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1897 Words
Zangado Narrando Nasci no meio do crime. Não teve escolha. Não teve opção. Enquanto os moleque da minha idade tavam brincando de bola na laje, eu já tava vendo meu pai embrulhar cocaína na beira da cama e contando dinheiro na frente da minha mãe como se fosse papel de bala. Cresci no berço do Dendê, favela que respira pólvora e acorda com helicóptero da polícia cortando o céu. Meu pai era o Madruga, nome que até hoje mete medo em muito polícia velho por aí. Lenda viva. Não é exagero, não. O nome dele ecoava nos radinhos, nos becos, nos presídios. Ele foi o rei dessa p***a por mais de vinte anos, e quando os inimigos acharam que ele tinha caído, ele ressurgiu das cinzas mais forte que antes. Foi ele que me mostrou que aqui embaixo, respeito se conquista com sangue. E foi com ele que aprendi a nunca confiar em ninguém, nem na própria sombra. Não tive infância. Tive missão. Com onze anos, já era fogueteiro. Subia e descia ladeira com rádio na mão e medo na barriga. Mas eu gostava. Sentia o poder crescendo dentro de mim. Quando eu avisava “caveirão subindo”, todo mundo corria. Eu era só um pivete, mas já mandava no relógio do morro. E eu queria mais. Com treze, meu pai me botou pra acompanhar as boca. “Tá na hora de aprender de onde vem o nosso dinheiro”, ele falou. E eu aprendi. Aprendi a contar carga, a cobrar dívida, a punir traidor. A primeira vez que vi alguém levar um tiro na minha frente, não virei o rosto. Senti o estômago embrulhar, mas não desviei. Porque ali, naquele momento, eu entendi que o medo era um luxo que a gente não podia ter. Com quinze, eu dei meu primeiro tiro. Não foi numa guerra. Foi num “amigo” que roubou da nossa carga. Eu tremia. Suava frio. Mas meu pai tava ali, me olhando. “Ou tu vira homem agora, ou tu vai ser mais um corpo jogado na vala.” E eu virei homem. Um homem que nunca mais dormiu em paz, mas que também nunca mais teve dúvida de quem era. Aos dezoito, meu pai me deu uma pistola dourada. Presente de aniversário. “Agora tu é o frente.” E eu assumi. Com fuzil nas costas, peito estufado e o nome Madruga ecoando atrás de mim. Não precisei gritar. Não precisei me impor na força. Eu era o filho dele. Mas, mais que isso, eu já tinha meu nome. Já tinham visto o que eu era capaz de fazer. Já tinham sentido o peso do meu silêncio. A vida do crime é um casamento sem divórcio. Uma vez dentro, ou tu morre… ou vira rei. E eu decidi ser rei. Só que aqui embaixo, o trono é feito de sangue, e cada degrau é um corpo. Vi amigo cair. Vi traidor se fingir de aliado. Vi moleque bom ser tragado pela guerra. Vi mãe chorar com filho no colo. E mesmo assim, segui. Porque aqui não tem tempo pra lamentar. Aqui, ou tu endurece… ou tu é enterrado. Me chamam de Zangado porque eu não sorrio. Nunca sorri. Não depois dos quinze. Não depois daquele primeiro tiro. Dizem que sou frio. Calculista. Que meu olhar é pior que o cano do fuzil. E talvez seja mesmo. Mas é porque eu aprendi que emoção é brecha. E brecha… mata. Eu cuido do morro. Dou comida pra quem tem fome. Pão pra quem perdeu o pai. Caderno pra quem quer estudar, mesmo que o destino diga que não tem futuro. E dou bala pra quem vacila. Porque aqui, quem manda sou eu. E quem me desafia, aprende da pior forma. Já até pensei em sair. Já pensei em uma vida fora daqui. Mas a verdade é que eu amo essa p***a. Amo a adrenalina. Amo o cheiro da pólvora, o barulho do rádio, o corre dos moleque, o respeito no olhar dos moradores. Aqui, eu sou deus. Lá fora, eu sou só mais um. E eu não nasci pra ser mais um. Eu lembro exatamente de um dia. O céu tava pesado, cinza, abafado como se até o ar tivesse medo do que tava pra acontecer. Era dia de invasão. E não era qualquer uma. Era mais uma tentativa frustrada do BOPE de subir o Dendê como se aqui fosse o quintal da casa deles. Só que aquele morro já não era do meu pai. Era meu. Madruga tinha passado a coroa, e agora era eu que mandava nessa p***a. Foi uma das minhas primeiras operações como frente. E quando eu digo frente, não é só no nome, não. Era eu ali, de peito, de cara, comandando tudo no radinho, ajustando posição de vapor, tirando menor do caminho e botando os caveira pra correr na mira. Tava com o coração batendo no compasso da guerra. A adrenalina subindo no sangue como um veneno quente. Eu tava pronto. Só que naquele dia… o inferno abriu uma nova porta. Tava lá em cima, numa das lajes da Matriz, com o fuzil na mão, escutando o rádio pipocar. “Subiu! Tão subindo!” Vieram pelo beco da Palmeira, que a gente já conhecia na palma da mão. E aí começou o estalo. Bala comendo, fogo cruzado, o cheiro da pólvora invadindo os becos, criança gritando, gente se jogando no chão. O caos. A nossa rotina. Mas foi ali, naquele canto desgraçado, que eu vi a cena que me deixou travado. Eu tava com a mira pronta num farda preta. Tinha visto ele se posicionar por trás de um dos nossos menor, bem ali na curva do beco. Era questão de segundos. Um tiro e o moleque tava morto. Já tava com o dedo pressionando o gatilho. Eu ia derrubar o farda. Só que aí… Ele puxou o gatilho. Mas não foi no menor. O tiro foi pra esquerda. Acertou outro BOPE. Um farda preta, que vinha encostado, se escondendo atrás do nosso menino pra ter cobertura. O primeiro farda sacou isso, e mandou a bala sem pestanejar. Eu juro por tudo que é mais sujo nesse mundo… eu fiquei bolado. A cena ficou lenta. O nosso menor se jogou no chão, assustado, como se tivesse visto um milagre. E eu? Fiquei com o fuzil travado, encarando aquela cena, tentando entender o que caralhos tinha acabado de acontecer. Foi quando eu vi ela. Morena. Linda. Com uma farda preta suja de sangue, de lama, de dor. Ela correu até o corpo que caiu. Gritava o nome do parceiro com uma voz que cortava o barulho da guerra. Eu ouvi aquele grito. Ecoou na minha mente como se fosse meu. E o pior… doeu. Aquilo me doeu, c*****o. Ela se ajoelhou no chão, meteu a mão no ferimento do cara, tentava estancar o sangue com as próprias mãos. Chorava. Gritava. E mesmo assim, continuava ali, protegendo ele, como se o mundo ao redor tivesse parado. E, por um instante, parou mesmo. Pelo menos pra mim. Ninguém entendeu. Nenhum dos meus entendeu. Mas eu gritei no rádio: — NINGUÉM ATIRA NELA! ENTENDEU? NINGUÉM ENCOSTA NESSA MULHER! Os vapor se entreolharam. Alguém até resmungou: “Tá maluco, Zangado?” Mas eu repeti, firme. — REPETE A ORDEM, p***a! E ninguém atirou. Enquanto o BOPE recuava com o corpo daquele farda morto nos braços daquela morena, eu fiquei parado, com o fuzil no peito e o sangue fervendo. Até hoje, eu não entendi o porquê. Não sei que p***a foi aquela. Que sentimento do c*****o foi esse. Mas eu sei que eu vi verdade no olhar dela. Vi desespero de perder alguém que era mais que parceiro. Vi uma dor que nem o BOPE treina pra suportar. E vi uma mulher de verdade ali. Uma guerreira. Daquelas que o sistema engole, mas não cala. Desde então, eu sonho com essa p***a. Às vezes, no meio da madrugada, acordo suado, ouvindo aquele grito. Vejo aquele olhar. Sinto a mesma coisa que senti na laje: respeito. Confusão. Raiva. Desejo. E sabe o que me fode? Ela deve achar até hoje que foi a gente que matou o parceiro dela. Que foi o Dendê que levou o farda dela pro saco. Mas não foi. Foi deles. Foi o próprio cu preto que puxou o gatilho. Foi ele que matou o outro. De propósito? De inveja? De rixa? Sei lá. Mas eu vi a mira. Eu vi o ódio. Eu vi a precisão daquele tiro. E aquela p***a não foi erro, não. A diferença é que quando um dos nossos vacila, a gente enterra. Quando um deles mata o outro, eles jogam a culpa na favela. Jogam na gente. Mas eu não sou o****o. E ela também não é burra. Talvez um dia… ela descubra. E quando descobrir, eu quero tá lá. Olhando nos olhos dela. De novo. Nem que seja pra ela me odiar mais. Ou pra finalmente entender que nessa guerra suja… Até a caveira mente. Isso já tem tempo, e eu nunca esqueci… Agora, mais recente… Outro dia mesmo, mais uma vez tava na laje vendo o sol descer quando ouvi o barulho do helicóptero. Sabia que era operação. Já tinha escutado a movimentação estranha nos rádios. Senti no peito que vinha merda. Mas não corri. Nunca corro. Fiquei ali, com o fuzil no ombro e o cigarro aceso, esperando o mundo desabar. E desabou. A polícia entrou quebrando tudo. Rajada pra todo lado. Gente gritando, criança chorando. Todo aquele mesmo cenário de todas as vezes que eles tentam “pacificar” a nossa área. Sendo que a única coisa que eles trazem é o odio, destruição, caos. Pra nós arrumar depois, isso quando não matam os nosso, tudo pela bandeira de merda deles, que eles juram ser a certa, a salvação da pátria, um bando de fudido. Mas eu tava calmo, diante daquele cenário. Ali é meu terreno. Eu conheço cada viela, cada telhado, cada buraco de fuga. E foi quando virei o beco que a vi novamente. Farda preta. Olhar de gelo. Postura de quem não abaixa a cabeça pra ninguém. BOPE. Ela tava ali, apontando a arma, com o dedo no gatilho. E eu também. Nossos olhos se cruzaram. Dois mundos diferentes. Dois lados da mesma guerra. E por um segundo, só um segundo, o tempo parou. Eu podia ter atirado. Ela também. Mas não fizemos nada. Ficamos nos encarando, tentando entender o que era aquilo que nos travava. Um instinto? Um respeito? Um desejo? Não sei. Só sei que naquele segundo, vi nela a mesma coisa que vejo no espelho todo dia: dor. Raiva. E uma vontade de viver que desafia a morte. Ela era linda. Mas não era isso. Era algo mais profundo. Um tipo de conexão que nem o tráfico, nem a farda consegue explicar. Um silêncio que grita. E isso… me irrita. Porque sentimento é fraqueza. E fraqueza… custa caro. Alguém começou a gritar perguntando por ela, e ela saiu, ela vacilou, eu vacilei, e eu não consigo entender mais uma vez… Mais uma vez nos cruzamos, dessa vez eu pude sentir seu cheiro, foi como se eu pudesse ver a sua alma, e eu queria mais, eu queria ver mais daquela mulher sem aquela farda, mas eu não posso, eu tenho que tirar ela da minha mente, custe o que custar…
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