Três dias, três dias trancada entre essas quatro paredes, e estou prestes a arrancar os cabelos. Perdi a paciência e a sanidade há muito tempo. Na primeira noite, recusei o jantar, e aquele maluco quase me sufocou forçando comida na minha boca.
Então pareço um desastre humano, ou pelo menos um robô programado para realizar as necessidades básicas de um ser humano.
Nunca fui submetida a tortura psicológica, mas tenho certeza de que isso é muito parecido. Ele não me toca, m*al fala comigo, não vi nenhum rosto além do daquele maníaco. O idi*ota pegou o meu celular e o colocou sabe Deus onde.
Eu esperava muitas coisas. Na minha mente, imaginei milhões de maneiras de me causar a dor mais agonizante. No entanto, esse silêncio devastador é cem vezes pior. Nem me lembro mais do som da minha voz. Até o meu subconsciente irritante se calou, e a solidão me ataca com mais força do que nunca.
Ando de um lado para o outro no quarto para exercitar os meus músculos doloridos. Aquele maluco está redondamente enganado se pensa que vou ficar de braços cruzados. Assim que eu baixar a guarda, vou aproveitar a oportunidade e dar o fora daqui. Tenho certeza de que meus amigos não correm perigo se ele não conseguir me chantagear.
Ele pode ser um verdadeiro Di*abo, mas eu sou Leah Falco e, aos 27 anos, já passei por muita me*rda para deixar um psicopata esgotado me ferrar.
Pela primeira vez desde que cheguei aqui, ouço uma batida na porta, o que parece ridíc*ulo, considerando que não tenho a chave.
— Boa tarde, querida. Entra uma senhora gordinha de cabelo preto bem cuidado, segurando uma bandeja. — Fiz um bolo de doce de leite e trouxe uma fatia para você, já que você não comeu muito no jantar.
Que sorte que eu entendo inglês fluentemente, graças aos anos que moro aqui. Senão, eu não entenderia uma única palavra. A mulher fala rápido demais e arrasta algumas consoantes.
— E você é...? Pergunto, torcendo o nariz. Ela é a primeira pessoa que vejo além do meu captor. E considerando que eu estava tão cansada de gritar no primeiro dia, pensei que não houvesse mais ninguém na casa.
— Ah, desculpem os meus modos esquecidos. Ela se move até o sofá do quarto para colocar a bandeja na mesa de centro e estender o braço para mim. — Isso vem com a idade. Eu sou Josephine, mas pode me chamar de Jo. Eu cuido da casa e do Dean.
— Você trabalha para ele? Eu a examino atentamente. Ela não parece má, muito pelo contrário. No entanto, neste lugar, não confio nem na minha própria sombra.
— Pode-se dizer que sim. Ela me dá um sorriso caloroso que me lembra da minha querida Sra. Clarice. Ah, irmã, como sinto a sua falta. — Você poderia experimentar a sobremesa? Não quero que ele me repreenda se estiver ru*im.
— Você não experimentou? Pergunto cautelosamente. E se tiver algum intoxicante como no refrigerante?
— Sim, mas com o passar dos anos o meu paladar não é o mesmo. Venha. Ela me pega pelo braço familiarmente e praticamente me arrasta para o sofá. — Vamos fazer companhia uma à outra. Não costumamos receber muitos convidados em casa.
— Eu não sou uma convidada. Esclareço secamente, sem provar o prato.
— Bobagem. Ela faz um gesto estranho com as mãos. — Para mim, você é. Dean não é tão ru*im quanto insiste que é.
— É, claro. Diga isso ao atirador que está vigiando os meus amigos. Acrescento mentalmente, sem corrigi-la. É óbvio que ela o tem em alta conta e, se o sentimento for mútuo, posso ter acabado de dar o primeiro passo rumo à liberdade.
Só preciso merecer.
— Vá em frente. Ela insiste, referindo-se à sobremesa. — Experimente. Garanto que não tem cobertura extra.
Deixo escapar um pequeno suspiro e coloco uma porção na boca trêmula.
O bolo fofinho atinge o meu paladar, e acho impossível conter o gemido de prazer.
Céus! Há quanto tempo não como uma sobremesa caseira?
Acho que foi desde o Natal passado. No último dia da Cassie no nosso apartamento, ela assou biscoitos de chocolate com mousse de limão.
Pensar na minha amiga me dá vontade de chorar, e decido tirá-la da cabeça por enquanto, para me concentrar no bolo divino. Se estiver envenenado, é melhor eu morrer devorando-o. Pelo menos seria uma morte doce, não uma morte agonizante como a que o meu sequestrador planejou.
Esta é a melhor coisa que me aconteceu em muitos e muitos dias.
A Sra. Josephine conversa animadamente sobre as vantagens da cidade e ocasionalmente faz perguntas sobre a Itália, enquanto eu saboreio a fatia generosa, porém insuficiente.
— Você trabalha para o Dean tem muito tempo? Pergunto casualmente, tomando cuidado para não demonstrar a minha ânsia por informações.
— Eu o vi nascer. Ela responde, dando de ombros.
Então é daí que vem o apego... Bem, não posso culpá-la.
— Você já está indo embora? Eu a seguro quando a vejo se levantar.
— Sim, tenho muito o que fazer e...
— Me leve com você. A interrompo abruptamente. Preciso sair daqui. Preciso encontrar um jeito de escapar.
A velha me encara com uma expressão séria, enquanto tudo em que consigo pensar é em sair deste quarto odioso e de estilo feudal.
Sinto-me como uma daquelas donzelas sequestradas por vândalos da série Mallory.
— Eu posso te ajudar. Ofereço, implorando.
— Dean disse...
— Por favor. Eu junto as mãos em prece. — Por favor, estou aqui há três longos dias e acho que vou morrer de ataque cardíaco ou de nervos se não atravessar aquela porta. Prometo me comportar e não fugir. Ela acrescento, sentindo a sua hesitação.
— Ok. Ela concorda após alguns longos segundos. — Mas fique ao meu lado e, assim que Dean chegar, me deixe falar. Ok?
— Muito obrigada! Me jogo nos seus braços com um movimento brusco. Ela me encara, perplexa de surpresa, enquanto eu sorrio em êxtase. — Você não tem ideia do bem que está me fazendo.
— Eu imagino. Ela me dá um tapinha gentil nas costas para me encorajar. — Tudo vai melhorar, você vai ver.
Embora eu não compartilhe a opinião dela, abro o sorriso e reitero a minha gratidão.
Finalmente, depois do que parece uma eternidade, consigo ver um vislumbre de luz no fim do túnel. Pela primeira vez, me pego gostando de lavar louça ou cortar e enlatar legumes. Trabalho doméstico nunca foi minha praia. No entanto, nesses momentos, me dá um descanso e mantém a minha mente ocupada.
Sempre levei a vida com leveza, agindo antes de pensar, sem medo das consequências. Desde que me lembro, me considerei um erro cometido pela Mãe Natureza e nunca me importei em correr riscos. No entanto, agora estou nesta situação, lutando para sobreviver e com medo de não acordar amanhã.
Às vezes, precisamos ultrapassar os limites para perceber o que é realmente importante e questionar o que fazemos ou o que causamos com as nossas ações. E agora vejo que perdi muito tempo enquanto superava obstáculos.
Se eu superar isso, prometo transformar o meu amor platônico num amor de verdade e comprar uma casinha juntos às margens de um lago. Não terei filhos, porque seria uma mãe desastrosa, e disso sempre tive certeza, mas poderíamos adotar um cachorro. Viverei a minha própria história de amor erótica e encontrarei o meu final feliz.
A campainha toca, interrompendo a nossa divertida aula de culinária no YouTube, e Josephine me deixa lendo as instruções do processador de alimentos engraçado enquanto ela vai até a porta.
A tentação de fugir ainda está lá, mas eu não teria para onde ir e seria muito cedo. Então, soltei um bufo alto antes de me concentrar no manual.
A máquina tem mais teclas e botões do que consigo contar, e a descrição gráfica parece escrita em hieróglifos. Como eu disse, sou péssima em tarefas domésticas.
— Como dona de casa, você não ganha um centavo, Leah Falco. Murmuro pensativa.
— Você decifrou o dispositivo do Dean? Pergunta a velha ao retornar.
Tenho que morder o lábio para não cair na gargalhada. De repente, encontro um significado completamente diferente na expressão. A parte irracional e pervertida de mim me imagina de joelhos diante do d***o, examinando o seu... instrumento.
Sério, Leah? Este confinamento está nos cobrando o seu preço, camarada.
Não tenho dúvidas de que sou louca. Agora, até mesmo pensar em ter qualquer tipo de inti*midade com o homem que me mantém prisioneira e anseia por cortar a minha garganta... Isso é demais, mesmo para uma audaciosa como eu.
— Não. Respondo, contendo o riso. — Quem era...?
Não tenho tempo para dizer mais nada, pois um loirinho muito fofo surge diante dos meus olhos assim que olho para cima. O meu lado paquerador não consegue evitar de vir à tona, enquanto o meu cérebro constantemente trama planos de fuga.
Pareço desesperada, procurando por todos os lados o Príncipe Encantado para me resgatar, mas não tenho escolha. Estou ferrada e preciso me agarrar a qualquer resquício de esperança para não morrer de um ataque de ansiedade.
— Onde você disse que esses papéis estão, Steve? Pergunta a mulher ao homem.
— Steve... preciso saber onde estão.
— Na escrivaninha do escritório. Responde o homem em questão, ainda me observando.
— Vou buscá-los. A velha lança um olhar de advertência para cada um de nós antes de sair. — Não vou demorar.
— E de onde você veio, belezinha? Ela pergunta em tom sedutor, quando estamos a sós. — O Di*abo subiu ao céu para trazer um anjo?