Controle

1259 Words
Controle P.O.V Sebastian. Eu quase perdi o controle. Percebi isso no instante em que meu olhar desceu, involuntário, para os lábios dela. Foi rápido, mas suficiente para acender algo que eu não deveria sequer considerar. A sala estava silenciosa, iluminada pela luz branca forte do teto, refletindo nas mesas alinhadas e no quadro ainda marcado com restos de anotações da aula anterior. O ambiente era familiar, previsível — exatamente do jeito que eu sempre preferi trabalhar. E ainda assim, com ela ali, nada parecia sob controle. Lissa estava sentada à minha frente, com o caderno aberto e a caneta girando entre os dedos. O suéter que ela usava parecia simples à primeira vista, mas ajustava o suficiente para chamar atenção sem ser óbvio. O tipo de detalhe que passaria despercebido… se não fosse por quem estava vestindo. Ela fingia prestar atenção. Mas aquele olhar dizia o contrário. E o pior era saber que eu também não estava focado. Por um segundo, considerei me aproximar mais. Diminuir a distância já curta entre nós e acabar com aquela tensão que vinha crescendo desde a noite em que nos conhecemos. A memória veio com facilidade — música alta, luz baixa, o jeito despreocupado dela, completamente diferente da garota sentada agora diante de mim. A ideia era simples. E errada. Eu me afastei imediatamente, passando a mão pelo cabelo enquanto virava de costas. Dei alguns passos até o outro lado da mesa, apoiando as mãos na superfície fria de madeira. Precisava de um segundo para reorganizar os pensamentos, para recuperar um controle que nunca tinha sido um problema antes. Respirei fundo, deixando o ar sair devagar. — Isso não vai funcionar. Minha voz saiu firme, mais firme do que eu me sentia. Quando me virei, ela ainda me observava, com a cabeça levemente inclinada, como se estivesse analisando cada reação minha. — Você não está prestando atenção — continuei, mantendo o tom profissional. — E eu não posso te ajudar se você não levar isso a sério. Ela abriu a boca, pronta para responder, mas eu não dei espaço. — Eu estou falando sério, Lissa. O nome dela saiu mais carregado do que eu gostaria. Ela percebeu. Claro que percebeu. — Se você quer impedir o que seu pai está planejando, então precisa entender uma coisa — continuei, mais direto agora. — Eu sou a sua melhor chance de continuar aqui. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi… diferente. Mais atento. — Mas isso só funciona se você se concentrar de verdade. Eu não posso fazer isso sozinho. Ela desviou o olhar por um instante, como se estivesse processando aquilo de verdade, e não apenas esperando uma brecha para provocar. Quando voltou a me encarar, havia menos desafio ali. — Tá… eu vou tentar. — ela disse simples, sem ironia. E, de alguma forma, isso me desarmou mais do que qualquer provocação. Assenti, puxando o material na mesa. — Então começa daqui. Esquece o resto e foca só nisso. Me aproximei novamente, mas dessa vez mantendo uma distância segura. Apontei para o exercício, explicando passo a passo, quebrando o problema em partes menores. Ajustei o tom, desacelerei o ritmo. Dessa vez, ela acompanhou. Ainda hesitante. Ainda errando. Mas tentando. Percebi rápido o padrão. Não era falta de capacidade — era falta de base, de alguém que tivesse parado para explicar sem pressa, sem julgamento. — Não tenta resolver tudo de uma vez — falei, apoiando a mão na mesa ao lado do caderno dela. — Divide. Resolve essa parte primeiro. Ela franziu o cenho, inclinando levemente o corpo sobre a mesa. Uma mecha do cabelo caiu sobre o rosto, e ela a afastou sem nem perceber, totalmente focada no que estava fazendo. Tentou. Errou. Recomeçou. E então acertou. Ela ficou olhando para o papel por um segundo, como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. — Eu acertei? A surpresa na voz dela era real. E eu fiquei muito orgulhoso mas segurei qualquer reação mais visível, mantendo a expressão neutra. — Sim. — disse com tranquilidade. Ela soltou um riso baixo, quase desacreditando, e se recostou na cadeira por um instante. A tensão nos ombros diminuiu, e pela primeira vez desde que tinha chegado, ela parecia mais leve. Aquilo me pegou desprevenido. A aula continuou nesse ritmo. O relógio na parede marcava o tempo de forma quase imperceptível, o ponteiro avançando enquanto ela tentava, errava e, aos poucos, acertava mais do que antes. Do lado de fora, era possível ouvir passos ocasionais no corredor, portas abrindo e fechando, vozes distantes de outros alunos que já estavam indo embora. O mundo seguia normal. Ali dentro, não. Porque quanto mais ela se concentrava, menos eu conseguia me esconder atrás da irritação ou do controle. E isso era um problema. Porque me obrigava a perceber coisas que eu vinha evitando desde o início. O jeito como ela realmente se esforçava quando parava de se defender com ironia. A forma como se inclinava sobre o caderno, completamente envolvida quando começava a entender. O contraste entre a garota da balada e a que estava ali agora. E o fato de que eu queria continuar ajudando. Quando finalmente encerrei a aula, o clima já não era o mesmo de antes. Ainda havia tensão, mas agora dividia espaço com algo mais silencioso. Mais perigoso. Lissa fechou o caderno devagar e levantou o olhar para mim. — Obrigada. A palavra saiu simples, mas sincera o suficiente para me atingir de um jeito que eu não esperava. — Você fez o trabalho — respondi, mantendo o tom neutro. Mas sabia que não era só isso. Ela pegou a bolsa, hesitando por um segundo antes de se virar. — Até a próxima, professor. Assenti. E então ela saiu. A porta se fechou com um som suave, e o silêncio voltou a ocupar a sala. Dessa vez, mais evidente. Fiquei parado por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde ela estava. Passei a mão pelo rosto, soltando o ar devagar. Aquilo já tinha saído do controle. Eu sabia. E, ainda assim, não tinha feito nada para parar. *** Meu apartamento estava exatamente como eu havia deixado. Luzes indiretas acesas, móveis alinhados, tudo no lugar certo. O tipo de ambiente que sempre me ajudou a manter a mente organizada. Mas naquela noite, não fez diferença. Joguei as chaves sobre a mesa e caminhei até a cozinha, apoiando as mãos na bancada de mármore. A superfície fria contrastava com a tensão que ainda não tinha diminuído. A cidade se estendia além da janela, iluminada, cheia de movimento. Carros passavam, pessoas seguiam suas rotinas, completamente alheias ao fato de que eu estava ali, tentando ignorar algo que não deveria existir. Passei a mão pelo cabelo mais uma vez, frustrado. Era simples. Deveria ser simples. Ela era só uma aluna. Uma responsabilidade. Uma situação que eu já deveria ter encerrado no momento em que percebi para onde aquilo estava indo. Mas não fiz isso. E agora, cada encontro tornava mais difícil ignorar. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. A lembrança da aula voltou sem esforço.A proximidade.O momento em que considerei, mesmo que por um segundo, cruzar uma linha que nunca deveria ser cruzada. E o pior não era isso. Era o fato de que eu ainda conseguia imaginar como teria sido. Soltei o ar devagar, irritado comigo mesmo. Porque no fundo, eu já sabia. Não era mais uma questão de evitar. Era uma questão de quanto tempo eu ainda conseguiria me controlar. E isso era exatamente o que me incomodava.
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