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1801 Words
Monique narrando Já faz um tempo que o Reinaldo se foi. E, desde aquele dia, tudo mudou. Tudo virou ruína. O inferno que eu vivia ao lado dele, enfrentando cada operação, cada incursão, cada madrugada varada em cima de laje esperando o tiro comer, triplicou de peso e de escuridão depois da sua partida. Ele era meu parceiro, meu irmão, meu guia dentro desse buraco chamado BOPE. Era ele quem me dava respaldo quando o mundo inteiro parecia questionar se eu devia mesmo estar ali. Ele era a minha trincheira contra a podridão que habita debaixo da farda preta. Reinaldo me protegia como quem protege uma filha, mesmo que ele não gostasse de admitir isso. Ele me blindava das piadinhas nojentas, dos olhares tortos, das intenções sujas que alguns desses homens carregam no olhar. Me blindava da maldade travestida de irmandade, do desrespeito mascarado de brincadeira. Era ele quem mantinha o mundo no eixo quando a p***a toda tentava me desmontar só por eu ser mulher. Quando diziam que eu não ia aguentar, que eu era frágil demais, sensível demais, emocional demais pra encarar a linha de frente, era ele quem batia no peito e dizia que eu era melhor que muito homem ali dentro. E era verdade. Depois que ele se foi, o que era difícil virou insuportável. Mas eu não cedi. Eu não me entreguei. Ao contrário. Eu treinei. Eu treinei como uma condenada. Cada gota de suor que escorria no tatame era um grito de revolta, cada hematoma, um lembrete de que eu ainda tava viva, ainda tava de pé, ainda era a p***a de uma caveira. Eu sangrei nos treinos. Eu me arrebentei nas estratégias. Eu desci e subi favela com a alma em pedaços e o corpo no limite. E mesmo assim, eu fui além. Porque toda vez que minha mente ameaçava fraquejar, eu ouvia ele. A voz do Reinaldo, firme, imortal, me dizendo que eu fui feita pra essa guerra. Que eu fui forjada no caos. Que o mundo ia tentar me destruir, mas eu era mais forte que ele. O BOPE sempre foi meu sonho. Mas também virou meu pesadelo. Aqui dentro, não tem romantismo. Não tem espaço pra ilusões. A realidade é crua, suja, brutal. Desde que eu botei os pés nessa p***a, eu nunca mais tive uma noite de sono em paz. Eu acordo no susto, com o coração disparado, achando que tem alguém dentro da minha casa. Vivo com a sensação de que tão me vigiando, de que tem sempre um passo atrás de mim, uma sombra espreitando, uma ameaça que nunca dorme. A Glock virou extensão do meu braço. Eu durmo com ela debaixo do travesseiro. Eu acordo e a primeira coisa que procuro é o metal gelado da segurança. Eu vivo pronta pra ser atacada. E, mais ainda, pronta pra atacar. É um inferno. Um inferno que eu escolhi. Um inferno que virou casa. Moro sozinha, num apartamento pequeno, apertado, a poucos minutos do batalhão. Foi escolha minha. Solitude virou necessidade. A paz que eu não encontro no mundo, eu busco dentro dessas paredes. Porque ali, no silêncio do meu lar, é o único lugar onde eu posso respirar sem ter alguém me julgando, me testando, me desafiando. É onde eu posso lembrar quem eu sou, sem a voz nojenta de algum superior dizendo que eu vou ser mais uma estatística, que eu não tenho peito pra aguentar o tranco, que vou tomar um tiro no peito e cair igual qualquer outra. Eles não sabem de nada. Porque eu continuo aqui. Escalada. Linha de frente. Subindo morro, enfrentando bandido de fuzil na mão, com sangue nos olhos e o coração feito aço. Eu não entro em favela pra fingir. Eu não subo pra fazer social. Eu subo pra fazer guerra. O BOPE não é PM. O BOPE não vai pra rua pra revistar camelô, nem pra exibir viatura em frente a escola. O BOPE vai pra matar. Vai pra deixar claro que o morro não é terra de ninguém. Vai pra mostrar que ainda existe Estado nesse esgoto. Toda vez que eu visto a farda preta, eu me visto de propósito. Eu me visto de justiça. Eu me visto de dor e resistência. Eu me lembro do Reinaldo. Me lembro do sangue que eu vi escorrer daquele corpo. Me lembro do grito que eu dei e do juramento que fiz, de nunca abaixar a cabeça, de nunca aceitar calada, de nunca deixar essa p***a me engolir. Eu sou a caveira que carrega o peso de todos que tombaram. Eu sou a mulher que acorda todo dia sabendo que pode morrer naquela p***a de morro, mas ainda assim sobe. Porque é isso que a gente faz. A gente não recua. A gente avança. Pela ordem. Pela lei. Pela memória dos que caíram. E enquanto o meu coração bater, enquanto meus olhos enxergarem o próximo alvo, enquanto meus dedos tiverem força pra apertar um gatilho… Que eles se preparem. Porque eu não sou mais a Monique que entrou nesse batalhão querendo provar algo. Eu sou a p***a da farda preta. E essa guerra… é minha. Há poucos dias, eu revivi o pior dos meus tormentos. Fui escalada, mais uma vez, pra subir o Morro do Dendê — e só de ouvir esse nome, meu estômago embrulha, minha respiração trava e o gosto amargo da lembrança me sufoca por dentro. Aquela favela é maldita. É um túmulo aberto, um altar de dor que carrega o sangue do meu parceiro, do meu amigo, do meu irmão de alma. Reinaldo morreu ali. E desde então, cada vez que eu boto o coturno naquela terra, eu sinto a morte me encarar de volta. Sinto como se o morro me debochasse, como se aquela p***a inteira soubesse o quanto ele ainda pesa no meu peito. Eu jurei vingança. Eu jurei diante do corpo dele. Eu prometi que ia limpar aquele morro com a fúria que ele merecia. E que não ia descansar até ver os dois principais responsáveis por aquela emboscada no chão: Madruga e Zangado. Pai e filho. Raiz e herdeiro da podridão. Eu quero os dois mortos. Não é prisão. Não é justiça de tribunal. É execução. Fria. Direta. O sangue deles nos meus dedos. O último olhar de cada um deles sendo o meu. Quero ver o desespero nos olhos do Zangado. Quero ver a arrogância dele derreter em dor. Quero ver ele cair de joelhos e implorar por uma vida que eu não vou conceder. Assim como Reinaldo implorou por ar, por tempo, por salvação… e ninguém pôde fazer nada. Mas o que mais me corrói por dentro, o que me destrói em silêncio, o que arranca meu sono e me faz andar com o coração na garganta… é que eu tive a chance. A p***a da chance de ouro. Frente a frente. Eu e ele. Sozinhos. Fuzil com fuzil. A arma já tava destravada. Bastava um dedo. Uma pressão. E eu teria feito o que prometi. Teria vingado meu parceiro, teria acabado com aquela sombra que assombra o BOPE há anos. Mas eu travei. Eu não sei o motivo. Não sei o que me paralisou naquele instante. Só sei que o tempo parou. Tudo em volta desapareceu. O barulho, o cheiro de pólvora, os passos apressados, até o medo… tudo sumiu. E ficou só ele. E eu. Duas almas em conflito, duas vontades opostas se enfrentando num campo de guerra que, de repente, se calou. Os olhos dele me atravessaram como lâmina. Eram escuros, intensos, animalescos. Mas também carregavam algo que eu não consigo explicar. Um misto de fúria e fascínio, de desprezo e curiosidade. E por um segundo, eu senti que ele me via. Não como a farda. Não como a inimiga. Mas como mulher. Como alguém que, de algum jeito torto, ele reconhecia. E isso me deixou vulnerável. Desde aquele dia, minha cabeça virou um campo minado. Eu me tornei refém dos meus próprios pensamentos. E dentro do batalhão, o que já era hostilidade virou guerra declarada. Um dos caveiras viu. Viu eu travando. Viu eu não puxando o gatilho. E espalhou. Agora, todo canto ecoa desconfiança. Os olhares são duros, os comentários são baixos, e eu sou tratada como uma traidora. Disfarço. Minto. Digo que não era ele. Que era um vapor qualquer, desesperado, sujo, com cara de morto. Minha palavra contra a do caveira. E ninguém ali quer ficar do meu lado. Mas eu sei. E eu vi. Era o Zangado. E foi real. Tão real que eu ainda sinto o cheiro dele. A p***a do cheiro dele impregnado na minha pele como se tivesse me marcado. Eu odeio isso. Odeio lembrar do olhar dele. Da calma dele. Da força dele. Da presença absurda que ele carrega como se fosse um trono de sangue naquele morro. Hoje eu tô de folga. Mas não existe folga pra quem carrega o inferno dentro. Vim pra praia tentando buscar um pouco de paz, um pouco de ar, um pouco de mim. Trouxe um maço de cigarro, um óculos escuro e nenhuma vontade de viver. Fico olhando o mar, tentando deixar que ele leve de mim o que a cidade insiste em deixar preso. Mas não adianta. Acendo um cigarro e o gosto dele me lembra o gosto da raiva. A nicotina queima meu pulmão e minha consciência. Caminho pela areia sentindo a brisa bater no rosto, mas meu corpo tá tenso, travado, como se a qualquer momento eu fosse ser atacada. A angústia me consome. A culpa. A dúvida. O desejo maldito. Porque no meio do ódio que eu sinto daquele homem, tem algo que me amarra, que me puxa, que me prende. É como se ele tivesse cravado garras em mim e arrancado um pedaço da minha alma. Eu me pergunto, sem parar, por que eu vacilei? Por que eu não atirei? Por que eu não cumpri a promessa que fiz no leito de morte do Reinaldo? Me afundo em pensamentos sombrios e, num impulso, jogo o cigarro longe, com raiva, com nojo de mim mesma. O mar me chama, como se quisesse me engolir e me lavar de dentro pra fora. Eu corro. De roupa e tudo. Entro na água como quem busca exorcismo. Mergulho com força, fecho os olhos e fico ali. Submersa. Sentindo o sal queima minha pele, o frio que me acorda, a dor que me lembra que eu ainda tô viva. E é só por isso que eu levanto. Ainda viva. Mas carregando dentro de mim o gosto podre de uma falha que talvez eu nunca consiga perdoar. Porque eu quero matar o Zangado. Mas, no fundo, uma parte do meu inferno… é querer ele também de uma forma que eu não deveria, e eu sei dessa p***a… é o que está me matando
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