Só por uma noite
— A gente merece isso.
Lia levantou o copo como se estivesse fazendo um discurso importante.
— Um último surto antes da vida adulta destruir a gente.
— Fala por você — Bia riu. — Eu pretendo continuar surtando normalmente.
Revirei os olhos, mas acabei rindo junto.
Talvez elas estivessem certas.
Uma noite. Só isso.
Uma noite sem pensar em notas, faculdade, futuro… ou no fato de que eu não tinha certeza de nada do que estava fazendo com a minha vida, a não ser decepcionar meu pais é claro.
A música batia forte no peito, as luzes piscavam, e o ar parecia quente demais pra quantidade de gente naquele lugar.
Uma cidade diferente. Ninguém me conhecia.
Perfeito.
— Vai ficar parada aí ou vai viver um pouco? — Lia me empurrou de leve.
Suspirei, mas deixei o corpo acompanhar o ritmo da música.
Sem pensar.
Sem me cobrar.
Sem me sentir… insuficiente.
Por alguns minutos, eu consegui esquecer.
Até sentir.
Um olhar.
Foi estranho, senti que havia alguém me observando, me observando há tempo demais.
Virei a cabeça devagar.
E encontrei ele.
Encostado no bar, como se não tivesse esforço nenhum em existir naquele lugar.
Camisa escura. Postura relaxada. Copo na mão.
Mas não era isso.
Era o jeito que ele me olhava.
Direto.
Mas... Intenso
Ele não desviava o olhar, e parecia prestar atenção até no meu menor movimento.
Meu estômago apertou e eu parei de dançar
Desviei o olhar primeiro.
Claro que desviei.
Ridículo.
Nem conheço ele.
— Amiga… — Bia surgiu do meu lado, sorrindo de um jeito suspeito. — você viu?
— Não sei do que você tá falando.
— O cara do bar. — ela praticamente sussurrou. — Ele não tira o olho de você.
Meu coração acelerou, irritante.
— Deve estar olhando pra outra pessoa.
— Não está.
Parei por um segundo.
Respirei fundo.
E, contra todo o bom senso que eu claramente não tinha…
Olhei de novo.
Erro.
Porque dessa vez… ele me olhava de um jeito mais luxurioso. Seu olhar passava por mim me causando arrepios, das pernas ao quadril e subindo. Até chegar aos meus olhos.
E, ao contrário de mim, ele não desviou. Ele deu um leve levantar de sobrancelha.
Quase um desafio.
Como se dissesse: vai fugir de novo?
Soltei o ar devagar.
Tá, Uma noite.
Só uma noite, Sem pensar.
Sem consequências.
Comecei a andar na direção dele antes que eu pudesse mudar de ideia.
Cada passo parecia alto demais, consciente demais.
Mas quando parei na frente dele—
Ele sorriu.
Não um sorriso aberto.
Algo menor.
Confiante demais.
— Demorou — ele disse, como se já me conhecesse.
Franzi o cenho.
— Você tava me esperando?
— Desde o momento em que você fingiu que não tava olhando.
Meu rosto esquentou.
— Eu não—
— Tava — ele interrompeu, tranquilo. — E tudo bem.
O silêncio entre a gente não foi estranho.
Foi… carregado.
Perigoso. Seus olhos azuis, me deixavam inebriada. Mais uma vez eu tendia a culpar o álcool por isso.
— Você sempre é assim? — perguntei, cruzando os braços. — convencido?
Ele inclinou levemente a cabeça, me analisando.
— Só com garotas bonitas.... E quando eu tenho certeza.
— Então eu sou bonita? Ou você tem certeza de alguma coisa?
Ele deu um pequeno passo mais perto. Me inclinei levemente pra frente, pra que ele pudesse me ver melhor, não o suficiente pra que ele pudesse me tocar Mas o suficiente pra eu sentir.
— Tenho certeza... -ele se aproximou mais, abaixando e deixando sua boa a centímetros do meu ouvido - De que você não teria vindo até aqui… se não quisesse exatamente o mesmo que eu.
Meu coração disparou.
Droga.
Ele não devia estar tão certo assim.
Mas estava.
— E o que exatamente eu quero? — desafiei.
O olhar dele desceu por um segundo… e voltou.
Lento.
Intencional.
— Ainda tô decidindo — respondeu, baixo.
Respirei fundo, tentando ignorar o efeito absurdo que aquilo teve em mim.
Uma noite.
Só uma noite.
Sem consequências.
— Então decide logo — falei, me aproximando meio passo. — porque eu não tenho a noite toda.
Dessa vez, o sorriso dele mudou.
Menos controle.
Mais interesse.
— Calma, garotinha. Me diz qual é seu nome primeiro — ele perguntou enquanto fez um sinal pro garçom trazer outro copo.
Hesitei por meio segundo.
Nome tornava real.
Nome criava lembrança.
E eu não queria lembrança.
Queria… esquecer.
— Hoje, você pode me chamar de tentação — respondi.
Os olhos dele brilharam com algo diferente.
— Certo. - Ele apoiou o copo no balcão, sem tirar os olhos de mim. — Então hoje… vou deixar você me tentar.
Ele passou a mão pela minha cintura me fazendo ofegar e meu coração acelerar ainda mais.
E, pela primeira vez em muito tempo….Eu não pensei nas consequências.
***
Horas depois, o mundo parecia mais lento.
Mais silencioso.
Mais… perigoso.
Eu estava perto demais dele, tanto que podia servir cada batida do seu coração. e mesmo assim não parecia perto o suficiente.
— Isso foi um erro — murmurei, mais pra mim mesma.
Ele soltou um leve riso, baixo.
— Foi.
Levantei o olhar.
— Então por que parece que você faria de novo?
Ele não respondeu de imediato.
A mão dele encontrou a minha quente de mais contra a minha pele
Como se já soubesse o caminho.
— Porque algumas coisas… — ele disse, aproximando o rosto do meu — …valem o problema.
Meu coração falhou uma batida.
E, naquele momento…
Eu soube.
Eu não fazia ideia de quem ele era.
E ele não fazia ideia de quem eu era.
E, ainda assim—
Aquilo ia me seguir.
Muito mais do que deveria.
Ele soltou minha mão e envolveu minha nuca, me beijando de novo. um beijo leve no início mas assim que eu correspondi de tornou mais rápido e violento. Senti Sua outra mão subindo pela minha coxa fazendo meu corpo se arrepiar. Eu não tinha certeza do que faria com meu futuro a partir de amanhã, mas tinha certeza de que faria aquela noite ser inesquecível.