Capítulo 9
Maria Júlia (Maju) narrando
Acordei antes mesmo do despertador tocar.
Passei alguns segundos encarando o teto do quarto, tentando convencer a mim mesma de que tudo aquilo tinha sido apenas um pesadelo.
Que eu abriria a porta do quarto e encontraria minha vida exatamente como era dois dias atrás.
Que eu ainda teria meu emprego.
Que meu pai não teria colocado nossa família em uma dívida impagável.
Que o Terror nunca teria cruzado o meu caminho.
Mas bastou me mexer na cama para a realidade voltar como um soco no estômago.
Fechei os olhos por alguns segundos e respirei fundo.
Não adiantava chorar.
A Luiza dependia de mim.
Levantei devagar para não acordá-la. Escovei os dentes, prendi os cabelos em um coque desajeitado e fui até a cozinha.
A casa estava silenciosa.
Meu pai continuava dormindo profundamente, largado no sofá da sala, cercado por garrafas de cerveja vazias e cinzeiros cheios.
Ignorei aquela cena.
Abri os armários.
Quase não havia comida.
Restava apenas um pouco de café, alguns pães amanhecidos e um pacote de bolachas que eu guardava para a Luiza.
Abri a geladeira.
Vazia.
Respirei fundo novamente.
Meu plano era deixá-la na creche e depois ir ao mercado no asfalto. Tudo lá era mais barato, e eu conseguiria fazer uma compra que durasse pelo menos algumas semanas.
Enquanto organizava a cozinha, meus olhos caíram sobre a cômoda da sala.
Lembrei imediatamente do dinheiro.
Subi até meu quarto e abri a gaveta.
As notas continuavam exatamente onde eu tinha deixado.
Mil reais.
Dinheiro suficiente para comprar comida, roupas novas para a Luiza, uma mochila que ela tanto queria e ainda sobraria alguma coisa.
Estendi a mão.
Mas não consegui tocar.
Na minha cabeça, aquelas notas tinham peso.
Carregavam a lembrança do pior dia da minha vida.
Fechei a gaveta rapidamente.
— Eu não quero esse dinheiro...
Murmurei para mim mesma.
Mesmo sabendo que precisava desesperadamente dele.
Voltei para o quarto da Luiza.
Ela continuava dormindo abraçada ao ursinho velho que ganhou no aniversário.
Sorri sem perceber.
— Princesa...
Passei a mão em seus cabelos.
— Hora de acordar.
Ela resmungou.
Virou para o outro lado.
— Só mais cinco minutinhos...
Ri baixo.
— Você fala igual uma velhinha.
Ela abriu um olho.
— Eu tô com sono.
— Eu sei.
Mas a escola não espera.
Depois de muita negociação, consegui convencê-la a levantar.
Preparei seu banho.
Escolhi uma roupa bonita.
Arrumei seus cachos.
Coloquei um laço cor-de-rosa que ela adorava.
Quando terminava de fechar sua mochila, ela fez um biquinho.
— Mana...
— Hum?
— Você esqueceu de comprar minha mochila nova.
Olhei para a mochila rasgada.
A costura das laterais já estava praticamente aberta.
Meu coração apertou.
— Não esqueci.
Só não consegui ainda.
Mas eu prometo...
Vou comprar.
Ela sorriu inocentemente.
— Promessa?
Estendi o dedo mindinho.
— Promessa.
Ela entrelaçou o dedo no meu.
— Promessa de irmã.
Beijei sua testa.
— Promessa de irmã.
Saímos de casa de mãos dadas.
O sol ainda estava fraco e o morro começava a despertar.
Comércios abrindo.
Música tocando ao longe.
Vapores assumindo seus postos.
Era uma rotina comum para qualquer morador.
Menos para mim.
Eu tinha a sensação de que todos olhavam na minha direção.
Como se soubessem que alguma coisa havia mudado.
Talvez fosse apenas paranoia.
Ou talvez...
Realmente soubessem.
Chegamos à creche.
A professora recebeu a Luiza com um sorriso.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ela olhou para mim.
— Hoje consegue buscá-la no horário?
Senti vergonha ao lembrar do atraso do dia anterior.
— Consigo.
Pode ficar tranquila.
Luiza me abraçou.
— Tchau, irmã.
— Se comporta.
Ela sorriu.
— Sempre.
Observei minha irmã entrar correndo para encontrar os coleguinhas.
Era por ela.
Tudo aquilo era por ela.
Peguei o celular.
Havia várias mensagens da Cecília perguntando por que eu tinha desaparecido no dia anterior.
Respirei fundo.
Respondi apenas:
"Depois a gente conversa."
Guardei o aparelho e continuei andando em direção à saída do morro.
Foi quando um vapor atravessou meu caminho.
— Maju.
Parei.
— Oi.
Ele manteve a expressão séria.
— Você não pode sair.
Franzi a testa.
— Como é?
— São ordens.
Olhei para os lados sem acreditar.
— Ordens de quem?
— Do Terror.
Meu sangue gelou.
— Isso é brincadeira?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Cruzei os braços.
— Eu preciso ir ao mercado.
— Tem mercado aqui.
— Aqui é muito mais caro.
— Mesmo assim.
Você não pode sair.
Respirei fundo tentando manter a calma.
— Eu tenho esse direito.
Dei um passo para continuar andando.
O vapor imediatamente bloqueou minha passagem.
— Eu falei que não.
Olhei para ele completamente indignada.
— Vocês enlouqueceram?
Nesse instante ouvi passos atrás de mim.
— O que está acontecendo aqui?
Reconheci a voz imediatamente.
Virei.
Paulo Henrique caminhava na nossa direção.
— PH...
Falei quase implorando.
— Esse rapaz está dizendo que eu não posso sair do morro.
Ele parou ao meu lado.
Olhou para o vapor.
Depois para mim.
Seu semblante ficou sério.
— Ele está certo.
Meu coração afundou.
— Você também?
— São ordens do Terror.
Passei as mãos pelos cabelos, completamente nervosa.
— Eu só queria fazer compras.
— Compra aqui.
— Eu não tenho dinheiro para comprar aqui!
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Algumas pessoas começaram a olhar.
PH respirou fundo.
— Maju...
Não dificulta.
— Não dificulta?
Olhei diretamente nos olhos dele.
— Vocês não podem decidir para onde eu vou ou deixo de ir.
Eu não sou prisioneira.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois levou a mão até o rádio preso em sua cintura.
Ouvi apenas algumas palavras baixas.
Quando terminou, voltou a me olhar.
— O Terror quer falar com você.
Meu estômago revirou.
— Eu não quero falar com ele.
— Não é um pedido.
Engoli em seco.
PH suspirou.
— Vamos subir.
Ele está esperando você na boca.