Como Se Nada Tivesse Acontecido
O campus estava mais cheio do que eu esperava.
Gente andando rápido, conversando, rindo…como se todo mundo soubesse exatamente o que estava fazendo ali.
Menos eu.
Estava tudo alto demais e rápido demais pra minha cabeça, que nesse momento parecia estar levando marteladas sem parar.
Apertei a alça da bolsa no ombro, tentando parecer menos perdida do que realmente estava.
O cheiro de café estava forte demais.
Ou talvez fosse só a minha cabeça latejando.
Eu nem sabia direito como tinha chegado até ali. Dormi pouco. Pensei demais. E, pela primeira vez em muito tempo…Não era sobre notas.
Era sobre ele.
Passei a mão pelo cabelo, enquanto esperava na fila a atendente trazer meu pedido de café, ia precisar disso se quisesse sobreviver a esse maldito dia. Estava tentando ao máximo ignorar as lembranças da noite anterior. O jeito que ele me olhava. O jeito que me tocava como se já me conhecesse. Claro que estava sendo um esforço perdido. Mas entre isso e essa dor de cabeça terrível, era óbvia a escolha.
Uma noite.
Só uma noite.
Sem consequências.
— Amiga, você tá viva? — Lia apareceu do meu lado, me analisando de cima a baixo. Percebi que a atendente estava me chamando e eu não respondi
— Infelizmente. - disse pegando meu café e Agradecendo com um sorriso, era o máximo que eu podia dar agora.
— Mentira. Tá com cara de quem aprontou. - Revirei os olhos, e me arrependo instantaneamente ao ver o chão sair de foco.
— Não começa.
— Começo sim. — ela sorriu. — Você sumiu ontem.
Ótimo, Perfeito. Fui até a última cadeira agradecendo mentalmente por estar vazia e por poder finalmente sentar. A brisa da janela estava fria, mas nesse momento foi minha melhor amiga.
— Só quis ir embora mais cedo.
— Sozinha?
— Uhum.
Ela claramente não acreditou. Mas antes que pudesse insistir A porta da sala abriu. E o mundo parou. Não devagar. Não dramaticamente.
Parou de verdade.
Meu corpo inteiro travou antes mesmo do meu cérebro conseguir processar.
Não.
Não pode ser.
Não.
Ele entrou como se não tivesse pressa nenhuma.
Camisa escura. Postura impecável. O mesmo olhar calmo… perigoso.
Como se a noite anterior nunca tivesse existido.
Como se eu nunca tivesse existido.
Meu estômago afundou.
Não.
Não, não, não.
Ele não pode ser..
— Bom dia. — A voz dele, A mesma voz. Baixa, Controlada, Familiar. — Meu nome é Sebastian Graves vou substituir o professor Valença esse semestre.
Meu coração simplesmente… esqueceu como batia.
Lia soltou um:
— c*****o…
Baixo demais pra alguém ouvir, Alto demais pra eu ignorar. Eu não conseguia desviar o olhar, Não conseguia respirar direito, Não conseguia pensar e essa maldita britadeira na minha cabeça não estava ajudando em nada.
Porque ele estava ali, Na frente da sala, Meu professor, O mesmo homem que, horas atrás.... Meu Deus, não podia ser verdade, era uma miragem pela ressaca, era a única resposta.
Ele passou os olhos pela sala, Sem pressa, sem emoção, Como se estivesse analisando cada rosto, vendo todo mundo pela primeira vez. Analisando cada um.
Até chegar em mim, Um segundo, Só um. Mas dessa vez… Eu vi Reconhecimento. Ele sorriu, uma leve arqueada nos lábios, Rápido e quase imperceptível
E então…
Nada.
Ele desviou.
Como se eu fosse só mais uma. Meu peito apertou de um jeito estranho, Irritante.
Sentei mais reto, cruzando os braços, tentando recuperar qualquer tipo de controle.
Sério?
Era assim?
Depois de tudo?
Ele começou a falar sobre a matéria como se nada tivesse acontecido. Disciplina, Regras, Avaliações, Palavras vazias. Porque tudo que eu conseguia pensar era:
Ele lembra, Ele só… tá fingindo que não.
Meu maxilar travou.
Ok.
Se ele quer fingir… Então a gente finge, Levantei a mão, Lia me olhou como se eu tivesse enlouquecido e talvez tivesse mesmo.
— Sim? — ele me encarou distante e profissional.
Como se não tivesse passado horas me olhando de um jeito completamente diferente.
Engoli seco.
— O senhor costuma tratar todas as pessoas que conhece como estranhas… ou isso é exclusivo da sala de aula?
A sala inteira ficou em silêncio, minha cabeça agradeceu, mas ao mesmo tempo eu imaginei se não foi uma ideia r**m ter feito isso.
Lia estava com os olhos arregalados, e Bia quase engasgou.
Eu sustentei o olhar dele, desafiando e provocando.
Por um segundo nada aconteceu, então...
Ele deu outro leve sorriso, um pouco maior dessa vez mas muito mais perigoso.
— Eu trato meus alunos como alunos — respondeu, calmo. — Recomendo que você se lembre disso. — Meu coração disparou, mentiroso.
— Entendi. — inclinei a cabeça levemente. — Então foi só… coincidência mesmo. — sorri colocando a língua no canto dos lábios. O olhar dele escureceu, Quase imperceptível, mas eu vi. E ele sabia que eu vi.
— Senhorita…? — ele perguntou.
Ah. Então era assim.
— Lissa.
Ele demorou um pouco, como se estivesse repetindo meu nome mentalmente.
— Senhorita Lissa — disse, firme. — Se quiser passar na minha matéria, sugiro focar no conteúdo… e não em teorias criativas.
Algumas risadinhas surgiram na sala.
Meu rosto esquentou, de raiva, não de vergonha.
— Claro, professor. — não desviei o olhar, e falei a última palavra lentamente de propósito. E naquele momento… Ficou claro.
Aquilo estava longe de acabar
***
No fim da aula, quando todo mundo começou a sair, eu demorei de propósito, sabia que não devia.
Mas…
Eu nunca fui boa em fazer o que devia.
Quando passei pela mesa dele ele disse baixo, só o suficiente pra que eu ouvisse.
— Problema.
Parei devagar, meu corpo inteiro arrepiou, virei só o suficiente pra olhar, fazendo minha melhor cara de "sou inocente"
— Como é?
Ele nem levantou a cabeça direito. Mas o canto da boca… quase sorriu.
— Eu já devia ter imaginado — murmurou. — que você seria um problema.Meu coração disparou.
— Engraçado… — me aproximei um pouco. — porque ontem você parecia gostar disso.
Ele ficou em silêncio por muito tempo até finalmente levantar o olhar. Direto pra mim. Aqueles olhos não pareciam tão azuis ontem, nem tão irresistíveis, na verdade pareciam muito mais intensos agora.
— Ontem não existe aqui — disse, baixo, encostando-se na cadeira— E se você for inteligente… — ele levantou, deixando seu rosto próximo ao meu — Vai fingir que ontem nunca aconteceu.
Inclinei a cabeça, estudando ele. Um sorriso brincando nos meus lábios.
O controle que ele tinha. A tensão que escondia
— E se eu não for? — Dessa vez ele hesitou, talvez estivesse realmente ponderando se eu seria capaz de revelar esse segredo.
— Então você vai descobrir — ele disse, mais baixo ainda — que isso é uma péssima ideia.
Meu coração acelerou, Mas eu não recuei.
— Tarde demais pra isso, professor.
Dei uma piscada e sai sem olhar para trás.