A música não era só som. Era impacto.
Cada batida atravessava o corpo como se fosse física, como se empurrasse o ar contra a pele e obrigasse tudo dentro de mim a acompanhar o ritmo. O chão vibrava sob meus pés, as luzes cortavam o ambiente em flashes rápidos de vermelho, roxo e azul, e por alguns segundos, longos o suficiente, nada mais parecia importar.
Era isso que eu precisava. Barulho, movimento e alguma coisa forte o suficiente pra empurrar qualquer pensamento pra fora.
Levantei o copo e virei metade do drink de uma vez, sentindo o líquido descer quente pela garganta. O gosto era doce demais, forte demais, e ainda assim não foi suficiente.
Pedi outro.
O barman sorriu enquanto preparava, com movimentos rápidos e precisos. Ele era bonito — cabelo escuro levemente bagunçado, barba alinhada, camisa preta com as mangas dobradas revelando o antebraço firme enquanto girava a coqueteleira com facilidade.
— Noite difícil? — ele perguntou, deslizando o copo na minha direção.
— Nem um pouco — respondi, pegando o drink. — Tô ótima.
Ele soltou um riso baixo, claramente sem acreditar.
— Então tá.
Antes que eu respondesse, Lia praticamente se apoiou no balcão ao meu lado.
— Oi — ela disse, com aquele sorriso que sempre significava problema.
O barman arqueou uma sobrancelha, interessado.
— Oi.
Revirei os olhos, mas acabei rindo, pegando meu copo e me afastando um pouco enquanto Lia começava a conversar com ele como se já se conhecessem há anos.
Bia estava encostada mais atrás, observando a pista, o corpo acompanhando levemente o ritmo da música, mas sem a mesma energia de antes.
Eu não pensei muito. Voltei pra pista.
A multidão me engoliu quase imediatamente, corpos próximos demais, calor, movimento constante. Levantei os braços, deixando o ritmo tomar conta, fechando os olhos por um segundo.
E funcionou.
A cada música, a cada gole, Sebastian ia ficando mais distante. Menos importante e era só isso que eu precisava, mais um drink, mais uma música ,mais um pouco de tempo.
Quando abri os olhos de novo, senti alguém atrás de mim, aproximei um pouco o corpo instintivamente, acompanhando o ritmo, antes de virar levemente o rosto.
Ele era alto, cabelo loiro, levemente bagunçado, como se não tivesse se preocupado muito em arrumar, e ainda assim funcionasse. Os olhos verdes contrastavam com a iluminação escura do ambiente, atentos, seguros. Usava uma jaqueta de couro preta aberta sobre uma camiseta básica, calça escura ajustada e botas que reforçavam ainda mais aquela aparência… perigosa.
Um tipo completamente diferente. E, naquele momento, exatamente o tipo que eu precisava.
Ele não perguntou só entrou no ritmo. As mãos não tocaram de imediato, mas estavam perto o suficiente pra eu sentir o espaço diminuir. A forma como ele se movia era confiante, sem pressa, como se soubesse exatamente o que estava fazendoe eu acompanhei. Sem pensar.
Quando a música mudou, ele se aproximou um pouco mais, inclinando a cabeça na minha direção.
— Você dança bem.
A voz era baixa, mas firme o suficiente pra atravessar o som alto.
— Eu sei — respondi, sem hesitar.
Ele sorriu.
— Convencida.
— Só quando tenho motivo.
Dessa vez, ele riu de verdade. Depois de mais alguns minutos, ele fez um gesto em direção ao bar.
— Quer sentar um pouco?
Considerei por meio segundo antes de dar de ombros.
— Pode ser.
O bar estava menos caótico agora, ou talvez eu só estivesse menos sensível ao caos. Sentei no banco alto, apoiando o cotovelo enquanto ele pedia dois drinks sem nem olhar o cardápio.
— Confiante — comentei.
— Eu sei escolher — ele respondeu, apoiando o braço no balcão ao meu lado.
O barman entregou os copos, e eu levei o meu aos lábios sem pensar duas vezes.
— Então — ele começou — você sempre aparece em lugares assim ou hoje é especial?
— Hoje eu só tô… ignorando decisões ruins.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
— E eu entro em qual categoria?
Pensei por um segundo, olhando pra ele com mais atenção, Bonito, interessante, fácil.
Perigoso do jeito certo.
— Ainda tô decidindo.
Ele sorriu, como se tivesse gostado da resposta.
Conversar com ele era fácil. Natural. Não exigia esforço, não exigia cuidado. Não tinha tensão escondida, nem regras implícitas, nem aquela sensação constante de estar pisando em algo que podia quebrar a qualquer momento.
Era simples. Etalvez fosse exatamente por isso que funcionava. Por um momento, pensei como aquilo poderia ser mais fácil e mais leve.
Um bom substituto.
A ideia veio antes que eu pudesse impedir. E junto com ela...
Sebastian.
A lembrança veio rápida, irritante, insistente.
Peguei o copo de novo e virei o resto de uma vez.
— Mais um — pedi, empurrando o copo de volta.
Se ele queria aparecer na minha cabeça, então eu só precisava beber o suficiente pra fazer ele desaparecer.
Simples.
Voltamos pra pista pouco depois.
A música estava mais alta, mais intensa, e dessa vez eu não hesitei. Me aproximei mais, deixando qualquer espaço entre nós desaparecer. As mãos dele encontraram minha cintura com mais facilidade agora, firmes, seguras, enquanto o ritmo guiava tudo.
E eu deixei o momento acontecer, deixei a sensação substituir o pensamento.
Quando ele me puxou um pouco mais perto, eu não recuei. E quando ele inclinou o rosto eu beijei primeiro.
O beijo foi rápido no começo, mas não demorou pra se tornar mais intenso, mais decidido. Ele respondeu na mesma hora, aprofundando, segurando com mais força, como se aquilo fosse natural.
E talvez fosse. Talvez fosse assim que deveria ser. Sem complicação.
Nos afastamos só o suficiente pra respirar antes de voltar pra pista, e dessa vez tudo parecia mais leve. Mais fácil. Eu ri mais, dancei mais, bebi mais.
Muito mais.
O mundo começou a perder definição nas bordas, as luzes se misturavam, os sons se sobrepunham, e por um momento… nada mais importava. Nem notas nem Sebastian.
— Ei.
A voz dele veio mais próxima agora, firme.
— Acho que já deu.
Franzi o cenho, tentando focar.
— O quê?
— Você já bebeu demais.
Soltei um riso fraco.
— Eu tô ótima.
— Não tá.
A forma como ele falou não foi dura, mas foi suficiente pra me fazer parar.
— Vamos embora — ele continuou. — Antes que você faça alguma coisa que vá se arrepender amanhã.
Pensei em contestar. Mas, pela primeira vez naquela noite… eu não tinha tanta certeza de que estava no controle.
— Tá — murmurei.
O ar do lado de fora estava frio, cortando o calor acumulado da balada. Respirei fundo, tentando organizar a cabeça enquanto ele me guiava até a calçada.
A rua estava mais vazia, iluminada por postes e faróis ocasionais. Algumas pessoas ainda saíam do lugar, rindo alto, tropeçando, vivendo suas próprias versões daquela noite.
Ele parou ao lado de uma moto preta, tirando um dos capacetes.
— Consegue ficar em pé? — perguntou, meio sério, meio divertido.
— Consigo — respondi, mesmo não tendo tanta certeza.
Ele se aproximou, segurando o capacete com cuidado enquanto ajustava na minha cabeça. As mãos dele passaram pelo meu rosto de leve, ajeitando a alça com atenção inesperada e gentil.
Quase… cuidadoso demais pra alguém que eu tinha acabado de conhecer.
— Pronto — ele disse, afastando um pouco o rosto, ainda próximo. E foi quando eu vi.
Sebastian.
Parado alguns metros à frente, o olhar fixo e escuro, com uma postura tensa. O ar mudou na mesma hora. O cara ao meu lado percebeu também, virando levemente o corpo.
— Tem algum problema? — ele perguntou.
Sebastian não respondeu de imediato, só deu alguns passos vindo lentamente na nossa direção. Ele parecia estar controlado, mas seu rosto dizia que estava quase perdendo esse controle.
E qualquer pessoa com o mínimo de noção sabia que aquilo estava prestes a explodir. 🔥