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1881 Words
Zangado narrando Cheguei em casa já com o sangue fervendo. A madrugada tava abafada, o morro tinha dado uma acalmada depois da entrega da carga, mas eu ainda tava pilhado. Desci da moto, fechei o portão com força e subi os dois lances de escada como quem foge de pensamento. Entrei em casa chutando a porta, jogando a Glock em cima da cama como se ela tivesse queimando minha mão. Primeira coisa que eu fiz foi trancar tudo. Fechei cada janela, conferi cada cadeado. Tranquei a porta principal, virei a chave da cozinha, tranquei até a maldita área de serviço. E quando entrei no quarto, travei por dentro também. Sempre foi assim. Desde moleque. Mania de quem sabe que pode morrer dormindo. Fui pro banheiro. Tirei a camisa joguei tudo no cesto. Me olhei no espelho. Tava com olheira. Olhar cansado. Mas a mente? A mil por hora. Entrei debaixo do chuveiro e deixei a água cair forte nas costas, como se pudesse lavar o que tava dentro de mim. Mas não lavava. Nada que eu fizesse mesmo com os dias passados, não tirava o olhar dela da minha mente, mesmo com tantos acontecimentos aqui do morro, toda vez que eu estava sozinho, que eu parava, eu lembrava dela, sob efeitos de droga, ou até de cara limpa, bastava eu parar por alguns segundos que ela voltava a invadir a minha mente… e eu já não estava mais aguentando isso. A imagem dela ainda tava lá. Cravada na minha cabeça como tatuagem m*l feita. A farda preta. O jeito que ela me olhou. O dedo no gatilho. A firmeza. A p***a da presença. Monique. Eu não sabia nada além do nome que li na farda, mas sabia que não era qualquer uma. Aquela mulher tinha veneno nos olhos. E era o tipo de veneno que, ao invés de matar, vicia. Depois do banho, coloquei só uma bermuda e fui pra varanda da frente. Ela dá de cara pra rua do alto, visão privilegiada do movimento do morro. Sentei na cadeira de madeira que meu pai deixou ali anos atrás. Acendi meu baseado, dei a primeira tragada e peguei o celular. Eu já tava ficando paranoico com aquela p***a toda. Abri o navegador, comecei a procurar sem saber direito o que. Escrevi: “policial mulher BOPE Rio”. Veio um monte de matéria. Umas antigas, outras com rosto borrado. Fui passando uma por uma. O baseado queimando devagar na mão, o dedo deslizando pelo telefone com ódio e obsessão. Até que achei uma imagem de uma mulher com o olhar igual ao que me atravessou naquele beco. Ampliou. A p***a da farda. No peito dela, embaixo da caveira cruzada: M. Busson. Monique. Pronto. Era isso. Nome. Agora eu tinha o nome inteiro. Voltei pro i********:. Meu perfil fake já tava logado — nome de gringo, foto de moto, poucas postagens, tudo discreto. Ninguém liga pro fake, né? Melhor ferramenta de um homem perigoso. Comecei a caçar. “Monique Busson”. Tinha um monte. Mas eu fui um por um. Abri todos. Cada rosto. Cada seguidora. Cada bio. Até que… Achei. Foto de perfil: só o rosto dela. Linda. Sem farda. Cabelo liso, solto, preto, batendo nos ombros. Boca marcada, pele clara, sobrancelha arqueada. Um olhar que atravessa até tela de celular. E eu fiquei… travado. Cliquei. O perfil era fechado. Mas tinha ali umas nove fotos visíveis no quadradinho de cima. Não tinha foto vulgar, nem pose forçada. Mas tinha uma presença ali. Uma firmeza. Uma beleza que não precisava gritar. E eu? Tava fissurado. Apertei “seguir”. Coração bateu mais forte. A brisa do baseado já tinha ido embora. Agora era só agonia. Curiosidade. Desejo. Um tipo de t***o que me deixava puto comigo mesmo. Desci mais. Olhei os seguidores. Vi os comentários. Tinha uns caras curtindo, escrevendo elogio. E aquilo me irritou de um jeito que não sei explicar. Como se ela fosse minha. Como se alguém tivesse invadindo o que nem era meu. Fechei o celular. Abri de novo. Voltei pro perfil. Olhei de novo. Aquela boca. Aquele rosto. Caralho. — Que merda é essa? — falei sozinho, levantando da cadeira com ódio. Voltei pro quarto, larguei o celular na cama e comecei a andar de um lado pro outro. Ela era polícia. Ela era BOPE. Ela era inimiga. Mas eu já tava pensando nela de outro jeito. Já tava imaginando a voz dela sem grito. A boca dela sem ordem. O corpo dela sem farda. E isso… isso me fodia. E a última coisa que eu posso querer… É alguém como ela. Mas é justamente o que eu mais quero. Já era quase duas da manhã quando me joguei na cama de novo. Liguei a TV só pelo hábito, volume baixo, tela piscando sem sentido. Tava passando um episódio de ação, uns tiros rolando, uns policiais correndo — ironia do c*****o — mas eu nem olhava praquilo. Celular na mão. Abri o i********: mais uma vez. Ela tinha postado. Uma foto no espelho, vestido claro colado no corpo, decote que parecia esculpido. Cabelo solto, maquiagem leve, aquela boca rosada meio entreaberta como quem sabe o poder que tem. A legenda? Só um emoji de estrela. Nada demais. Mas o suficiente pra bagunçar minha cabeça. Desci o feed. Vi outra. Ela num restaurante, vestida de preto, mão no rosto, olhar direto pra câmera. Parecia tranquila, mas era aquele tipo de tranquilidade que esconde tempestade. Sexy sem forçar. Dona de si. Irritantemente linda. Mais abaixo, uma de biquíni vermelho, num barco, mar azul atrás. Corpo de deusa. Tatuagens na pele. Sol batendo no rosto. Sorriso pequeno, quase debochado. E eu ali, olhando aquilo tudo como se fosse contravenção. Meu peito pesava. Minha mente gritava. Mas eu não conseguia parar. Rolei mais. Mais uma de rosa, com os p****s quase explodindo do top, cabelo ao vento, aquele olhar de novo. — c*****o… — murmurei, coçando o queixo, já com o celular quase colado no rosto. Ela era perfeita demais. Linda demais. E ainda por cima… inimiga. Cada foto dela era um soco no meu juízo. Não tinha vulgaridade, mas tinha uma sensualidade que dominava. Era natural. Era f**a. E o pior: eu já tava imaginando ela de frente pra mim sem a farda. Sem a pose. Sem defesa. Mandei uma mensagem pra uma mina que vivia me chamando: — Tá ocupada? Ela respondeu rápido. — Pra tu, nunca. Mas eu não dei sequência. Porque na real… Eu só queria ela. Apaguei a luz, larguei o celular no peito e tentei dormir. Mas tudo que vinha era o rosto da Monique. — Diego, bora na boca. Tem reunião de carga. — voz do meu pai, seca como sempre. Levantei, esfregando o rosto. Fui pro banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes no piloto automático. Vesti uma bermuda jeans, camisa preta e botei o fuzil no coldre de peito. A Glock na cintura, carteira falsa no bolso e celular na mão. Desci pro QG. Cheguei e a galera já tava reunida. Madruga sentado numa cadeira de plástico, olhando os relatórios de venda no caderno grosso. Neno, Borel e uns quatro cria armados até os dentes. No chão, uma sacola de dinheiro ainda aberta. Os moleques contavam as notas enquanto comiam pão com mortadela. Sentei no canto. Abri o i********:. Monique não tinha postado nada, e eu tava puto demais por que queria saber o que ela tava fazendo. Fiquei vendo no looping de fotos dela De novo. De novo. De novo. — Diego? — Madruga chamou. — Fala. — Tu ouviu o que o Neno disse? — Repete aí, mano. Tava resolvendo outro bagulho aqui. Ele me olhou com aquela cara de quem sabe que eu não tô mais 100% focado. Mas não falou nada. Neno repetiu a fala sobre a porcentagem da caixinha dos vapor, e eu fiz que tava ouvindo. Mas a verdade é que minha mente tava no celular. No i********: dela. Enquanto eu olhava aquelas malditas fotos de forma incansável feito um maniaco, eu só pensava em quem estava com ela na lancha, em quem estava com ela no restaurante, o tanto de fudido que devia ficar atrás dela, e aquilo começou a me dar um nó na garganta. Nos stories dela. Na Monique. E isso… tava começando a me f***r de verdade. Tava tão mergulhado no i********: que nem vi a reunião avançando. Tava ali com o celular na mão, a mente longe, enquanto os moleques falavam de carga, caixinha, troca de rádio e calendário da semana. Até que meu pai bateu forte na minha perna, tipo quem acorda a cria no susto. — E aí… tá todo mundo de acordo? — ele perguntou, olhando pros frentes e depois pra mim. Bateu de novo. — E tu, Diego? Tá de acordo também? Todo mundo virou devagar pra minha cara. Fiquei uns segundos parado, com a tela do celular ainda acesa, mostrando o perfil da Monique. Senti o peso dos olhares. — Tô, pô… tô de acordo. Foi o suficiente. O Neno gargalhou alto, jogou a cabeça pra trás e mandou: — ENTÃO ABAIXA A BERMUDA E VIRA O CU, que todo mundo vai comer o teu, filho da p**a! Tá maluco, ó! Se o pai perguntou se tu tá de acordo, dá o cu! Tu falou que tava, p***a! A galera caiu na gargalhada. Até o Madruga soltou um risinho disfarçado, balançando a cabeça. — Esse moleque é assim mesmo — ele disse. — Ele tem cabeça pras coisas. Mas quando se perde, pode ver: é b****a. Deve tá vendo alguma vagabunda gostosa no telefone. Quando ele fica nesse estado aí, é certeza. É mulher, é p******a, é r**o balançando. — Cês são chatos pra c*****o, hein — resmunguei, ajeitando a bermuda, rindo de canto, sem paciência. Desbloqueei o celular rápido, meio que pra cortar o assunto. E aí… Pá. Novo story da Monique. Postado há 1 minuto. Cliquei. Era ela. Correndo na praia. Cabelo preso, óculos escuro, top colado no corpo, barriga definida. O sol batendo nela como se iluminasse só ela. Fiquei travado. O coração acelerou. Voltei o story. Vi de novo. De novo. De novo. A areia, a cor do mar, os prédios ao fundo. — Eu conheço esse lugar… — murmurei. Levantei da cadeira na hora. — Já é, valeu, valeu… vou ali rapidão. — Vai ali aonde, ô o****o? — gritou o Borel, rindo. — Resolver um bagulho. — Vai nada, vai atrás de xereca! — o Neno berrou. Mas eu já tava saindo. Nem ouvi o resto. Tava obcecado. Abri o story mais uma vez. Dei print. Ampliei. Aquela curva na areia. Aquela escada de pedra ao fundo. Era ali no Posto 9, na Praia da Barra. Conhecia o visual. Ela tava lá. Agora. Entrei no meu carro, arma em cima do colo Celular preso na mão. E a imagem dela na cabeça, se movendo, correndo, viva… Linda pra c*****o. Não sei o que eu vou fazer quando encontrar. Só sei que… eu vou. E ninguém vai me impedir. O que eu ia fazer quando chegasse lá e desse de cara com ela eu não sei, mas eu precisava ir atrás dela ou eu ia dar com a cabeça na parede pra tentar tirar ela da minha mente
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