Linha tênue

1524 Words
Os dias passaram mais rápido do que eu esperava. Entre uma aula e outra, eu quase não tive tempo de pensar, o que, talvez, tenha sido a única coisa que me manteve minimamente funcional. A rotina começou a se organizar de um jeito estranho, como se, pela primeira vez, eu estivesse realmente acompanhando o ritmo da faculdade em vez de só correr atrás do prejuízo. As aulas com Sebastian estavam funcionando. E isso era inegável. Eu já não ficava completamente perdida no meio das explicações, conseguia acompanhar melhor os exercícios e, mesmo quando errava, já não parecia aquele tipo de erro desesperado de quem não faz ideia do que está fazendo. Ainda era difícil, mas agora existia um caminho, e isso mudava tudo. O problema era que ele também mudou. Depois daquela primeira aula… ele não deu mais nenhuma brecha. Nada de olhares demorados, nada de proximidade desnecessária, nada que fugisse do que ele tinha definido como “profissional”. Ele explicava, corrigia, ajustava, e mantinha sempre a distância exata, física e emocional, como se tivesse traçado uma linha invisível entre nós dois e decidido que não pisaria nela de novo. E eu percebia. Claro que percebia. Às vezes eu até testava, soltando algum comentário mais leve ou demorando um segundo a mais olhando pra ele, mas nunca funcionava. Ele simplesmente ignorava, ou desviava, ou voltava direto pra matéria como se aquilo não tivesse acontecido. O controle dele era irritante. E, de alguma forma, também… frustrante. Na sexta-feira, quando saí da última aula do dia, o campus já estava mais vazio. O céu começava a escurecer, e as luzes dos postes acendiam aos poucos ao longo das passarelas. O ar estava mais fresco, e havia aquela sensação leve de fim de semana chegando, como se todo mundo ao redor estivesse finalmente desacelerando. Eu também deveria estar.Mas minha cabeça continuava presa nele. No jeito como ele falava. Na forma como evitava qualquer coisa além do necessário. E no fato de que, mesmo assim, eu ainda conseguia sentir que aquilo não era tão simples quanto ele fingia. O restaurante onde meu pai gostava de me encontrar continuava exatamente o mesmo, iluminação baixa, mesas bem distribuídas, garçons silenciosos passando de um lado para o outro com precisão quase ensaiada. Era o tipo de lugar onde tudo parecia controlado demais, previsível demais, como se qualquer coisa fora do padrão fosse imediatamente notada. Ele já estava sentado quando cheguei, com a postura impecável e o olhar crítico de sempre. — Você demorou. Ignorei o comentário e puxei a cadeira. — A gente precisa conversar. Ele apoiou os talheres, me analisando com mais atenção. — Imagino. Respirei fundo antes de falar. — Eu não vou sair da faculdade. O silêncio que veio em seguida não foi surpresa. Ele apenas me observou por alguns segundos, como se estivesse esperando eu mesma desistir do que tinha acabado de dizer. — Isso não é uma decisão sua — respondeu, por fim. Apertei os dedos sobre a mesa, mantendo o olhar firme. — Então vamos fazer um acordo. Aquilo chamou a atenção dele de verdade. — Que tipo de acordo? — Se minhas notas melhorarem, eu fico. Ele recostou levemente na cadeira, cruzando as mãos. — E se não melhorarem? — Eu vou. As palavras pesaram mais do que eu queria demonstrar, mas não voltei atrás. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando, como se estivesse calculando o risco. — Enquanto suas notas estiverem altas, eu continuo pagando — disse por fim. — Mas se você fracassar de novo, eu encerro isso de vez. Assenti. Era duro, mas era justo. E, acima de tudo, me dava uma chance. Saí do restaurante com a sensação de que tinha acabado de fechar um contrato que eu não podia quebrar. A pressão era real agora, concreta, sem espaço pra desculpas. Foi quando o celular vibrou na minha mão. Eu nem precisei olhar o nome para saber quem era. Abri a mensagem ainda andando. Preciso cancelar as próximas duas aulas. Tenho compromissos. - Sebastian Simples e sem explicação. Parei por um instante no meio da calçada, olhando para a tela como se aquilo pudesse mudar. Não mudou. Respirei fundo, travando o celular. Continuei andando, mas agora com aquela sensação incômoda se instalando no peito. Não era só irritação, era algo mais difícil de ignorar. Eu tinha me acostumado com aquilo mais rápido do que deveria. — Você tá estranha. Levantei o olhar quando Lia se inclinou sobre a mesa, apoiando o queixo na mão enquanto me analisava com curiosidade exagerada. Estávamos em um café perto do centro, um daqueles lugares cheios demais para um sábado à tarde, com gente conversando alto, máquinas de café fazendo barulho constante e garçons tentando equilibrar bandejas entre as mesas apertadas. Bia estava sentada ao lado dela, mais quieta, mexendo distraidamente na borda do copo. — Eu fiz uma coisa meio complicada — respondi, soltando o ar devagar. — Eu amo quando você começa assim — Lia disse, já animada. Revirei os olhos. — Lembra do professor novo? — O bonito? — ela respondeu imediatamente. Ignorei o tom. — Eu tô tendo aula particular com ele. As duas ficaram em silêncio por um segundo, como se precisassem processar. — Você tá falando sério? — Lia perguntou, inclinando ainda mais o corpo na minha direção. — Tô. — E você escondeu isso da gente? — Porque é uma péssima ideia. — É uma ótima ideia — ela corrigiu, sem hesitar. Bia levantou o olhar. — E como isso começou? Dei de ombros, evitando entrar em muitos detalhes. — Eu precisava melhorar minhas notas. — E melhorou? — Melhorou. Aquilo era verdade, e falar em voz alta tornava ainda mais real. — Então qual é o problema? — Lia perguntou. Hesitei por um instante. — Ele não mistura as coisas. — Como assim? — Ele… é completamente profissional. Não dá a******a pra nada. Lia fez uma careta. — Que desperdício. Soltei um riso baixo. — Ele cancelou as próximas duas aulas. Dessa vez, Bia reagiu primeiro. — Por quê? — Disse que tem compromissos. Ela ficou em silêncio por um segundo antes de dar de ombros. — Então talvez seja isso mesmo. Nada demais. O tom era casual, mas havia algo ali que eu não consegui definir. — Talvez — respondi, mesmo sem acreditar muito. Lia bateu as mãos na mesa. — Chega. A gente vai sair hoje. — Eu não... — Vai sim. Você precisa parar de pensar nisso. Olhei para as duas, considerando por um instante. Talvez ela tivesse razão. **** O lugar estava cheio quando chegamos. A música preenchia o ambiente, as luzes baixas misturavam tons quentes e frios sobre as pessoas, e o ar carregava aquele cheiro familiar de bebida e perfume que sempre vinha junto com noites assim. Fiquei um momento observando tudo ao redor, sentindo aquela energia que parecia puxar qualquer pensamento para longe. Talvez eu realmente conseguisse esquecer. Caminhei até o bar com as meninas, apoiando os braços na superfície fria enquanto esperava o pedido. E então eu vi. Sebastian. Encostado no bar, alguns metros à frente, com a mesma postura controlada de sempre. A camisa escura ajustava bem ao corpo, e ele parecia completamente à vontade ali, como se aquele ambiente fosse natural para ele. Mas não foi isso que me fez parar. Foi a mulher ao lado dele. Alta, elegante, o tipo de pessoa que parecia se encaixar perfeitamente naquele cenário — e no mundo dele. Ela falava com segurança, tocando o braço dele de forma leve enquanto sorria. Aquilo não parecia casual. Meu estômago apertou antes que eu pudesse evitar. Então ele olhou direto pra mim. Como se soubesse que eu estava ali. O reconhecimento veio na mesma hora. Por um segundo, ficou ali. Mas não durou. Ele desviou o olhar com naturalidade, como se aquilo não fosse importante, e voltou a atenção para a mulher ao lado dele, retomando a conversa como se eu não estivesse ali. Soltei o ar devagar, sentindo o impacto chegar aos poucos. Não era surpresa. Não deveria ser. Mas, mesmo assim..Aquilo incomodou mais do que eu estava preparada para admitir. Talvez porque deixasse claro algo que eu vinha ignorando. O problema não era a distância que eu sentia. Nem as regras. Nem o controle dele. Era muito mais simples que isso. Ele só… não estava mais interessado. Virei de volta para o bar antes que pudesse pensar demais nisso, apoiando as mãos na superfície fria enquanto o barman colocava os copos à nossa frente. Peguei o meu sem hesitar, levando direto aos lábios. — Hoje a gente bebe até esquecer — murmurei, mais pra mim mesma do que pra elas. Lia sorriu na mesma hora, animada demais com a ideia. — Agora você falou a minha língua. Bia ergueu o copo também, me observando por um segundo a mais antes de acompanhar. Não olhei de novo. Não queria olhar. Porque, se olhasse sabia que aquela imagem ia continuar ali.E eu não tinha certeza se conseguiria ignorar de novo. Então só virei o copo engolindo sem nem respirar. Desejando que a bebida lavasse aquela cena da minha mente
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD