Regras impossíveis

1037 Words
Eu nunca demorei tanto pra me arrumar pra estudar. O que, por si só, já era ridículo. Fiquei parada na frente do espelho por tempo demais, segurando duas blusas como se aquilo realmente importasse. Como se escolher entre elas fosse mudar alguma coisa no que estava prestes a acontecer. — É só uma aula — murmurei, mais pra me convencer do que por acreditar. Mas não era. Era a primeira vez que eu ia ficar sozinha com Sebastian Graves desde aquela noite. Meu estômago apertou só de pensar. Joguei uma das blusas na cama e fiquei com a outra — um suéter simples, um pouco mais justo do que eu costumava usar. Casual o suficiente pra parecer que eu não estava tentando, mas não tanto a ponto de ser totalmente inocente. Passei a mão pelo cabelo, soltando os fios escuros pelos ombros. Respirei fundo, tentando acalmar aquela mistura estranha de nervosismo e expectativa que não parava de crescer. — Para de pensar nisso. Não adiantou. Porque minha mente voltou direto pra ontem. O toque, o olhar, a forma como ele hesitou… e como, mesmo assim, não se afastou. Peguei o celular, abrindo a conversa. As mensagens ainda estavam ali, simples demais pra carregar tudo o que existia por trás delas. Suspirei, jogando o aparelho na bolsa. — É só estudar. Dessa vez, nem eu acreditei. O caminho até lá pareceu mais longo do que deveria. Cada passo aumentava aquela sensação incômoda no peito, como se eu estivesse indo direto pra um problema que eu mesma tinha criado. Parei na frente do prédio por alguns segundos, encarando a entrada. Era só entrar. Mas, por algum motivo, parecia mais difícil do que deveria. Respirei fundo e finalmente empurrei a porta. A sala estava silenciosa, exatamente como eu esperava. Sebastian já estava lá, encostado na mesa, com a postura impecável de sempre. A camisa escura contrastava com a pele clara, e as mangas levemente dobradas davam a impressão de que ele estava tentando parecer mais acessível… sem realmente conseguir. Meu coração acelerou no instante em que ele levantou o olhar. Houve um segundo. Só um. Mas foi o bastante. O mesmo reconhecimento da primeira vez. A mesma tensão, rápida e inevitável. Tinha algo mais no olhar dele. Algo que me arrepiava. E então, como sempre, controle. — Você chegou — ele disse. Fechei a porta atrás de mim. — Eu disse que viria. Ele assentiu, como se isso fosse apenas o esperado. Caminhei até uma das cadeiras, colocando a bolsa sobre a mesa enquanto tentava ignorar a forma como o ar parecia mais pesado ali dentro. — Então… por onde a gente começa? O olhar dele mudou levemente, mais atento, mais focado. — A gente começa estabelecendo limites. Claro.Cruzei os braços de leve, já prevendo o discurso. — Isso aqui é apenas uma aula — ele continuou, se afastando da mesa e dando alguns passos pela sala. — Nada além disso. Sem distrações. Soltei um pequeno suspiro, quase imperceptível. — Difícil. Ele parou. — Isso inclui você. Um sorriso escapou antes que eu pudesse evitar. — Eu sou a distração? — Você é um problema. Meu coração acelerou de forma irritante. Dei um passo lento pela sala, aproximando um pouco mais. — Engraçado… porque você não parecia achar isso um problema antes. O silêncio que veio depois não foi confortável. Foi carregado. Ele não respondeu, mas a reação estava ali, mesmo que pequena demais pra qualquer outra pessoa notar. — Senta — ele disse por fim, em um tom firme. Obedeci, mas não sem sustentar o olhar por um segundo a mais. — A gente vai começar com o básico. Peguei o caderno e a caneta, tentando focar. Ele começou a explicar com calma, a voz estável, paciente de um jeito que eu não esperava. E, por alguns minutos, eu realmente tentei. Olhei pra folha, segui a lógica, repeti os passos mentalmente. Mas não demorou muito. A confusão voltou, como sempre. Franzi o cenho, apertando a caneta entre os dedos. — Eu não tô conseguindo. As palavras saíram baixas, frustradas. Ele se aproximou devagar. Parou ao meu lado, perto o suficiente pra que eu percebesse cada detalhe, o perfume, o calor, a presença. — Você está tentando do jeito errado — disse. Inclinei o rosto pra olhar pra ele. Não foi uma boa ideia porque agora ele estava perto demais. — Então me ensina do jeito certo. Por um instante, ninguém falou nada. Ele apoiou a mão na mesa, ao meu lado, me prendendo ali sem precisar tocar. — Foca em uma coisa de cada vez — explicou. — Não tenta resolver tudo de uma vez. Assenti, mas minha atenção já não estava mais na explicação. Estava nele. Na proximidade. Na forma como ele ainda não tinha se afastado. — Lissa. Meu nome saiu mais baixo do que deveria. — Você não está prestando atenção. Um sorriso leve escapou. — Eu tô tentando. Ele soltou o ar devagar, claramente perdendo um pouco do controle que tentava manter. E então... A mão dele se moveu, ele segurou a minha, guiando a caneta. Sua pele estava tão quente contra a minha, sentia que ele podia me deixar em chamas só com esse toque Meu corpo inteiro reagiu no mesmo instante. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. — É assim — ele disse, mas a voz não estava tão estável quanto antes. — Entendi. Mas eu não tinha entendido nada da matéria. Só sobre ele, só sobre como a respiração dele balançava alguns fios do meu cabelo e sobre como os olhos deles pareciam mais azuis quando ele estava concentrado. Só sobre o fato de que aquilo já não parecia mais uma simples aula. Ele soltou minha mão devagar, mas não se afastou imediatamente. Levantei o olhar. E ele já estava olhando. Sem desviar. Sua respiração estava mais rápida. — Isso não vai funcionar — disse, baixo. Meu coração acelerou. — A aula? Ele demorou um segundo. — Isso. Inclinei levemente a cabeça, um sorriso surgindo sem que eu tentasse impedir. — Então por que você ainda tá aqui, professor? Dessa vez, ele não respondeu. E o silêncio entre a gente disse mais do que qualquer resposta poderia.
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