Capítulo 18
Maria Júlia (Maju) narrando
Sábado costumava ser o único dia em que eu conseguia colocar a casa em ordem sem precisar correr contra o relógio.
Naquela manhã, Luiza não tinha creche e aproveitei enquanto ela ainda dormia para começar a faxina.
Abri as janelas, tirei o pó dos móveis, lavei o chão e organizei a cozinha. Não era exatamente uma casa grande, mas parecia que a bagunça se multiplicava sozinha. Meu pai não ajudava em absolutamente nada e, desde que tudo aquilo começou, eu praticamente carregava aquela casa nas costas.
Quando terminei a cozinha, fui preparar o almoço.
Fiz arroz, feijão e uma carne simples que tinha comprado no dia anterior. Separei o prato da Luiza antes mesmo de colocar o meu na mesa.
Ela apareceu alguns minutos depois, ainda descabelada, esfregando os olhos.
— Bom dia, mana.
— Bom dia, preguiçosa.
Ela sorriu e se sentou.
— Tem carne?
— Tem.
— Bastante?
Ri.
— Tem o suficiente para você parar de reclamar.
Ela começou a comer toda contente, e por alguns minutos consegui esquecer completamente os problemas.
Até ouvir batidas no portão.
Limpei as mãos no pano de prato e fui abrir.
Cecília estava do outro lado.
— Você tá fazendo faxina em pleno sábado?
Olhei para ela de cima a baixo.
— Alguém precisa fazer.
— Eu faria isso ontem e passaria o sábado inteiro sem fazer nada.
— Parabéns pela organização.
Ela entrou rindo.
— Você está ficando muito m*l-humorada.
— Culpa sua.
— Minha?
— Sua.
Ela apontou para mim.
— Tá vendo? O Terror já está transformando você.
Meu sorriso desapareceu imediatamente.
Cecília percebeu que tinha tocado no assunto errado.
— Desculpa.
Balancei a cabeça.
— Tudo bem.
Ela olhou para Luiza, que continuava comendo.
— A gente podia sair um pouco hoje.
— Não.
A resposta saiu tão rápido que ela nem precisou perguntar o motivo.
— Maju...
— Não quero ficar andando por aí.
— Você não pode passar o resto da vida dentro dessa casa.
— Posso, sim.
— Não pode.
Ela se aproximou.
— Você precisa respirar um pouco.
Luiza levantou os olhos do prato.
— Eu quero sair!
Olhei para ela.
— Você também?
Ela assentiu com tanta força que quase derrubou o copo.
Cecília começou a rir.
— Pronto. Agora somos duas contra uma.
— Vocês são duas traidoras.
Luiza bateu palmas.
— Quero ir na pracinha!
Acabei sorrindo.
— Depois do almoço.
— Eba!
Cecília comemorou.
— Sabia que eu convenceria você.
— Não se acha.
Foi quando ouvimos passos descendo a escada.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Meu pai apareceu no alto dos degraus, ainda com aquela aparência de quem tinha acabado de acordar.
Olhou para Cecília.
Depois para mim.
— Essa garota aqui de novo?
Cecília respirou fundo.
— Bom dia para você também.
Ele ignorou.
— Não quero gente enchendo a casa.
Minha paciência estava por um fio.
— Ela é minha amiga.
— Eu sei muito bem quem ela é.
Cecília se aproximou de mim.
— Vamos deixar ele falando sozinho.
Peguei a bolsa de Luiza e respirei fundo.
— Vamos.
Saímos antes que aquela conversa virasse outra discussão.
A pracinha ficava a poucos minutos de casa.
Era simples, mas tinha alguns brinquedos novos, bancos e um espaço onde as crianças podiam correr.
Assim que chegamos, Luiza avistou uma coleguinha e correu para brincar.
Fiquei observando enquanto Cecília se sentava ao meu lado.
Por alguns segundos, nenhuma de nós falou.
Até ela quebrar o silêncio.
— Você não pode continuar aceitando tudo calada.
Olhei para ela.
— Eu não tenho escolha.
— Sempre existe escolha.
— Não quando alguém tem uma criança dependendo de você.
Ela ficou quieta.
Eu sabia que ela entendia.
— Você sabe o que mais me irrita?
Perguntei.
— O quê?
— Todo mundo acha que eu estou vivendo isso porque quis.
Baixei os olhos.
— Ninguém pergunta o que aconteceu antes.
Cecília segurou minha mão.
— Eu sei que você não escolheu.
Meu peito apertou.
— Eu sinto falta de quando minha maior preocupação era pagar uma conta atrasada.
Ela sorriu tristemente.
— E eu sinto falta da Maju que brigava comigo por qualquer besteira.
Ri baixo.
— Essa ainda existe.
— Então deixa ela aparecer de vez em quando.
Antes que eu pudesse responder, uma voz masculina surgiu atrás de nós.
— E aí, vocês duas.
Cecília virou imediatamente.
PH estava parado ali, com aquele sorriso de quem sempre parecia saber mais do que deveria.
— Você aqui?
Ela se levantou.
— Vim acompanhar a Maju.
Ele olhou para mim.
— Terror mandou avisar que hoje vai ter baile.
Meu coração acelerou.
— E eu tenho alguma coisa a ver com isso?
PH soltou uma risada curta.
— Ele quer você lá.
— Eu não vou.
— Eu só estou passando o recado.
Cecília olhou para mim com curiosidade.
— Você vai?
— Não sei.
PH balançou a cabeça.
— Ele falou que você vai.
— Então ele está enganado.
— Fala isso para ele.
Ele se afastou alguns passos, mas antes de ir olhou novamente para mim.
— E Maju...
— O quê?
— Não inventa de sumir.
Revirei os olhos.
— Eu não sou criança.
— Eu sei.
Ele sorriu de canto.
— É justamente esse o problema.
Cecília esperou ele se afastar.
Depois virou para mim com um sorriso malicioso.
— Então...
— Nem começa.
— O Terror quer você no baile.
— Eu ouvi.
— E você vai?
Olhei para Luiza brincando na areia.
Depois para o movimento do morro ao nosso redor.
Suspirei.
— Eu não faço ideia.
Meu celular vibrou dentro da bolsa.
Peguei o aparelho.
Uma única mensagem.
Terror: Hoje, oito da noite. Quero você na boca.
Meu estômago embrulhou.
Cecília percebeu minha expressão.
— Foi ele?
Apaguei a tela.
— Foi.
— E aí?
Olhei novamente para minha irmã.
— Pelo jeito, meu sábado acabou de ganhar outro compromisso.