Gabriel
Parei no limite da porta da sala, o corpo de Maya pressionado contra o meu. Meus olhos escanearam o corredor, buscando a saída dos fundos que eu tinha planejado, mas o que vi me fez travar. Uma rajada de metralhadora estraçalhou os vidros da entrada principal, e o grito de comando lá fora não era de policiais. Eram vozes roucas, sedentas, coordenadas.
A rota de fuga tinha se tornado um corredor de morte. Sair agora significava expor Maya a um fogo cruzado que nenhum colete seria capaz de segurar. Eu precisava de um ponto cego, um lugar que os invasores ignorariam na pressa de tomar o prédio.
Certamente, quem estava a frente do comando sabia bem o que estava procurando. Eu só precisava deixar Maya segura.
— Plano B — rosnei, mudando a direção e puxando-a para o lado oposto ao fluxo do pânico.
— Gabriel, para onde você está indo? A saída é para lá! — ela protestou, a respiração vindo em curtos espasmos de pânico.
— A saída agora é um matadouro, Maya. Confia em mim. Não vai dar para passar.
Parei diante de uma porta de metal pesado, quase invisível sob a escada de serviço, nos fundos do corredor administrativo. Era o depósito de materiais de limpeza e manutenção. Um lugar sem janelas, com paredes de concreto grosso e uma porta que, se trancada por dentro, pareceria apenas mais um armário de vassouras negligenciado. Sim, desde que vim para cá eu tinha analisado tudo a minha volta.
Arrombei a fechadura com um chute seco — um movimento preciso e silencioso que não condizia com um professor de literatura — e puxei Maya para dentro, fechando a porta e girando a tranca interna no mesmo instante em que uma explosão lá fora fazia o chão vibrar.
O escuro nos engoliu. O único feixe de luz vinha de uma pequena f***a abaixo da porta, cortando a penumbra como uma lâmina.
O espaço era minúsculo. Estávamos cercados por baldes, vassouras e prateleiras de ferro carregadas de produtos químicos que exalavam um cheiro forte de cloro. Maya recuou até bater as costas na parede do fundo, o peito subindo e descendo violentamente sob a jaqueta. Eu estava a centímetros dela, os ouvidos atentos ao som de botas pesadas e gritos que agora ecoavam dentro do corredor que acabáramos de deixar.
— O que a gente faz agora? — ela perguntou, a voz falhando, as mãos tateando o escuro até encontrarem meus braços. — Eles estão dentro da escola, Gabriel. Eu ouvi... eles não vieram pra prender ninguém. Vieram pra matar.
— Ninguém vai entrar aqui — afirmei, colocando as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a no meu espaço para que ela sentisse a minha solidez. — As paredes são de concreto maciço e a porta é de ferro reforçado. Para eles, somos apenas uma sala trancada entre dezenas de outras. Estamos em um ponto cego.
Ficamos em silêncio por um momento, e o contraste foi imediato. Lá fora, o caos metálico das armas. Aqui dentro, o som da nossa respiração misturada, rápida e quente. A adrenalina ainda corria nas minhas veias, transformando cada sentido meu em um radar. Na penumbra, os olhos de Maya brilhavam, dilatados, fixos nos meus como se eu fosse a única coisa real naquele pesadelo.
— Você não é um professor — ela sussurrou, a voz carregada de uma descoberta assustadora e, estranhamente, fascinante. — O jeito que você previu o cerco... o jeito que você se move no escuro. Você mente tão bem quanto eu, Gabriel.
Eu não respondi. A verdade era um luxo que eu não podia dar a ela, não com o som da morte batendo na parede ao lado. Mas o modo como ela me olhava — não com medo de mim, mas com uma intensidade que beirava a obsessão — estava me desarmando de uma forma que nenhum fuzil conseguiria.
— O que importa agora é que você está segura — falei, minha voz baixando um tom, tornando-se perigosamente íntima naquele cubículo.
— Segura? — Ela soltou uma risada nervosa, os dedos subindo pelo meu peito, agarrando o tecido da minha camisa de botão com uma força desesperada. — Eu sou a irmã do DG. Eu nunca estive segura na vida. Mas, pela primeira vez... eu não sinto que preciso carregar o mundo nas costas.
De repente, uma nova sequência de disparos, muito mais próxima, ecoou no corredor. O estalo seco do metal atingindo a porta do quartinho fez Maya se encolher com um grito abafado. Ela se agarrou a mim com ainda mais força, escondendo o rosto no meu pescoço, o corpo tremendo em espasmos de puro terror. Eu podia sentir o cheiro do medo emanando da pele dela.
Envolvi seus ombros, colando-a contra o meu peito, forçando uma calma que eu estava longe de sentir.
— Shhh... escuta. A porta é de ferro. Estamos em um ponto cego. Eles estão atirando ao léu. Eu te prometo, Maya... você vai ficar bem.
Ela se afastou milímetros, levantando o rosto para me encarar. Os olhos castanhos, dilatados pela penumbra e pelo pânico, fixaram-se nos meus. O desafio de sempre estava lá, mas misturado a uma vulnerabilidade que me desarmou completamente.
— Cala a boca, professor — ela sussurrou, a voz trêmula, mas carregada de uma intensidade que não tinha nada a ver com o tiroteio. — Só por um minuto, para de ler as entrelinhas.
Eu a encarei por um longo e torturante segundo. O perigo lá fora era real, mas a tensão física e emocional aqui dentro, entre os meus braços e a parede fria, era o único fogo que eu realmente não sabia como combater. Eu era um fugitivo, um homem de trinta anos com as mãos sujas de sangue, e ela era a filha do perigo, uma menina de dezoito anos que eu deveria proteger, não possuir. Estamos em meio a uma guerra, porr@.
Engoli em seco, sentindo a razão travar uma batalha perdida contra o instinto. Lentamente, desci as minhas mãos pelas laterais do corpo dela, sentindo a curva da sua cintura sob a jaqueta. Meus dedos se apertaram ali, firmes, marcando-a, prometendo uma proteção que beirava a obsessão. Eu não ia soltá-la. Nem agora, nem nunca.