Capítulo 2
Marcos (Terror) narrando
Ser dono de um morro não tem glamour.
Quem vê de fora acha que a gente passa o dia ostentando dinheiro, bebida e mulher. Não faz ideia da quantidade de problemas que aparecem antes mesmo do sol nascer.
Na minha mesa havia um caderno grosso com todas as movimentações da comunidade.
Entrava dinheiro.
Saía dinheiro.
Pagamento.
Ajuda.
Dívidas.
Tudo passava primeiro pelas minhas mãos.
Levantei os olhos quando PH entrou na sala acompanhado de Sandro, vulgo sorriso.
Os dois tinham a mesma expressão séria.
Alguma merda tinha acontecido.
Apaguei o cigarro no cinzeiro.
— Fala.
Sorriso colocou um caderno sobre a mesa.
— Tem uma família que continua aumentando a dívida.
Folheei algumas páginas até encontrar o nome.
Reconheci na hora.
Era a família de um antigo morador da comunidade.
Um homem que já tinha prestado serviço para o morro durante muitos anos.
Hoje só restava a família tentando sobreviver.
Fechei o caderno devagar.
— Quanto?
— Aluguel atrasado... contas... e dinheiro de droga.
Olhei para ele.
— A droga não é das meninas.
— Não.
— Então é do pai.
PH respirou fundo antes de responder.
— Depois que ele perdeu a mulher, afundou de vez. O dinheiro que entra nunca chega dentro de casa. Quem acaba pagando é a filha mais velha.
Passei a mão pela barba.
Não gostava daquele tipo de situação.
Criança nunca devia carregar o peso das escolhas dos adultos.
— Tem mais uma coisa.
Olhei para PH.
— Ontem encontrei a filha mais velha na venda do seu Valdemir.
Esperei que ele continuasse.
— Ela estava tentando comprar leite para a irmã.
Lembrei da conversa rápida que tivemos na noite anterior.
— O velho não quis vender?
— Disse que ela já devia demais.
— E você comprou.
PH deu de ombros.
— A menina pequena estava com fome.
Sorriso soltou um riso baixo.
— Nunca pensei que fosse ver o PH gastando dinheiro com alguém.
PH apenas ignorou a provocação.
Continuei observando os dois.
— Quanto ela deve?
— Pouco na venda. O problema é o restante.
Levantei da cadeira e caminhei até a janela da boca.
Lá fora o morro despertava aos poucos.
Os vapores assumiam seus postos.
As crianças brincavam pelos becos.
Algumas mulheres já lavavam as calçadas.
Todo mundo dependia da ordem daquele lugar.
Se eu começasse a aliviar para um, amanhã teria vinte querendo o mesmo.
Mas também existiam limites.
Jamais aceitaria ver uma criança pagando pelos erros do pai.
Voltei a encará-los.
— A cobrança continua.
Os dois permaneceram em silêncio.
— Mas antes quero saber exatamente quem fez cada dívida.
Sorriso franziu a testa.
— Tá achando que tem coisa errada?
— Não estou achando.
Cruzei os braços.
— Tenho certeza.
Conhecia gente demais que colocava dívida no nome dos outros para escapar da cobrança.
— Descobre tudo primeiro.
PH assentiu.
— E depois?
— Se confirmar que a dívida é realmente dele...
Minha voz saiu firme.
— Ele vai pagar.
— E se não tiver dinheiro?
Olhei diretamente para Sorriso.
— Todo mundo encontra um jeito quando entende as consequências.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Acendi outro cigarro.
Mas minha cabeça já não estava mais ali.
A imagem da garota segurando a irmã pequena insistia em voltar.
Ela não pediu esmola.
Não fez escândalo.
Não tentou se fazer de vítima.
Só queria levar leite para casa.
Era raro encontrar alguém assim.
PH interrompeu meus pensamentos.
— Quer que eu passe lá hoje?
Assenti.
— Vai.
— Só conversar?
— Primeiro escuta.
Depois descobre quem realmente criou essa dívida.
Se confirmarem que estão tentando enganar o morro...
Deixei a frase morrer.
Os dois entenderam perfeitamente.
Sorriso fechou o caderno.
— Vou organizar isso.
Eles saíram da sala.
Continuei parado diante da janela observando a comunidade.
A vida seguia como todos os dias.
Mas, por algum motivo, aquela garota continuava ocupando meus pensamentos.
Balancei a cabeça, afastando aquela ideia.
Eu tinha problemas muito maiores para resolver.
Ou, pelo menos...
Era isso que eu insistia em acreditar.