(POV Sebastian)
Eu não deveria ter vindo.
Percebi isso cedo o bastante para voltar atrás, mas tarde o suficiente para já estar sentado ali, com um copo na mão e uma conversa que não exigia nada de mim além de respostas automáticas. O bar estava cheio, iluminado por tons quentes que se misturavam às luzes da pista, criando aquele contraste constante entre controle e caos. O som da música atravessava o ambiente, abafado perto das mesas, intenso o suficiente para lembrar que bastava alguns passos para tudo perder a forma.
Clara falava à minha frente com naturalidade. O vestido escuro acompanhava o corpo dela com elegância, o tecido leve refletindo a luz em pequenos movimentos sempre que ela se inclinava um pouco mais sobre a mesa. Era bonita, inteligente, o tipo de companhia que costumava funcionar bem para mim.
Mas naquela noite, nada encaixava.
— Você nem está me ouvindo — ela disse, apoiando o queixo na mão, me analisando com mais atenção.
Levei o copo aos lábios antes de responder, dando tempo para a frase existir sem exigir verdade.
— Estou.
Ela não pareceu convencida, mas não insistiu.
O problema não era a conversa.LNem o lugar.
Era a sensação constante de que alguma coisa estava fora do eixo, como um ruído baixo que não desaparecia, não importa o quanto eu tentasse ignorar.
E então eu vi.
Lissa estava perto do bar, alguns metros à frente, parada no meio do movimento como se o resto do ambiente não existisse. O olhar dela veio direto, sem hesitação, e por um segundo tudo ao redor perdeu importância. Não era um olhar neutro, nem curioso, nem casual.
Era um impacto silencioso.
Antes que eu pudesse reagir, ela virou de costas e pegou o primeiro copo que apareceu, levando à boca sem pensar duas vezes. O gesto foi rápido, quase agressivo, como se estivesse tentando cortar qualquer coisa antes que ela se tornasse real.
Meu maxilar travou sem que eu percebesse. Clara continuava falando. Mas agora o som era distante.
Lissa foi em direção a pista pouco depois, e o ambiente pareceu mudar junto com ela. As luzes recortavam o corpo dela em movimento, destacando o vestido justo que abraçava cada curva com precisão. O tecido escuro contrastava com a pele, descendo em um corte firme, com um decote em V que chamava atenção sem esforço, equilibrando perfeitamente entre o sofisticado e o provocante.
O cabelo solto acompanhava o ritmo, ondulando conforme ela se movia, e havia algo na forma como ela ocupava aquele espaço que tornava difícil olhar para qualquer outra coisa.
Aquilo não ajudava.
Eu deveria ter desviado o olhar. Não consegui.
Ela bebia rápido demais. Cada vez que voltava ao bar, o gesto era mais automático, menos consciente, como se estivesse tentando manter alguma coisa longe o suficiente para não precisar encarar.
E então ele apareceu, postura relaxada demais para ser acaso. A jaqueta de couro escura contrastava com a luz do ambiente, e o jeito como ele se aproximou deixou claro que estava acostumado com aquele tipo de interação. Não pediu espaço, não hesitou, só entrou no ritmo como se já soubesse que ela não ia recuar. E ela não recuou.
Meu olhar acompanhou cada movimento sem que eu conseguisse impedir. A forma como ela se ajustou ao ritmo dele, a proximidade que se estabeleceu rápido demais, a naturalidade com que aquilo evoluiu. Minha mão apertou o copo com mais força do que deveria.
— Você conhece ela? — Clara perguntou, seguindo meu olhar.
— Não — respondi, sem tirar os olhos.
A mentira saiu fácil. E inútil.
Eles foram até o bar pouco depois, sentando próximos demais, inclinados um para o outro enquanto conversavam. Ela sorria com facilidade, relaxada, como se não houvesse nada complicado ali, nada que exigisse cuidado.
E isso me incomodou mais do que deveria.
Quando voltaram para a pista, a distância entre eles praticamente não existia mais. O movimento era mais próximo, mais direto, e não havia dúvida no que estava acontecendo.
Quando ele a puxou, ela não resistiu.
Quando ele se inclinou. Ela não recuou.
O beijo aconteceu sem hesitação, e foi o suficiente para algo dentro de mim ceder de vez.
Levantei antes de pensar, já atravessando o espaço entre as mesas enquanto o barulho ao redor parecia distante demais para importar.
— Sebastian.
A mão de Clara fechou no meu braço, me puxando de volta.
— Onde você vai?
— Resolver uma coisa.
Ela interpretou errado, como qualquer pessoa interpretaria.
— Não faz isso — disse, apertando mais o braço, confusa. — Não vale a pena.
Aquilo me atrasou um pouco, mas o suficiente.
Quando me soltei, eles já estavam saindo.
Vi Lissa se apoiar nele, o corpo mais pesado, o equilíbrio comprometido, e qualquer resto de racionalidade foi substituído por algo mais direto, mais frio.
Saí sem olhar para trás.
O ar da rua estava frio, cortando o calor da balada com facilidade. Algumas pessoas ainda conversavam do lado de fora, risadas altas, passos desorganizados, o fim de uma noite que ainda não tinha terminado para mim.
Eles estavam perto da calçada.
Ele segurava um capacete, inclinando-se na direção dela com um cuidado que não combinava com o tipo de homem que eu tinha visto minutos antes. Ajustava a alça com atenção, o rosto próximo demais, o gesto calmo demais.
Aquilo me irritou mais do que deveria. Antes que eu pudesse pensar melhor, já estava andando na direção deles.
— Solta ela.
Minha voz saiu baixa, mas firme o suficiente para cortar o momento. Ele virou na mesma hora, o corpo mudando de posição automaticamente.
— Qual é o seu problema?
Não respondi. Agarrei a camisa dele, puxando com força suficiente para desfazer qualquer proximidade entre eles.
— Eu falei pra você não encostar nela.
O movimento foi brusco demais, e Lissa perdeu o equilíbrio, acabando sentada na calçada com um som baixo de protesto. Ela não tentou levantar, só ficou ali, apoiando as mãos no chão, claramente sem firmeza suficiente para reagir.
— Ei, calma — o cara respondeu, tentando se soltar. — Ela tá bêbada, eu só tô ajudando.
— Eu sei exatamente o que você está fazendo.
— Não, não sabe.
O tom dele era controlado, mas firme o bastante para me irritar ainda mais.
— Se afasta — falei, mantendo o olhar nele. — Principalmente nesse estado.
Ele me encarou por um instante, avaliando a situação, antes de soltar o ar e erguer levemente as mãos.
— Certo. Cuida dela então. Demorou um segundo, mas ele recuou — a gente de fala denovo, coelhinha.
A forma como ele a chamou queimou dentro de mim. Soltei a camisa dele, que foi embora com a moto. Voltei a atenção imediatamente para Lissa, me abaixando na frente dela.
— Consegue levantar?
Ela piscou devagar, tentando focar.
— Sebastian…?
O jeito que disse meu nome não ajudou em nada.
Segurei o braço dela com cuidado, ajudando-a a ficar em pé. Ela se apoiou em mim sem resistência, o peso do corpo vindo fácil demais, como se confiar fosse automático.
O caminho até o apartamento foi silencioso.
A cidade parecia mais calma naquela hora, com menos carros, menos movimento, o tipo de quietude que só aparece quando a noite já passou do ponto. As luzes dos prédios refletiam no vidro das janelas, criando um cenário distante demais para competir com a presença dela tão próxima.
Quando chegamos, precisei usar uma das mãos para encontrar a chave na bolsa enquanto mantinha o equilíbrio dela com a outra. A porta se abriu, revelando um apartamento silencioso e organizado demais. Tudo parecia no lugar certo, limpo, alinhado, como se não fosse ela quem morasse ali. Nada parecia combinar com o que ela era
Levei ela até o quarto sem pressa, ajudando-a a sentar antes de deitá-la com cuidado. O lençol se desfez sob o movimento, e ela se ajeitou de forma desorganizada, puxando o tecido sem realmente acordar.
— Dorme — murmurei, mais baixo.
Afastei um passo, tentando manter a distância que deveria existir. Mas não funcionou, porque, ali, com a respiração desacelerando e o corpo relaxado, ela parecia ainda mais vulnerável.
E ainda mais difícil de ignorar.
— Sebastian…
A voz veio baixa, arrastada pelo sono. Ela não abriu os olhos, mas disse meu nome como se fosse natural.
Fiquei parado por um instante, absorvendo aquela imagem mais do que deveria.Uma imagem que realmente mexia comigo mais do que seria decente da minha parte admitir. Desviei o olhar, passando a mão pelo cabelo, tentando reorganizar os pensamentos, e acalmar meu corpo.
Fui até a sala, com dificuldade já que tudo o que meu corpo queria era que eu me deitasse junto a ela, e me joguei no sofá, apoiando os braços nos joelhos enquanto encarava o chão por alguns segundos.
Aquilo tinha passado do limite. E, ainda assim, sair não parecia uma opção imediata. Fechei os olhos só por um momento, o corpo finalmente cedendo ao cansaço acumulado.
E, sem perceber, acabei dormindo ali mesmo.