Capítulo 9

988 Words
Capítulo 9 Maria Júlia (Maju) narrando Acordei antes mesmo do despertador tocar. Passei alguns segundos encarando o teto do quarto, tentando convencer a mim mesma de que tudo aquilo tinha sido apenas um pesadelo. Que eu abriria a porta do quarto e encontraria minha vida exatamente como era dois dias atrás. Que eu ainda teria meu emprego. Que meu pai não teria colocado nossa família em uma dívida impagável. Que o Terror nunca teria cruzado o meu caminho. Mas bastou me mexer na cama para a realidade voltar como um soco no estômago. Fechei os olhos por alguns segundos e respirei fundo. Não adiantava chorar. A Luiza dependia de mim. Levantei devagar para não acordá-la. Escovei os dentes, prendi os cabelos em um coque desajeitado e fui até a cozinha. A casa estava silenciosa. Meu pai continuava dormindo profundamente, largado no sofá da sala, cercado por garrafas de cerveja vazias e cinzeiros cheios. Ignorei aquela cena. Abri os armários. Quase não havia comida. Restava apenas um pouco de café, alguns pães amanhecidos e um pacote de bolachas que eu guardava para a Luiza. Abri a geladeira. Vazia. Respirei fundo novamente. Meu plano era deixá-la na creche e depois ir ao mercado no asfalto. Tudo lá era mais barato, e eu conseguiria fazer uma compra que durasse pelo menos algumas semanas. Enquanto organizava a cozinha, meus olhos caíram sobre a cômoda da sala. Lembrei imediatamente do dinheiro. Subi até meu quarto e abri a gaveta. As notas continuavam exatamente onde eu tinha deixado. Mil reais. Dinheiro suficiente para comprar comida, roupas novas para a Luiza, uma mochila que ela tanto queria e ainda sobraria alguma coisa. Estendi a mão. Mas não consegui tocar. Na minha cabeça, aquelas notas tinham peso. Carregavam a lembrança do pior dia da minha vida. Fechei a gaveta rapidamente. — Eu não quero esse dinheiro... Murmurei para mim mesma. Mesmo sabendo que precisava desesperadamente dele. Voltei para o quarto da Luiza. Ela continuava dormindo abraçada ao ursinho velho que ganhou no aniversário. Sorri sem perceber. — Princesa... Passei a mão em seus cabelos. — Hora de acordar. Ela resmungou. Virou para o outro lado. — Só mais cinco minutinhos... Ri baixo. — Você fala igual uma velhinha. Ela abriu um olho. — Eu tô com sono. — Eu sei. Mas a escola não espera. Depois de muita negociação, consegui convencê-la a levantar. Preparei seu banho. Escolhi uma roupa bonita. Arrumei seus cachos. Coloquei um laço cor-de-rosa que ela adorava. Quando terminava de fechar sua mochila, ela fez um biquinho. — Mana... — Hum? — Você esqueceu de comprar minha mochila nova. Olhei para a mochila rasgada. A costura das laterais já estava praticamente aberta. Meu coração apertou. — Não esqueci. Só não consegui ainda. Mas eu prometo... Vou comprar. Ela sorriu inocentemente. — Promessa? Estendi o dedo mindinho. — Promessa. Ela entrelaçou o dedo no meu. — Promessa de irmã. Beijei sua testa. — Promessa de irmã. Saímos de casa de mãos dadas. O sol ainda estava fraco e o morro começava a despertar. Comércios abrindo. Música tocando ao longe. Vapores assumindo seus postos. Era uma rotina comum para qualquer morador. Menos para mim. Eu tinha a sensação de que todos olhavam na minha direção. Como se soubessem que alguma coisa havia mudado. Talvez fosse apenas paranoia. Ou talvez... Realmente soubessem. Chegamos à creche. A professora recebeu a Luiza com um sorriso. — Bom dia. — Bom dia. Ela olhou para mim. — Hoje consegue buscá-la no horário? Senti vergonha ao lembrar do atraso do dia anterior. — Consigo. Pode ficar tranquila. Luiza me abraçou. — Tchau, irmã. — Se comporta. Ela sorriu. — Sempre. Observei minha irmã entrar correndo para encontrar os coleguinhas. Era por ela. Tudo aquilo era por ela. Peguei o celular. Havia várias mensagens da Cecília perguntando por que eu tinha desaparecido no dia anterior. Respirei fundo. Respondi apenas: "Depois a gente conversa." Guardei o aparelho e continuei andando em direção à saída do morro. Foi quando um vapor atravessou meu caminho. — Maju. Parei. — Oi. Ele manteve a expressão séria. — Você não pode sair. Franzi a testa. — Como é? — São ordens. Olhei para os lados sem acreditar. — Ordens de quem? — Do Terror. Meu sangue gelou. — Isso é brincadeira? Ele balançou a cabeça. — Não. Cruzei os braços. — Eu preciso ir ao mercado. — Tem mercado aqui. — Aqui é muito mais caro. — Mesmo assim. Você não pode sair. Respirei fundo tentando manter a calma. — Eu tenho esse direito. Dei um passo para continuar andando. O vapor imediatamente bloqueou minha passagem. — Eu falei que não. Olhei para ele completamente indignada. — Vocês enlouqueceram? Nesse instante ouvi passos atrás de mim. — O que está acontecendo aqui? Reconheci a voz imediatamente. Virei. Paulo Henrique caminhava na nossa direção. — PH... Falei quase implorando. — Esse rapaz está dizendo que eu não posso sair do morro. Ele parou ao meu lado. Olhou para o vapor. Depois para mim. Seu semblante ficou sério. — Ele está certo. Meu coração afundou. — Você também? — São ordens do Terror. Passei as mãos pelos cabelos, completamente nervosa. — Eu só queria fazer compras. — Compra aqui. — Eu não tenho dinheiro para comprar aqui! Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Algumas pessoas começaram a olhar. PH respirou fundo. — Maju... Não dificulta. — Não dificulta? Olhei diretamente nos olhos dele. — Vocês não podem decidir para onde eu vou ou deixo de ir. Eu não sou prisioneira. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois levou a mão até o rádio preso em sua cintura. Ouvi apenas algumas palavras baixas. Quando terminou, voltou a me olhar. — O Terror quer falar com você. Meu estômago revirou. — Eu não quero falar com ele. — Não é um pedido. Engoli em seco. PH suspirou. — Vamos subir. Ele está esperando você na boca.
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