Gabriel
O som da bala perfurando a parede de tijolos acima de nossas cabeças foi como um chicote estalando no ar. Eu não pensei; apenas envolvi Maya com mais força, puxando-a para o vácuo protetor sob a mesa de carvalho. Eu podia sentir cada tremor do corpo dela, o calor da sua pele contra o meu peito, e o contraste gritante entre a "Dona do Morro" e a garota apavorada que agora buscava abrigo no meu abraço.
Eu a segurei. Forte, firme e como quem diz em silêncio que vou protegê-la.
De repente, um ruído estático cortou o caos. Vinha da mochila dela. O rádio. Soltei o ar que estava preso em meus pulmões e afrouxei o abraço para que ela alcançasse a mochila.
Maya tateou o tecido com as mãos trêmulas até encontrar o aparelho. O visor brilhava em um verde fantasmagórico.
— Maya! Maya, na escuta? — A voz do DG explodiu pelo alto-falante, distorcida pelas interferências, mas carregada de um desespero que eu nunca imaginei ouvir naquele homem.
Maya estava em choque, seus dedos tremiam enquanto seguravam o aparelho.
— Fala comigo, p***a!
Ela apertou o botão, a voz saindo pequena, quase um sussurro quebrado.
— Tô... tô aqui, DG. Estou na escola. Na sala de aula.
— Escuta bem! — DG gritou, e ao fundo eu conseguia ouvir rajadas de fuzil que pareciam uma orquestra do inferno. — A invasão é pesada, pequena. É o terceiro comando junto com a milícia. Eles cercaram as entradas principais. Não estamos conseguindo chegar na escola. Se protege! Entra em algum lugar, não sai daí por nada!
— Eu estou segura, DG — ela mentiu, e seus olhos castanhos, dilatados pelo medo, encontraram os meus enquanto ela dizia aquilo. — Eu estou escondida. Ninguém me acha aqui.
— Eu vou descer assim que abrirmo caminho. eu chego até você...
— Não... eu to bem.. ninguém vai conseguir me achar. É você quem precisa se cuidar. Vou ficar escondida até tudo acabar. Fica bem... por favor.
— Tô seguro pequena. E sabendo que está seguro posso fazer meu trabalho. Não sai de onde está por nada.
— Pode deixar.
O rádio desligou com um estalo seco. O silêncio que se seguiu na sala foi preenchido apenas pelo som do helicóptero que parecia querer arrancar o telhado da escola. Maya continuou me encarando, o rádio ainda apertado contra o peito. Ela tinha acabado de garantir ao irmão que estava segura, mas nós dois sabíamos que aquela sala era uma armadilha de vidro e giz.
— Por que você mentiu? — sussurrei, meus olhos escaneando cada centímetro da porta e das janelas.
— Porque se ele vier me buscar agora, ele morre — ela respondeu, a voz recuperando um traço de firmeza. — E você também. Iriam nos achar. Todos nós.
Eu não perdi tempo. O tempo era o único luxo que não tínhamos. Meus pensamentos giravam em alta velocidade, traçando rotas que eu esperava nunca mais ter que usar. Eu conhecia a estrutura daquele prédio. O corredor principal era uma zona de morte, mas o duto de ventilação do refeitório dava para os fundos da quadra, onde o muro era baixo e levava a um beco cego.
— Me escuta — falei, segurando o braço dela com uma pressão que não permitia discussões. — Esse lugar é um alvo fácil. Se uma granada cair no pátio, essas janelas vão se tornar estilhaços no seu rosto. Precisamos sair. Agora.
— O DG disse pra eu ficar! — ela protestou, o pânico voltando a brilhar em seus olhos. — Lá fora é pior, Gabriel!
— Lá fora eu sei como nos mover. Aqui, somos patos sentados — eu a puxei, obrigando-a a se manter agachada enquanto nos arrastávamos para fora do vão da mesa. — Eu tenho um plano. Confia em mim, não vou te deixar morrer aqui esperando por um irmão que não pode vir.
Ela hesitou por um segundo, olhando para a porta onde o som de passos pesados e gritos em uma língua que não era a dos "crias" começava a se aproximar. Ela apertou minha mão com uma força surpreendente.
— Se você estiver me levando para a morte, Gabriel... eu juro que te levo junto.
— Justo — respondi, com um sorriso sombrio que não combinava com um professor de literatura. — Fica tranquila que eu não to a fim de morrer hoje.
Segurei o braço dela e, mantendo nossos corpos o mais rente possível ao chão, comecei a puxá-la para fora da sala. O corredor estava envolto em fumaça e o cheiro acre de extintor de incêndio. Maya soltou um soluço baixo quando passamos por uma marca de sangue na parede, mas eu não a deixei parar.
Eu não era mais o homem que fugia. Eu era o homem que liderava. E enquanto eu a guiava pelo labirinto de concreto sob o som das balas, eu só tinha uma certeza: ninguém tocaria em Maya Albuquerque enquanto eu ainda tivesse fôlego nos pulmões.