Sem saída

2099 Words
— Hoje teremos uma avaliação. O silêncio foi imediato, era como se a sala tivesse se esvaziado completamente Levantei o olhar devagar, sentindo o estômago afundar antes mesmo de processar completamente o que ele tinha dito. Sebastian Graves estava encostado na mesa, braços cruzados, expressão neutra, como sempre. Ele não olhou nenhum vez pra mim, mas nesse momento eu até agradecia por isso, porque ele acabava de destruir o meu dia. — Não é uma prova comum — continuou, a voz firme preenchendo a sala. — Quero apenas entender até onde vocês conhecem o conteúdo atual. Perfeito, exatamente o tipo de coisa que eu NÃO precisava, minhas mãos já estavam fria e meu coração acelerado. — Não espero perfeição — ele continuou, andando lentamente entre as fileiras enquanto deixava as folhas — Mas espero esforço. Soltei um riso baixo sem humor nenhum. Esforço, se esforço resolvesse, minha vida seria completamente diferente. — Podem considerar isso… — ele fez uma breve pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado — …um ponto de partida. — Ponto de partida pra quem sabe por onde começar — sussurrei, baixo o suficiente pra que ninguém ouvisse. Ele continuava distribuindo as folhas, como se não estivesse prestando atenção em nada além do próprio trabalho. Mas quando chegou perto da minha mesa eu senti a presença dele. Meu corpo inteiro ficou tenso, ele colocou a prova na minha mesa sem olhar, ele quase nunca dirigia o olhar para mim, mas dessa vez ele demorou meio segundo a mais do que deveria. E isso já foi suficiente pra bagunçar tudo dentro de mim. Respirei fundo, tentando ignorar, tentando focar. Talvez pelo menos dessa vez, eu podia não ser um completo desastre. Olhei pra folha, as palavras estavam ali, claras e organizadas. Faziam sentido, Eu sabia que faziam. Mas, ainda assim pareciam distantes. Como se existisse uma barreira invisível entre mim e qualquer coisa que exigisse concentração real. Franzi o cenho e li de novo e de novo, nada. Minha mente começava a se perder, meus pensamentos se atropelaram e minha ansiedade começou a subir. Tinha certeza de que meu coração ia sair pela garganta. — Respira… — murmurei baixinho pra mim mesma. Não ajudou, olhei ao redor. Todo mundo escrevendo, todo mundo entendendo. Menos eu, apertei a caneta com mais força, eu não estava achando nem por onde começar. E, como sempre…Veio aquela sensação, sufocante, "você não consegue." Essas palavras giravam na minha mente, fechei os olhos por um segundo. Droga. Droga. Droga. Tentei escrever alguma coisa, mas quanto mais eu tentava, pior ficava. Olhei em volta de novo, todos estavam concentrados, Sebastian estava com o rosto focado enquanto analisava vários papéis — Últimos cinco minutos — a voz dele ecoou pela sala, o tempo passou rápido demais, sempre passava, meu estômago virou. Cinco minutos? Eu m*l tinha começado, olhei pra folha estava praticamente em branco. Como sempre né. Respirei fundo, sentindo os olhos arderem. Andei de vagar até a mesa de Sebastian e entreguei a folha sem olhar, Sem querer ver a expressão dele. Não que me importasse o que ele ia pensar de mim. Assim que ele saiu, a sala foi esvaziando aos poucos, eu fiquei sentada, Parada no mesmo lugar olhando pra mesa como se tivesse alguma resposta escondida ali. Eu não sei quanto tempo passei aqui, mas foi tempo suficiente pra ele voltar Sebastian entrou a Passos firmes e calmos. Meu corpo reagiu antes da minha mente, merda era só o que faltava. Ele entrou na sala sem falar nada, indo direto até a mesa dele. provavelmente pra pegar alguma coisa. Fiquei torcendo mentalmente pra ele não reparar que eu estava aqui, engoli seco, tentando ignorar. Mas quando ouvi o barulho das provas sendo organizadas, meu coração apertou, eu não queria ver, não precisava. Mas ainda assim… Quando ele passou por mim e deixou a folha sobre a mesa eu olhei com esperança, erro. Um grande, enorme e previsível erro. F De novo Minha visão ficou embaçada e eu soltei uma risada fraca, sem humor nenhum. — Claro… — sussurrei pra mim mesma. Minhas mãos começaram a tremer levemente. Não. Não aqui. Não na frente dele. Mas os olhos arderam e dessa vez eu não consegui segurar e uma lágrima caiu. Eu me sentia ridícula como eu ia querer seduzir alguém agindo de forma tão patética na sua frente. Passei a mão rápido, tentando limpar, mas veio outra e outra. Não acredito que estava chorando por causa de uma nota. Levantei, tentando sair dali o mais rápido possível. Mas minha visão ainda estava embaçada e minha cabeça… pior ainda. — Senhorita Blake. — eu congelei, ele falou baixo mas sua voz vinha de perto — Droga — resmunguei, respirei fundo e passei a mão no rosto antes de me virar. — Professor. Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria e ele percebeu, claro que percebeu, sebastian me observou em silêncio com um olhar preocupado, quase amistoso. — Você esqueceu seu material — ele disse, indicando a minha mesa, era mentira, eu não tinha esquecido nada. Se não fosse a atitude distante dele, eu diria que ele estava procurando um motivo. Assenti mesmo assim. — Obrigada. Fui até a mesa, pegando qualquer coisa só pra não ficar parada. O silêncio tava ficando desconfortável e eu só precisava sair dali, só isso. Mas quando passei por ele tentando chegar na porta... — Lissa. — Parei, fechei os olhos por um segundo. Droga. Droga. Droga. — Sim? — falei, tentando deixar minha voz estável. Ele hesitou por um instante e isso já era estranho o suficiente. — Você quer… — ele começou, mas parou. — Quer falar sobre isso? Soltei um riso baixo e sem humor. — Sobre o quê? — levantei a folha levemente. — Isso aqui não é novidade. Ele não respondeu de imediato, só me observou como se estivesse tentando entender algo além do óbvio. — Você não é burra — disse, finalmente. Franzi o cenho. — Engraçado. Porque todos os meus boletins discordam. — Notas não medem inteligência. — Mas medem fracasso. — Meu peito apertou de novo. — Eu sempre fui assim. Tento… travo… desisto.— Desviei o olhar. — Meu pai adora lembrar disso.— As palavras saíram mais fáceis do que deveriam. Mais pesadas também. — Ele diz que eu sou desperdício. O silêncio que veio depois foi diferente. Mais sério. Quando levantei o olhar de novo Sebastian não parecia mais indiferente ele parecia… irritado. — Ele está errado. — Claro. — disse sarcasticamente. — Você não sabe direcionar sua atenção — ele continuou, ignorando meu tom. — Mas isso não significa que você não seja capaz. — É fácil falar isso quando não é você. — Eu não estaria dizendo se não acreditasse. Sustentei o olhar dele tentando entender. tentando decidir se aquilo era só… pena mas não parecia. E isso bagunçava mais ainda. — Não faz diferença — murmurei. — Eu vou reprovar de qualquer jeito. Ele ficou em silêncio por um segundo, parecia estar calculando alguma coisa. — Não necessariamente. Franzi o cenho. — O que quer dizer? Ele cruzou os braços, postura voltando ao controle, mas o olhar ainda estava ali. — Você precisa de orientação — disse. — Alguém que te ajude a organizar isso. Meu coração acelerou levemente. — Tipo… aulas extras? — perguntei, como se fosse só uma ideia qualquer. — Exatamente. Soltei o ar, desviando o olhar. — Não vai rolar. — Por quê? Dei de ombros. — Minha família não vai pagar por algo que eles já consideram perdido Eu podia praticamente ouvir os pensamentos dele. O conflito com a lógica — Eu posso ajudar. Levantei o olhar rápido. — Como? — ele hesitou denovo, mas dessa vez eu vi. Ele sabia que era uma má ideia. Sabia exatamente o que estava fazendo e mesmo assim.. — Eu posso te dar aulas. — Meu coração disparou mas mantive a expressão neutra. — Professor… — Fora do horário — ele completou. — Como orientação acadêmica, claro. Respirei fundo, segurando o sorriso que queria aparecer. Meu plano estava funcionando e eu nao precisei fazer praticamente nada. Eu me esforcei muito pra me controlar não podia parecer fácil, não podia parecer que eu queria isso. — Isso não seria… — inclinei a cabeça — …um problema? O olhar dele escureceu levemente. — Eu sei manter limites. Sorri de leve no meio das lágrimas ainda não completamente secas. — Talvez… — dei um pequeno passo mais perto — …você esteja se jogando na fogueira. Os olhos dele ficaram presos nos meus. O ar da sala parecia pesado — Talvez — ele respondeu, baixo. Meu coração acelerou. — Ou talvez… — continuei, ainda mais suave — …seja um erro a gente passar tanto tempo junto. Dessa vez ele não respondeu imediatamente e isso disse tudo, porque pela primeira vez Sebastian Graves não parecia totalmente no controle. O silêncio entre a gente ficou inquietante, mais… íntimo do que deveria. Ele ainda estava olhando pra mim. Não como professor, como antes, como na noite passada. E isso foi o suficiente pra fazer meu coração acelerar de um jeito que eu odiava… e gostava ao mesmo tempo. — Você gosta de provocar — ele disse, baixo, quase como uma constatação. Inclinei levemente a cabeça. — Só quando vale a pena. O canto da boca dele se moveu. Quase um sorriso, quase. — Isso não é um jogo, Lissa. — Tem certeza? — Dei mais um passo, pequeno mas suficiente. Agora eu conseguia sentir o calor dele, a respiração. O perfume que ele estava usando me fazia lembrar ainda mais de ontem. — Porque parece muito com um. Os olhos dele me mandavam um sinal de alerta. — Você não entende no que está se metendo. — Então me explica. Sebastian não respondeu mas também não se afastou. Desci meu olhar por um segundo, devagar, e voltei. — Ontem… — murmurei, pondo meu indicador em seu peito— você não parecia tão preocupado com limites. Foi um erro, ou talvez não, porque a reação dele foi imediata, sua mandíbula travou e a respiração ficou um pouco mais pesada, ele segurou meu pulso rápido. Meu corpo se arrepiou com o toque, seu aperto, era firme, quase forte de mais. — Não traz ontem pra dentro dessa sala — ele disse, baixo, perto demais. Meu coração disparou mas eu não recuei — Por quê? — sussurrei. — Porque você sabe que não consegue fingir? A mão dele apertou um pouco mais meu pulso. Estava começando a doer, ele estava perdendo o último resquícios de controle. — Você deveria parar — ele disse. Mas a voz não combinava com as palavras, dei um meio sorriso. — Você também. Os olhos dele seguiam cada minúsculo movimento meu, e então ele se aproximou, só um pouco, só suficiente pra bagunçar completamente meus pensamentos minha respiração falhou. — Isso é exatamente o tipo de erro que destrói carreiras — ele murmurou. — E mesmo assim… — me aproximei do ouvido dele e baixei a voz — …você não tá indo embora. A mão dele ainda estava no meu pulso, mas agora está mais suave. Como se estivesse percebendo o que estava fazendo. E, ao mesmo tempo sem vontade de soltar. — Lissa... — ele disse num suspiro. — EI! — A voz veio de trás e parecia próxima demais. Nós dois nos afastamos no mesmo instante num movimento brusco que me fez cambalear. Sebastian se moveu pra me ajudar mas se conteve no mesmo instante que eu segurei na mesa Eu reconheci a voz, Lia. Claro que era a Lia. — Amiga! — ela entrou na sala sem cerimônia nenhuma, olhando de mim pra ele e depois de volta pra mim. — Você sumiu! Passei a mão no cabelo, tentando parecer normal e controlando minha respiração. — Eu… só tava pegando minhas coisas. Lia estreitou os olhos. Claramente não acreditando. — Uhum. — Um silêncio estranho se alastrou na sala, ela olhou pra Sebastian de cima a baixo e sem nenhum tipo de vergonha. — Professor. Ele assentiu levemente já estava completamente recomposto, distante. Como se os últimos minutos nunca tivessem existido. Era completamente irritante, mas me deixou impressionada — Senhorita. Revirei os olhos internamente. — A gente tava te esperando — Lia voltou pra mim. — Vai demorar? — Não, já tava de saída. Peguei minha bolsa, e passei por ele mantendo minha personalidade mais fria. Assim que cheguei na porta. Virei a cabeça, só um pouco — Obrigada por me ajudar com a matéria professor. Estou ansiosa pelas nossas aulas
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