era só desejo. Era entrega. Meu corpo estava tenso, nervoso, mas não com medo. Era como atravessar uma porta sabendo que não havia volta — e ainda assim querendo seguir. Lucas se moveu devagar, com um cuidado quase reverente. Quando senti o primeiro desconforto, meu corpo reagiu instintivamente, e eu segurei nos ombros dele. — Tá tudo bem — ele disse, parando no mesmo instante. — Respira comigo. Respirei. Ele ficou ali, imóvel, esperando. Quando o desconforto diminuiu, dei um pequeno aceno com a cabeça. Ele continuou com ainda mais cuidado, como se cada centímetro importasse. Houve um momento de ardor leve, rápido, seguido por uma sensação estranha de pressão e depois… nada além de calor. Meu corpo começou a se ajustar, a aceitar. O pulsar antes confuso se transformou em algo diferente, mais profundo. Encostei a testa no pescoço dele. — Obrigada — sussurrei. — Por esperar. Por ir devagar. Lucas fechou os olhos por um instante. Lucas: — Eu queria que fosse assim pra você. Quando finalmente aconteceu por completo, não foi perfeito, nem cinematográfico. Foi real. Um misto de nervosismo, descoberta e confiança. Meu corpo tremia levemente, mas não havia dor. Apenas a consciência clara de que algo importante estava acontecendo. Depois, ficamos quietos. Deitados lado a lado. Eu sentia o coração dele ainda acelerado contra o meu. Lucas Eu não conseguia parar de olhar para ela. Isabela parecia diferente. Não porque algo tivesse sido tirado dela, mas porque algo tinha sido escolhido. Confiado. Passei os dedos de leve pelo braço dela, sem intenção de provocar nada além de conforto. — Você tá bem? — perguntei. Isabela: — Tô. Melhor do que eu achei que estaria. Ela sorriu pequeno, cansado, mas seguro. — Foi… importante pra mim — ela continuou. — Ter sido com você. Engoli em seco. Meu corpo ainda estava rígido, tenso de emoção mais do que de desejo agora. — Pra mim também — respondi. — Eu vou guardar isso pra sempre. Tudo. Ela virou o rosto para mim. — Só lembra — disse com suavidade — que confiança não é só agora. Aproximei minha testa da dela. — Eu sei. E naquele quarto de hotel, depois da formatura, com o futuro inteiro aberto diante da gente, eu realmente acreditava que sabia exatamente o que estava fazendo.
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