Fora de controle

1836 Words
Quando cheguei ao pátio com a Lia, senti o olhar dela queimando do meu lado. Com certeza eu teria virado churrasco se dependesse desse olhar. — Ok — ela falou, assim que nos afastamos o suficiente de todos. — O que. foi. isso. Suspirei. — Nada. — Não mente pra mim. Olhei pra frente tentando ignorar as sensações que tinham ficado, mesmo depois de ter ido embora — A gente só tava conversando. — Mentira. — Lia... — Lissa. — ela me interrompeu. Parei e cruzei os braços. — Se isso é vocês “conversando”… — ela inclinou a cabeça — …eu não quero nem imaginar a aula particular. — Cala a boca. — joguei meu ombro contra ela, que riu e então se aproximou um pouco mais, abaixando a voz: — Você tá brincando com fogo. Respirei fundo e olhei pra trás por impulso, ele ainda estava lá encostado na porta da sala, observando. — Eu sei — murmurei. Mas mesmo assim Eu não ia parar. *** O silêncio do apartamento era… estranho. Cheguei jogando a bolsa no sofá, tirando os sapatos sem nem olhar direito onde caíam. O lugar era bonito — moderno, organizado, do jeito que qualquer pessoa consideraria perfeito. Mas não parecia… meu. Suspirei, passando a mão pelo rosto. A sensação de fracasso ainda estava ali, grudada em mim como se não tivesse intenção nenhuma de ir embora. E pior era Sebastian. A forma como ele tinha me olhado, jeito como tinha hesitado. Me Joguei no sofá e fechei os olhos por um segundo. Como em um único dia pode acontecer tanta merda. Meu celular vibrou do tapete, Franzi o cenho, pegando ele sem muita vontade Número desconhecido. Precisamos definir horários para as aulas. Sebastian, claro. Direto e profissional, revirei os olhos automaticamente. Mordi o lábio, pensando por um segundo pensando qual seria a melhor resposta. Engraçado, achei que você ia me dizer que isso foi uma péssima ideia - Lissa O símbolo de digitando veio quase no mesmo instante que enviei. Isso continua sendo uma péssima ideia. - Sebastian Sorri. Claro que era. E mesmo assim você me mandou mensagem - Lissa Por alguns segundos o "digitando" sumiu e apareceu várias vezes, eu so podia imaginar ele pensando na resposta ou pensando em não responder. Eu disse que ia te ajudar. - Sebastian Sem graça, ele estava sendo tão controlado. Mas eu conseguia sentir o esforço ali. — Claro que disse… — murmurei, digitando de novo. Só ajudar? - Lissa Dessa vez demorou mais. Muito mais. Sorri de lado e me ajeitei no sofá. Lissa. - Sebastian Só isso, só meu nome, parecia um aviso. Como se dissesse: não começa. Ri baixo eu ia começar sim. Mas antes que eu pudesse responder outra mensagem apareceu. E dessa vez meu sorriso sumiu. Precisamos conversar Hoje Não está funcionando. - Pai Meu estômago afundou na hora Estou na cidade. Quero te ver.- pai Respirei fundo. Tinha que ser hoje, meu dia não tinha sido r**m o bastante ele ainda tinha que acabar com minha noite. Fechei os olhos, tentando ignorar aquela sensação antiga voltando, minha velha amiga. Não me faça repetir. -pai Soltei o ar devagar. Levantei do sofá, pegando a bolsa de novo sem pensar muito. Até porque eu já sabia que aquilo não ia acabar bem. *** O restaurante era caro demais. Claro que era, Meu pai nunca fazia nada simples, quando parei na porta me arrependi de nao ter pelo menos trocado de roupa, ou de tomar um banho. Já ia ser humilhada pela meu histórico acadêmico, não precisava também ser humilhada por estar maltrapilha. Ele já estava lá quando cheguei a postura impecável e o olhar crítico, o mesmo de sempre. — Você demorou. Nem um “oi”, nem um “como você está”. — Eu vim o mais rápido que pude. Ele me analisou de cima a baixo. Como se estivesse avaliando um erro. — Isso aqui… — ele gesticulou vagamente — não parece esforço. Respirei fundo. — O que você quer? Ele encostou na cadeira, cruzando as mãos. — Eu vi suas notas. - Bem direto ao ponto, como sempre. — Não é surpresa. Lógico ué não era, ele nunca esperou nada de mim além de decepção. E eu fiz juz a isso. — Eu tô tentando — comecei, mas nem eu acreditava nessas palavras. — Tentando não é suficiente. — fiquei em silêncio. Não tinha o que eu pudesse falar. — Eu não vou continuar pagando por isso. Meu coração apertou. — Por isso? — Por você — ele gesticulou na minha direção como quem dispensa um garçom. — Você naquele lugar só está desperfiçando meu dinheiro, e meu tempo. Engoli seco. — Eu não estou desperdiçando... — Está. — Ele me cortou, a voz seca e fria. — Então eu já tomei uma decisão. Meu estômago afundou. — Que decisão? — Ele me encarou sem emoção. — Você vai sair da faculdade. O mundo pareceu parar. — O quê? — Eu não vou investir em algo que claramente não funciona. — Minha respiração falhou. Ele nem olhou pra mim ao dizer isso. — Você não pode fazer isso. — Posso. — claro que podia, ele sempre fazia o que queria, sem nunca me dar uma chance de escolha. — Vou te mandar para a casa da sua tia — continuou. — Lá você pode aprender disciplina de verdade. Meu peito apertou. — Isso não é justo. — Justiça não tem nada a ver com isso. —Levantei rápido demais minha visão ficou embaçada, e eu fiquei sem equilíbrio. — Eu não vou. — Vai sim. — NÃO! Algumas pessoas olharam em nossa direção, eu não me importei. Mas ele sim, soltei um riso sarcastico, claro que ele se importava mais com a opinião dos estranhos das outras mesas do que comigo. — Você não pode controlar minha vida desse jeito! — falei em um tom mais decidido. Que meu pai entendeu como uma afronta maior do que minhas palavras. Então ele levantou também. — Eu já controlo. - Disse, Calmo e frio. Aquilo foi o suficiente. Eu não pensei, só virei e sai. Ouvi a voz dele atrás de mim, mas não fez diferença, eu não conseguia entender o que ele dizia mesmo. O ar lá fora parecia pesado demais, difícil de respirar. Andei sem direção, tentando fugir. Eu não sabia nem do que está a fugindo, não sabia se estava fugindo do meu pai, das suas palavras, ou da decepção constante que eu via sempre que olhava nos olhos dele. Nem percebi quando comecei a chorar, só percebi quando o vento deixou meu rosto gelado, passei a mão no rosto, irritada. Mas não adiantava, mesmo que eu limpasse todas essas lágrimas, essa maldita sensação ainda estaria aqui. — Lissa? Congelei, por quê, por que agora. Me virei devagar, e lá estava ele. Como se tivesse saído direto dos meus pensamentos mais imorais. Com o cabelo castanhos bagunçado e a camisa social meio aberta. — O que você tá fazendo aqui? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Meu coração ao contrário batia forte. Ele franziu levemente o cenho. — Eu poderia perguntar o mesmo. — Dei um riso sem humor. — Longa história. — ele cruzou os braços e me observou. — Você chorou. Não era uma pergunta. Desviei o olhar. — Não é nada. — Não parece nada. — fiquei em silêncio, ainda sem conseguir olhar pra ele. — Vem comigo — ele disse. Franzi o cenho. — O quê? — Eu preciso comer. Vem comigo. — ele parecia preocupado, o que me fazia ter vontade de provoca-lo mas nesse momento eu só queria ir embora. — Eu não tô com fome. — disse por fim. — Eu não perguntei. Olhei pra ele. Sério? Como ele podia ser tão autoritário quanto meu pai? E isso me deixou irritada. — Agora nao é um bom momento. — disse, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia. Ele sustentou meu olhar. — Eu sei. Droga — Então por que... — Porque você parece precisar de companhia, e talvez de um shot. — Hesitei, eu realmente não estava no clima. Mas isso era melhor do que a outra opção. — Tá. — disse por fim. O restaurante era mais simples. Mais… normal. Diferente do outro. É apesar de estar muito mais cheio esse era menos sufocante. Sentei na frente dele, ainda meio perdida. — Quer falar? — ele perguntou. Fiquei em silêncio por alguns segundos, talvez não fosse uma boa ideia mostrar pra ele que sou um fracasso. Mas ele estava ali, parecendo sinceramente preocupado. Com aqueles olhas azuis que que pareciam ler minha alma Então eu falei Sobre meu pai. Sobre as notas. Sobre a sensação constante de não ser suficiente. Sobre tudo. E, pela primeira vez alguém ouviu. Sem interromper ou me julgar. Quando terminei, me senti… mais leve. Só um pouco, mas foi o suficiente — Ele está errado — Sebastian disse, firme. — Você não conhece ele. E você já disse isso. — Eu conheço você. — Meu coração falhou uma batida. — E você não é um fracasso. Engoli seco. — Você não pode saber disso, não me conhece realmente. Tirando aquela noite, e minha péssima nota de hoje, voce não sabe nada sobre mim. Ele se inclinou levemente pra frente. — Tem razão. — ele pausou, pensativo. — então me conte quem é você. O que eu preciso saber sobre você? — eu não respondi, o que eu tinha pra contar. No final eu era tudo que meu pai achava — Confia em mim — ele disse, colocando sua mao sobre a minha. Meu coração acelerou. Eu queria confiar, naquele momento tudo o que eu queria era poder confiar. Mas era tão difícil. — Tá. — soltei quase num sussurro. — Eu confio. Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele. Não sabia se era a decisão certa, mas esse sorriso me fez acreditar que podia ser — Então a gente começa amanhã — ele disse. Eu assenti. — Amanhã. E pela primeira vez, talvez, Eu não estivesse completamente perdida. Quando saímos do restaurante, o ar parecia diferente. Mais leve. Ou talvez fosse só eu. — Obrigada — falei, olhando pra ele. Ele deu de ombros. — Não agradece ainda — franzi o cenho. — Por quê? Ele se aproximou um pouco. O vento trazendo o cheiro do seu perfume até mim. — Porque você ainda não viu o que eu vou exigir de você. — Meu coração acelerou. — Isso é uma ameaça? — provoquei, o olhar dele escureceu levemente. — Um aviso. — Prometo tentar não te causar problemas, professor. — Você já é um problema. — ele disse sério, mas eu consegui perceber o tom malicioso na última palavra. Problema. Meu pai já tinha me chamado disso tantas vezes. Mas vindo dele, era diferente, fazia meu corpo aquecer e meu coração acelerar.
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