Linha de Fogo

918 Words
Gabriel Passei as últimas quarenta e oito horas repetindo um mantra mental: Ela é uma garota. Você é um homem. Ela é o caos. Você busca o silêncio. Tentei erguer muros de concreto em volta do que senti naquela viela, me convencendo de que a curiosidade de Maya era apenas a petulância de uma adolescente mimada pelo poder do irmão. Mas aí eu entrava na sala e a via. E todas as vezes em que isso acontecia o meu sentimento era o mesmo. Algo dentro de mim se apertava e eu me recriminava ainda mais. Hoje não foi diferente. Maya já estava lá, sentada na última fila, com aquela postura de quem é dona do mundo. A aula de hoje era sobre o Romantismo — o idealismo, o sacrifício por amor, a morte como fuga. Um tema perigoso para quem estava tentando ser puramente pragmático. — Então, para os românticos, a emoção valia mais que a razão? Que bando de otários — Maya soltou, a voz carregada de deboche, interrompendo minha explicação sobre Álvares de Azevedo. Alguns alunos riram. Eu parei, com o giz na mão, e me virei para ela. Em vez da irritação de costume, senti um canto do meu lábio se repuxar. Havia algo de magneticamente cômico na forma como ela tentava reduzir séculos de literatura à sua lógica implacável do asfalto. — Por que acha isso? — a questionei, mas não esperei por uma resposta. — A razão nem sempre te mantém vivo, Maya — respondi, mantendo o tom calmo. — Às vezes, é o que você sente que te dá forças para correr quando as pernas falham. Mas entendo que, para você, tudo precise ser prático. — No morro, se você parar pra sentir muito, vira alvo, professor — ela rebateu, girando a caneta entre os dedos, os olhos fixos nos meus. — O amor não para bala. — Talvez não. Mas dá um motivo para querer que a bala não te acerte — retruquei. — E acha que aqui essa é uma escolha? — Deveria ser. Todos deveríamos ter escolhas. — "Deveria ter" e "Ter de verdade" são opções bem diferentes —ela diz atrevida. — Uma pena, não acha? Ela ficou em silêncio por um segundo, e o ar na sala pareceu vibrar. Eu vi a farpa pronta na língua dela, mas ela apenas deu um sorriso de lado, um desafio silencioso que me fez esquecer, por um instante, de todos os meus muros. O sinal tocou, anunciando o fim do expediente. Pelo visto fomos salvos do embate. Os alunos se levantaram em um turbilhão de mochilas e conversas altas. Maya guardou suas coisas com calma, mantendo o ritmo lento, como se estivesse esperando que a sala esvaziasse. Eu estava organizando meus papéis quando o primeiro som cortou o ar. Pá! Pá-pá-pá! O som seco e metálico não era de rojão. Eu conhecia aquele ritmo. Era cadenciado, letal. Meu coração disparou. — Abaixa! — gritei, a voz saindo no automático, o instinto de soldado que eu tentava enterrar assumindo o comando. No segundo seguinte, a sirene do morro — o som longo e agudo que avisava sobre operações policiais ou invasões — começou a berrar, ecoando pelas paredes da escola. O pânico se instalou nos corredores. Gritos de alunos e o som de mesas sendo arrastadas preencheram o vácuo entre os disparos. Maya estava congelada perto da porta. A máscara de "patroa" tinha caído, dando lugar a uma palidez cadavérica. — Maya, sai da direção da janela! Agora! — Corri até ela, agarrando seu braço e puxando-a para o chão, atrás da minha mesa de madeira pesada. — É operação... — ela sussurrou, a voz trêmula, enquanto o som de um helicóptero começava a sobrevoar a escola, baixo demais, fazendo as vidraças tremerem. — O DG... eu preciso ir até ele. — Você não vai a lugar nenhum! — segurei seus ombros, forçando-a a olhar para mim. Os tiros agora pareciam vir do pátio da escola. — Escuta o calibre disso. Não é incursão normal. É guerra. — Me solta, Gabriel! Meus homens estão lá fora, eu não posso ficar aqui escondida como uma... — Como uma garota? — cortei, a voz dura. — Agora não é hora de ser a irmã do dono do morro. Agora é hora de ficar viva. Um estrondo de estilhaços de vidro explodiu no fundo da sala. Uma bala atravessou a janela onde ela estava sentada segundos antes, cravando-se na lousa, exatamente onde eu tinha escrito sobre a "morte como fuga". Puxei Maya para mais perto, sentindo o corpo dela tremer contra o meu. O cheiro de perfume agora estava misturado ao cheiro acre de pólvora e poeira. Eu sentia o coração dela batendo descompassado contra o meu peito. — Fica embaixo da mesa. Não se mexe — ordenei, meus olhos escaneando a sala em busca de uma saída ou de qualquer coisa que pudesse servir de arma. — Por que você não está com medo? — ela perguntou, os olhos castanhos arregalados, fixos nos meus. — Você não está tremendo... Por que seus olhos mudaram, Gabriel? Eu não respondi. Não podia. O professor de literatura tinha ido embora. O homem que sabia exatamente como sobreviver a uma emboscada estava de volta. E, enquanto o som dos fuzis destruía a paz daquela tarde, eu soube que meu disfarce não duraria muito mais tempo. Eu teria que tirá-la dali. Mesmo que, para isso, eu tivesse que mostrar a ela o monstro que eu tanto tentava esconder.
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