Isabela
O tempo entre a formatura e o início da faculdade foi curto o bastante para parecer um piscar de olhos, mas longo o suficiente para eu perceber que a vida adulta não chegava com fogos de artifício — ela chegava com contas, trabalho e dias repetidos.
No verão, eu trabalhei o máximo que pude. Lucas também. A gente juntava dinheiro como se estivesse construindo um futuro com as próprias mãos. E, de certa forma, estava.
Mesmo assim, eu me sentia diferente. Não era só por termos “dado um passo” no nosso relacionamento. Era por mim. Eu tinha descoberto um lado meu que não era barulhento, nem exagerado, mas era real. Eu me sentia mais bonita. Mais viva. Mais interessante — e não para o mundo, mas para mim.
E, claro, para ele.
Às vezes, só de passar perto de Lucas, eu percebia a forma como o olhar dele mudava. Como o corpo dele ficava tenso quando eu roçava nele de propósito. Como ele tentava disfarçar e falhava.
Isso me fazia sorrir. Não por maldade. Por i********e. Por saber que havia algo nosso ali, secreto, construído.
Na véspera do primeiro dia, minha mãe me viu dobrando roupa e suspirando pela milésima vez.
Maria Duarte:
— Você vai amassar esse tecido de tanto apertar.
Isabela Duarte:
— Eu tô nervosa.
Ela largou a caneca na pia e veio até mim.
Maria Duarte:
— Nervosa por quê? Você estudou, você passou, você trabalhou. Você fez tudo certo.
Isabela Duarte:
— Eu sei… é só que agora parece… real.
Ela encostou a mão no meu rosto, com aquele carinho firme de sempre.
Maria Duarte:
— Então faz o seguinte: entra lá de cabeça erguida. Você não deve nada pra ninguém.
Assenti. Mas, antes de sair do assunto, eu disse baixinho:
Isabela Duarte:
— Eu tô me sentindo… mais segura comigo mesma, sabe? Depois de tudo.
Minha mãe me encarou com uma seriedade suave.
Maria Duarte:
— Isso é bom. Só não esquece que sua segurança tem que ser sua. Ninguém pode te dar e ninguém pode tirar.
Eu prometi com a cabeça, e naquela noite dormi melhor.
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Lucas
Eu já tinha estado nervoso antes — prova, entrevista, apresentação —, mas aquele nervoso era diferente. Era como se eu estivesse atravessando uma porta sem ver o que vinha do outro lado.
No espelho do banheiro, ajeitei a camisa e tentei respirar.
“Você conseguiu”, eu dizia para mim mesmo. “Você e ela conseguiram.”
Quando cheguei para buscá-la, Isabela estava no portão com a mochila no ombro. E, por um segundo, eu esqueci o campus, esqueci o futuro, esqueci tudo. Porque ela estava linda de um jeito que não parecia esforço: parecia presença.
Lucas Moretti:
— Pronta?
Isabela Duarte:
— Pronta.
Ela falou firme, mas eu percebi o detalhe: o jeito como apertou a alça da mochila, como respirou fundo antes de descer o último degrau.
Eu segurei a mão dela, e senti a resposta imediata: ela apertou de volta, como se dissesse sem palavras “tô aqui”.
O campus era maior do que eu lembrava das fotos. Gente passando pra todo lado, grupos rindo, calouros olhando mapas, veteranos andando com aquela segurança que parecia arrogância.
E aí começaram os olhares.
Eu não queria reparar. Eu tentei não reparar. Mas era impossível não ver alguns caras olhando para Isabela como se ela fosse uma novidade deliciosa.
Meu maxilar travou.
Não era raiva. Não era vontade de brigar. Era aquele incômodo silencioso que sobe pelo peito e fica ali, queimando, mesmo quando você tenta agir normal.
Lucas Moretti (baixo):
— Tá todo mundo te olhando.
Ela virou o rosto devagar, sem medo.
Isabela Duarte:
— Eu percebi.
O jeito calmo dela me desarmou mais do que qualquer coisa.
Isabela Duarte:
— Mas você sabe quem eu escolhi.
Eu assenti. E tentei acreditar que isso bastava.
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Isabela
Na primeira aula introdutória, sentamos juntos. Eu gostava disso. Gostava de olhar pro lado e ver Lucas ali, como uma âncora.
O professor falou sobre mercado, comportamento, ética, exigência. Falou como se a gente já tivesse idade de entender o peso do mundo, e talvez tivéssemos.
No corredor, depois da aula, uma menina se aproximou de mim sorrindo.
Colega:
— Oi, eu sou a Vanessa. Você é nova aqui, né?
Isabela Duarte:
— Sou. Isabela.
Vanessa:
— Você tem cara de quem vai se dar bem. Qual seu foco?
Isabela Duarte:
— Finanças corporativas… acho.
Ela riu.
Vanessa:
— “Acho” é honesto. Eu ainda não sei o que eu tô fazendo aqui.
Nós rimos juntas, e quando eu olhei para o lado, Lucas estava ali, mas mais quieto do que o normal.
Isabela Duarte:
— Tá tudo bem?
Ele assentiu rápido demais.
Lucas Moretti:
— Tá.
Eu conhecia Lucas. “Tá” dele, às vezes, era só “tô tentando ficar bem”.
Seguimos andando, e eu senti um olhar sobre mim. Um grupo de meninos passou, um deles olhou diretamente para mim e sorriu como se me conhecesse.
Eu não respondi. Só continuei andando.
Mas Lucas viu.
Quando entramos numa área mais vazia, ele soltou o ar.
Lucas Moretti:
— Esse cara te olhou como se tivesse direito.
Isabela Duarte:
— Ele só olhou.
Lucas Moretti:
— Eu sei.
Ele ficou em silêncio por dois passos.
Lucas Moretti:
— Desculpa. Eu só… não tô acostumado com isso.
Eu parei e virei para ele.
Isabela Duarte:
— Você tá com ciúme?
Lucas coçou a nuca, sem graça.
Lucas Moretti:
— Um pouco.
Eu me aproximei, baixei a voz.
Isabela Duarte:
— Então deixa eu te lembrar uma coisa.
Ele me encarou.
Isabela Duarte:
— Eu tô aqui com você. Eu vim com você. Eu vou embora com você.
E, antes que ele respondesse, eu dei um beijo rápido — não para chamar atenção, mas para dizer “nosso”.
O corpo dele relaxou um pouco. O olhar também.
Lucas Moretti:
— Tá. Eu vou aprender a lidar.
Isabela Duarte:
— Aprende comigo.
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Lucas
Eu queria ser o namorado perfeito. Confiante, tranquilo, seguro. Mas a verdade é que eu estava aprendendo também.
Isabela parecia… mais consciente. Mais provocativa sem nem tentar. Um jeito novo de olhar, de sorrir, de se mover. Às vezes ela fazia isso de propósito — eu via quando fazia — e aquilo me deixava completamente sem defesa.
Não era só desejo. Era orgulho. Era medo. Era tudo misturado.
No caminho de volta, ela encostou no meu braço e falou como se estivesse contando uma vitória.
Isabela Duarte:
— A aula foi boa. Eu gostei.
Lucas Moretti:
— Eu também.
Ela ficou em silêncio por um instante e depois sorriu daquele jeito que só ela tinha.
Isabela Duarte:
— E eu gostei de estar aqui com você.
Eu segurei a mão dela mais forte.
Lucas Moretti:
— Eu também.
Quando chegamos em casa, minha cabeça ainda estava a mil. Eu não queria ser aquele cara que prende, que controla, que estraga. Eu não queria.
Eu só queria manter o que a gente tinha.
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Isabela
Nos dias seguintes, a rotina começou a se formar: aulas, leituras, horários, pequenos estresses. Mas havia também uma novidade boa — a sensação de que eu estava crescendo.
E, com Lucas, a i********e mudou de novo. Não era mais o “aprender o corpo” apenas. Era aprender o que eu gostava de ser. Eu me permitia ser sexy só para ele, de um jeito que ainda era meu: um toque que subia devagar pelo braço dele, um roçar intencional quando ninguém via, uma frase baixa perto do ouvido.
Eu via a reação imediata. O silêncio. O olhar. A respiração.
Em uma tarde, depois de estudar, voltamos para casa dele. A mãe dele não estava. O apartamento estava quieto. Eu deixei a mochila cair no sofá e fui até ele.
Isabela Duarte (baixo):
— Você tá tenso.
Lucas Moretti:
— Tô tentando ser normal.
Eu ri e encostei nele.
O beijo começou devagar e ficou quente rápido, como sempre. Meu corpo respondeu com aquele pulsar baixo, familiar, como se acendesse uma luz por dentro. As mãos dele subiram com cuidado — sempre com cuidado — e quando ele roçou em mim, senti um arrepio que me fez fechar os olhos.
A “região dura” dele encostou na minha, e eu senti a pressão contida, o corpo dele pedindo mais do que a boca dizia.
Mas eu não me assustei. Eu estava mais preparada para mim mesma.
Fizemos amor ali mesmo, como loucos apaixonados.
Quando terminamos
Eu sorri, aliviada. E naquele instante eu percebi: não era só sobre sexo. Era sobre escolha. Sobre controle. Sobre segurança.
E isso me fazia mais forte.
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Lucas
Eu beijei a testa dela e respirei fundo.
Lucas Moretti:
— Obrigado por confiar em mim.
Ela levantou o rosto.
Isabela Duarte:
— Obrigada por me amar.
Eu segurei o rosto dela com as duas mãos.
Lucas Moretti:
— Eu só… às vezes eu fico com ciúme. Mas é meu. Não é seu.
Ela assentiu.
Isabela Duarte:
— Então a gente aprende junto.
E, por um momento, eu acreditei que isso era suficiente para qualquer coisa que viesse.